Formação

A fraqueza e a graça

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A vivência do nosso Batismo e da vocação específica de cada um requer uma espiritualidade capaz de integrar todo o nosso ser. Requer uma sadia relação entre o passado e o presente. Para isso precisamos mesmo da obra de autoconhecimento a partir da graça e da amizade com Deus. Precisamos dessa entrada em si mesmo para conhecermos melhor nossa história e nos reconciliarmos bem com ela. Na verdade, a nossa descida à "mansão dos mortos" precisa ser com Cristo, para que nossas feridas e carências, mazelas e fraquezas não se tornem acusações ou autocondenação. Só Deus em nós pode nos fazer rezar como o Salmista: "Confesso, Senhor, que sou uma verdadeira maravilha porque sou obra prodigiosa de tuas mãos" (cf. Sl 139, 14). 

 

A vida nova que brota do nosso encontro com Cristo, do nosso processo de maturação em Deus para melhor assumirmos a nossa história vai exatamente agindo na maneira como vivemos, como nos relacionamos e como lhe damos com os anseios e sentimentos. Há muita energia que precisa ser canalizada para o bem e essas disposições podem ser aproveitadas a partir das nossas limitações colocadas sob a luz da graça. Os sentimentos e limitações não podem ser nossos inimigos, mas temos que aprender a extrair desses inevitáveis estados interiores o que é bom, harmonizá-los e conduzi-los para que se tornem escadas e não tropeços nossos, muito menos para os outros.

 

Sentimentos como raiva, ciúmes, inveja, medo, rancor, baixa estima, desânimo, são, sem dúvidas, forças poderosas que podem – se não trabalhadas em nós para o bem – tornarem-se empecilhos para a vida e para a realização profissional, afetiva e vocacional, especialmente para os casados. É preciso fazer um caminho "ordo amoris", ou seja, entrar na história com a luz de Cristo e sua misericórdia, nos deixarmos com Cristo ver o amor de Deus em todas as circunstância e situações de nossas vidas, sermos reconciliados e curados, e permitirmos que nossa liberdade interior seja liberta de tantos fardos e condicionamentos colocados por nós mesmos e pelos outros. Impressionante como o que dizem de nós muitas vezes podem nos levar a viver como se estivéssemos no céu ou no inferno.

 

É importante que vivamos o processo de cura e reconciliação interior, não querendo partir de cima, de uma postura de sempre esperar de Deus sem fazermos nossa parte, mas partir das nossas próprias fraquezas. O que indispensavelmente se parte sempre de cima é do auxílio da graça, mas ela vem, não como mágica, mas como auxílio indispensável para que possamos ir para Deus e para os irmãos com tudo aquilo que somos e temos. Magistralmente tem-se que observar aqui a vida e a Doutrina de Santo Agostinho sobre a graça, que não anula, desfacela ou isenta a ação da nossa liberdade. No entanto, temos sempre necessidade dela. Não seremos felizes vivendo de "forma pelagiana", ou seja, como se tudo dependesse somente das nossas forças, mas compreendendo que não podemos nos redimir sozinhos. Talvez esse seja um risco de uma espiritualidade inicial quando não bem orientada. Talvez uma espiritualidade paralela – não em sentido de valor, mas de uma redenção com as próprias forças – encontramos na manipulação das faculdades da razão como a fonte de nossa redenção. Alguns autores famosos parecem ganhar muito dinheiro nos nossos dias com livros de auto-ajuda que ensinam e encantam com excelente sabedoria literária, mas que se equivocam, quando demonstram ser possível descobrir quase todos os segredos da vida Jesus, fazendo dele uma leitura somente psicológica.

 

Nem sempre o mistério da dor e do sofrimento, ou mesmo dos abismos da alma, dos traumas e infernos da nossa história são compreensíveis somente com uma leitura psicológica ou "uma formulação dialogal" com nossos sentimentos. Não podemos dizer que a receita vale para todos, os Evangelhos o demonstram isso. No entanto, sou de acordo que a espiritualidade precisa ser a mais próxima do homem e mais realista no processo de ajudá-lo no equilíbrio da vida e das relações. Aproveito para dizer que a espiritualidade mística dos santos e santas do Carmelo, não é de pouco valor. Os escritos de Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santa Teresinha, não são teorias ou vagas espiritualidades. Eles falaram como ninguém do mistério da dor e da fraqueza humana, como da misericórdia e da graça, a partir de suas próprias vidas, e tudo porque conheceram os segredos do coração de Cristo. Cristo lhes revelou o seu coração cheio de amor. Conheceram seus pecados, é verdade, mas conheceram absolutamente o que é capaz de fazer a graça na vida de uma pessoa que se abre a ela com fé.

 

A tendência hoje é sempre mais esconder falar do pecado e da graça, para se encontrar uma via mais fácil aos homens. Não são poucos os que acreditam que, no final das contas, todos nós seremos perdoados e ganharemos o céu, porque a misericórdia de Deus não "vai condenar ninguém", – como se fosse Deus quem nos condenasse – basta o sacrifício do Seu Filho. Não sei se isso vai acontecer, pois como católicos não somos chamados a crer e a viver nessa vã expectativa. O que precisamos é viver na esperança, na fé em Cristo e na força do amor. Amor esse que não é inconseqüente, sem compromisso, sem renúncia. Os amores do mundo não recebem todos, o nome de "amor de Deus". "É bem verdade que o amor apaixonado de Deus por seu povo – pelo homem – é ao mesmo tempo um amor que perdoa" (cf. Bento XVI, Deus é amor, 10). No entanto, o amor é um processo de passagem de níveis: sair de um amor escravo e retribucionista para um amor de filho. O amor nunca está concluído, mas passa sempre para níveis mais elevados de compromisso e doação (cf. Jo 13,1).

 

Concluo na esperança de que a graça opere em nós a sua maravilhosa obra de salvação, não sem nossa colaboração, é claro. Alegra-me muito o fato de que todos nós precisamos ser redimidos. E essa redenção jamais excluirá o altíssimo dom da nossa liberdade. Para uma espiritualidade verdadeira não se pode nunca esquecer que precisa ser ela também redimida pela graça, em cada nova aventura no coração e nos abismos da miséria humana. "Só Cristo revela ao homem quem ele mesmo é". (GS, 22). Acredito que para uma espiritualidade verdadeira esta frase conclusiva fala muito: "Do fundo de nossas impotências experimentamos o poder da graça de Deus, o amor de Deus, que só conseguimos realmente entender quando chegamos ao fim, quando houvermos desistido de querer nos tornar melhores por nossas forças. A graça de Deus se completa em nossa fraqueza (II Cor 12, 9)" (Grun e Dufner, Vozes, 2004) . Não tenhais medo! Levantai-vos! Vamos! Assim seja.


Antonio Marcos



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