Formação

A Igreja católica e as eleições

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A política é assunto que interessa a Igreja Católica em suamissão, em seu caminho de evangelização. É também razão intrínseca daexistência dos partidos políticos. Contudo, o tratamento dado à política, apartir da fé, guarda nítidas diferenças e distinções quando se compara com aabordagem e as práticas dos partidos. Ora, trata-se de crivos com confluênciasem muitos pontos, é verdade, porém, essencialmente distintos e, não rarasvezes, antagônicos.

 A fé é norteada por princípios e valores que constituem umterritório próprio para a compreensão do fenômeno político. Os partidos seancoram em configurações ideológicas que, mesmo se revestindo de valores eprincípios, têm suas inerentes inconsistências, reveladoras das fragilidades edos limites que a ideologia impõe à condição partidária. Estas fragilidadespermitem, até com facilidade, sua dissolução ou a prospecção de aliançaspartidárias mesmo quando as respectivas impostações ideológicas guardam levesou fortes contradições e até negações.

 É moralmente abominável um partido se juntar a outro, poreste ou aquele interesse, desconsiderando completamente suas diferenças, seusprincípios. O interesse a ser atingido na conquista do poder e na garantia doseu exercício não pode ser a prioridade. Assim se faz pelos propósitos dealcançar metas, desconsiderando métodos, promovendo alianças inexplicáveis. Oimportante deixa de ser a fidelidade aos princípios para se considerar apenas outilitário, que assegura atingir os objetivos: vencer as eleições e conquistaro poder.

 Ética e política são dois termos difíceis de se dissociar –no entanto, se desagregam com muita facilidade no âmbito partidário. Basta serdo interesse do partido e que haja perspectiva da conquista do poder paranegociar valores e se abandonar os princípios. Certamente, aqui se podeconstatar uma das razões, entre outras, que comprova a fragilidade dospartidos. A fé, como questão de princípio, e não apenas de meio utilizado para alcançaras metas a qualquer custo, não pode, sob pena de decompor-se, jamais negociarvalores.

 Essa impossibilidade da não-negociação ética, elementointrínseco da fé cultuada, não permite uma compreensão ou abordagem que venhama colocar no mesmo balaio, sem guardar as distâncias e diferenças, a féprofessada na Igreja, os partidos e a política. A Igreja, pela exigência de suaconfissão de fé, não pode abrir mão desse princípio sob pena de tornar-separtidária e perder sua força própria, advinda de valores e princípios que adefinem.

 O poder político não é simplesmente algo que se conquista ese exerce segundo critérios próprios de grupos ou indivíduos. Por isso, éimprescindível a referência a uma moral – ancorada em princípios éticosconsistentes – para julgar este poder. Essas considerações conceituais quepodem parecer muito abstratas, porquanto o são, remetem à discussão recorrentequanto à posição da Igreja Católica. A posição partidária é própria e esperadano exercício da cidadania de cada indivíduo, quando vota, por exemplo. Oeleitor escolhe nomes, muitas vezes independentemente do partido e de suasconfigurações ideológicas. A Igreja respeita esta liberdade e autonomia e asincentiva. Contudo, a Igreja não pode abandonar sua trincheira ética e suaadesão irrenunciável a valores e princípios morais. A partir dessa plataforma aIgreja influencia, define rumos, forma consciências, participa na definição deresultados. A Igreja não pode trocar o discurso produzido no bojo da ética e damoral por aquele feito simplesmente no âmbito partidário. Este tem suaimportância e metas a serem alcançadas. Há quem pense que o discurso partidárioseja mais forte e eficaz do que aquele que é produzido a partir de valores eprincípios. Resultado de configuração obsoleta que considera o discursopartidário persuasivo a partir de promessas variadas e das ladainhasrepetitivas sobre o que se fez ou o que será feito, ou ainda o espúrio recursode candidatos que se alfinetam.

 O discurso partidário na campanha eleitoral, por isso mesmo,não toca os grandes temas, como as reformas do Estado, a reforma tributária, aagrária e outras. O resultado é uma conversa repetitiva, com esterilidades pelaimpossibilidade de realização do quanto se promete. A força política e odiscurso da Igreja não são partidários. A Igreja delineia rumos e critériospara as escolhas, sem se confundir com partidos e suas campanhas eleitoreiras.


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