O Domingo Gaudete ilumina o Tempo do Advento com uma alegria discreta e profunda: “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos! O Senhor está próximo”. Já na iminência da chegada do Natal, o Evangelho nos coloca novamente diante de João Batista, agora preso, mas ainda atento às obras de Cristo. Mesmo acorrentado, ele não perde a capacidade de escutar e de orientar os discípulos. E aqui já nasce um primeiro sinal: a graça chega aonde nós não imaginamos e a Palavra alcança lugares que nenhuma força humana alcança.
Propomos a seguir sete pontos para a sua oração (lectio) com este Evangelho, os quais comentamos no podcast (https://www.youtube.com/watch?v=3_Sc89XE53c).
- João ouviu falar das obras de Cristo
Do fundo da prisão, João recebe notícias do que Jesus faz. Os sinais realizados pelo Senhor não são interrompidos mesmo em nossas prisões, medos ou limites. A graça atravessa muros. João não vê, mas escuta; e isto é suficiente para reacender a fé. Quantas vezes também nós dependemos do testemunho dos outros para reconhecer que Deus continua agindo. A alegria renasce quando percebemos que Jesus não está ausente, mesmo quando tudo parece fechado.
- Aquele que vem
A indagação de João toca o coração do Advento: “És tu aquele que há de vir?”. O Messias esperado não obedece aos nossos cronogramas, mas chega. O Advento nos recorda que Ele veio na carne, vem todos os dias pela graça, e virá, um dia, na Sua glória. O movimento é sempre duplo: Ele vem ao nosso encontro e nós também devemos ir até Ele. Quem vive nessa esperança aprende a reconhecer sua presença na Palavra, na Eucaristia e nos pobres. Aqui brota uma alegria que não depende das circunstâncias, mas da certeza de que o Senhor está realmente perto.
- A pergunta de João
“Devemos esperar um outro?” João havia apontado Jesus como o Cordeiro de Deus, mas agora faz esta pergunta. Alguns exegetas veem aqui uma dúvida sincera; outros entendem que João deseja que seus discípulos se encontrem diretamente com o Cristo. Seja como for, a pergunta ecoa para nós: Aceitamos Jesus como o Messias anunciado ou ainda esperamos um outro? Às vezes, criamos expectativas sobre Deus que Ele nunca prometeu cumprir. Ele não se ajusta ao tipo de Messias que imaginamos; Ele é o Messias que precisamos. O Tempo do Advento nos purifica dessas falsas expectativas.
- Os sinais do Messias
Jesus não responde aos discípulos do Batista com teorias, mas com obras: Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos veem, os surdos ouvem, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados. São os sinais que o Messias predito por Isaías realizaria. O Reino já se faz presente. Mas um ponto chama a atenção: Isaías também falava que o esperado iria “proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos” (Is 61,1) e João, no entanto, continuava encarcerado. Jesus, de fato, veio para nos dar a liberdade, mas o faz de forma muito superior. A maior prisão é a do pecado e é principalmente desta que Ele veio nos libertar. A alegria do Evangelho nasce quando percebemos que em Cristo somos verdadeiramente livres. Ele retira os fardos pesados e abre caminhos onde não havia saída.
- “Feliz quem não se escandaliza de mim!”
Jesus conhece as expectativas do seu povo e sabe que muitos rejeitariam um Messias pobre, manso, sem armas e sem poder político. Por isso diz: “Feliz quem não se escandaliza de mim!”. A alegria cristã exige humildade para acolher um Deus que age na pequenez. A cruz será sempre escândalo para uns e loucura para outros, mas é nela que Deus manifesta o seu infinito amor por nós. O Advento nos prepara para acolher esse mistério com fé.
- João elogiado por Jesus
Depois que os discípulos partem, Jesus fala sobre João: Ele não era um homem instável como um caniço agitado pelo vento, nem alguém seduzido por comodidades. João é firmeza, é mais do que um profeta. Ele é o mensageiro enviado à frente do Senhor para preparar o Seu caminho. A grandeza de João está na sua missão e na sua fidelidade. Ele é o amigo do Esposo e essa é a sua alegria, a de quem encontrou seu lugar na história da salvação.
- O menor no Reino
Jesus conclui com uma afirmação surpreendente: “Em verdade vos digo, de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele.”. João representa o limite entre as antigas promessas e o cumprimento definitivo em Cristo. Ele aponta, mas não entra. Quem está no Reino, mesmo sendo pequeno, recebeu mais do que João pôde ver. Somos maiores não por mérito, mas por graça. Esta é uma profunda alegria do Domingo Gaudete: Deus escolhe os pequenos e os coloca no centro do seu Reino.
Conclusões práticas
- Releia sua vida e reconheça onde Cristo já veio ao seu encontro.
• Peça a graça de esperar o Senhor sem criar expectativas humanas sobre Ele.
• Olhe para os sinais do Evangelho ao seu redor: quem precisa ser curado, ouvido ou levantado por meio de você?
• Cultive a alegria discreta que nasce da fé e não das circunstâncias.
• Reze por quem vive aprisionado por medo, pecado ou tristeza; que também possa ouvir as obras e os sinais que Cristo continua a realizar.
Passos da Lectio Divina
Leitura (lectio)
Leia Mateus 11, 2–11 devagar. Observe o movimento entre João, os discípulos e Jesus. Note cada um dos sinais, também do ponto de vista espiritual.
Meditação (meditatio)
Que perguntas você traz hoje ao Senhor? Em que ponto da sua vida você ainda espera “um outro”? Você tem ouvido e visto as obras do Senhor?
Oração (oratio)
Peça: “Jesus, abre meus olhos para reconhecer os teus sinais e fortalece meu coração na Tua alegria”.
Contemplação (contemplatio)
Permaneça diante do Cristo que vem. Deixe que o Espírito Santo reacenda em você a alegria do Reino.
Ação (actio)
Escolha um gesto concreto que manifeste a alegria cristã: um perdão, uma visita, uma reconciliação, um serviço silencioso.
Até a próxima semana!
Shalom!