Formação

A Gnose persegue os primeiros séculos da Igreja

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Gnosticismo 

    Nos seus três primeiros séculos, os cristãos tiveram que enfrentar, além das heresias, dois tipos de adversários: os pagãos e o gnosticismo.

    A gnose é uma corrente sincretista que funde entre si elementos das religiões orientais, da mística grega e da revelação judeo-cristão. Tentou envolver o Cristianismo no processo de fusão, pondo em xeque a pureza da mensagem evangélica nos séculos II/III. Por isto já em 1Tm 6,20 há uma advertência a Timóteo para que evite “as contradições de uma falsa gnose (pseudónymos gnosis)”.

    Os gnósticos atraiam os homens prometendo-lhes um conhecimento superior ao da simples fé cristã, reservado aos iniciados. Esse conhecimento (gnosis) forneceria a solução cabal dos problemas fundamentais da filosofia (origem do mal, gênese do mundo, redenção e felicidade definitiva do homem).

    Os gnósticos eram, antes do mais, dualistas, isto é, admitiam um princípio bom, que seria a Divindade (simbolizada pela Luz) e, em oposição, a matéria (simbolizada pelas trevas), má por si mesma. Da Divindade emanariam os seres (eones) num sistema de (365?) ondas concêntricas, cada vez mais distanciadas do bem e próximas do mal. O homem seria um elemento divino que, em consequência de um acontecimento trágico, terá sido condenado a se revestir de matéria (corpo) e viver na terra. O Criador do mundo material seria um eon inferior, que era identificado com o Deus justiceiro do Antigo Testamento.

    Para libertar as centelhas de luz ou de bem aprisionadas na matéria e levá-las ao reino da luz, terá sido enviado ao mundo um eon superior, o Logos (Cristo). Este revelou aos homens o Deus Sumo e Verdadeiro, que eles ignoravam/ anunciou-lhes que o mundo da luz os espera e lhes transmitiu as maneiras eficazes de vencer e eliminar a matéria.

    O Salvador assim entendido tinha, conforme algumas escolas gnósticas, apenas um corpo aparente (docetismo) ou, segundo outras, tinha um corpo real, no qual o Logos desceu e permaneceu desde o Batismo até a Paixão de Jesus.

    A salvação só pode ser obtida pelos homens pneumáticos (espirituais) ou gnósticos, nos quais prevalece a luz. A maioria dos homens ou a massa é material (hílica) e será aniquilada como a matéria. Entre os espirituais e os materiais haveria os psíquicos ou os simples crentes católicos, que poderiam chegar a gozar de uma bem-aventurança de segunda ordem.

    Os gnósticos admitiam o retorno de todas as coisas às condições correspondentes à sua natureza originária.

    Pelo fato de desprezarem a matéria, os gnósticos deveriam praticar severa ascese ou abstinência de prazeres carnais. Facilmente, porém, passavam ao extremo oposto: recusando o Deus do Antigo Testamento, que era também o autor da Lei, rejeitavam normas de conduta moral e caiam em libertinismo desenfreado. Julgavam supérflua a confissão de fé perante as autoridades hostis, porque a verdadeira profissão de fé, o martírio (testemunho, em grego) consistia na gnose; quem possui a esta não está obrigado a sacrifício algum.

    O gnosticismo se ramificou em escolas diversas: a oriental, mais rígida, a helênica, mais branda, a de Marcião, mais chegada ao Cristianismo, a dos Ofitas (cultores da serpente), a dos Cainitas, a dos Setianos… Floresceu principalmente entre 130 e 180, contando com chefes de capacidade notável (Basílides, Valentim, Carpócrates, Pródico…). Produziram rica bibliografia (tratados de filosofia, comentários de textos bíblicos, hinos…), de que nos restam poucos fragmentos.

    O confronto entra a gnose aparatosa e o Cristianismo nascente foi de enorme perigo para este; a Igreja teve que desenvolver eloquente e densa apologética representada principalmente por São Justino, Santo Irineu, Tertuliano, Hipólito de Roma… Os bispos se uniram entre si como autênticos guardas do patrimônio da fé; Roma, onde os principais mestres da gnose queriam implantar-se, soube desenvolver ação particularmente benemérita. Na confusão que entre os cristãos podia estabelecer-se no debate doutrinário, o critério para julgar a veracidade de determinada sentença era a conformidade ou não desta com os ensinamentos da Igreja de Roma; estes eram decisivos, pois a comunidade de Roma estava fundada sobre a pregação e o martírio dos dois principais Apóstolos (Pedro e Paulo): “É com esta igreja (de Roma), em razão de sua mais poderosa autoridade de fundação, que deve necessariamente concordar toda igreja, isto é, devem concordar os fiéis procedentes de qualquer parte; nela sempre se conservou a Tradição que vem dos Apóstolos” (Contra as Heresias III, 3,1-3). 

Dom Estevão Bettencourt


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