Formação

A lei custodia o amor

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Entre lei e amor se estabelece uma espécie de circularidade e depericorese. Ainda que seja certo que o amor custodia a lei, também éverdade que a lei custodia o amor. De diversos modos a lei está aoserviço do amor e o defende. Sabe-se que «a lei foi instituída para ospecadores» (cf. 1 Tm 1, 9) e nós somos ainda pecadores; sim: recebemoso Espírito, mas só como primícias; em nós, o homem velho convive aindacom o homem novo, e enquanto existam em nós as concupiscências, éprovidencial que existam os mandamentos que nos ajudam a reconhecê-lase a combatê-las, talvez inclusive com a ameaça do castigo.

A lei é um apoio que se dá à nossa liberdade, ainda incerta e vacilanteno bem. É para, não contra, a liberdade, e vale dizer que quemacreditou que tinha que rejeitar toda lei em nome da liberdade humana,errou, desconhecendo a situação real e histórica na qual tal liberdadeatua.

Junto a esta função, por assim dizer, negativa, a lei leva a cabo outrapositiva, de discernimento. Com a graça do Espírito Santo, nós aderimosglobalmente à vontade de Deus, fazemo-la nossa e desejamos cumpri-la,mas não a conhecemos ainda em todas as suas implicações. Estas nos sãoreveladas pelos acontecimentos da vida, mas também pelas leis.

Existe um sentido ainda mais profundo no qual se pode dizer que a leicustodia o amor. «Só quando existe o dever de amar – escreveuKierkegaard –, então só o amor é garantia para sempre contra todaalteração; eternamente libertado em feliz independência; assegurado emeterna beatitude contra todo desespero» [10].

O sentido destas palavras é o seguinte. O homem que ama, quanto maisintensamente ama, com maior angústia percebe o perigo que corre esteamor seu, perigo que não vem de ninguém, mas dele mesmo; bem sabe, comefeito, que é volúvel e que amanhã, ai!, poderá cansar-se e deixar deamar. E como, agora que está no amor, vê com clareza a perdairreparável que isso comportaria, eis aqui que se previne «atando-se» oamor com a lei e ancorando assim seu ato de amor – que acontece notempo – na eternidade.

Isso supõe que se trate de verdadeiro amor e não, como diz o filósofo,de um jogo e de uma brincadeira recíproca. O verdadeiro amor – explicao Papa na encíclica Deus caritas est – «leva o que agora aspira aodefinitivo, e isto em um duplo sentido: enquanto implica exclusividade– só esta pessoa –, e no sentido do ‘para sempre’. O amor engloba aexistência inteira e em todas as suas dimensões, inclusive também otempo. Não poderia ser de outra maneira, já que sua promessa aponta aodefinitivo: o amor tende à eternidade» [11].

O homem de hoje questiona cada vez com maior frequência qual relaçãopode haver entre o amor de dois jovens e a lei do matrimônio e quenecessidade há de «vincular-se» ao amor, que é por natureza liberdade eespontaneidade. Assim, são cada vez mais numerosos os que tendem arejeitar, na teoria e na prática, a instituição do matrimônio, e aescolher o chamado amor livre ou a simples convivência.

Só quando se descobre a relação profunda e vital que existe entre lei eamor, entre decisão e instituição, pode-se responder corretamente aessas perguntas e dar aos jovens um motivo convincente para «atar-se» aamar para sempre e para não ter medo de fazer do amor um «dever». Odever de amar protege o amor do «desespero» e o faz «feliz eindependente», no sentido de que o protege do desespero de não poderamar para sempre. Dá-me a um verdadeiro enamorado – aponta Kierkegaard– e verás se o pensamento de ter que amar para sempre é para ele umpeso ou a suma felicidade.

Esta consideração não vale só para o amor humano, mas também, e commaior razão, para o amor divino. Por que – pode-se perguntar –vincular-se a amar a Deus, submetendo-se a uma regra religiosa, por queemitir os «votos» que nos «obrigam» a ser pobres, castos e obedientes,visto que temos uma lei interior e espiritual que pode obter tudo issopor «atração»? É que, em um momento de graça, você se sentiu atraídopor Deus, você o amou e desejou possuir-lo para sempre, totalmente, etemendo perdê-lo por sua instabilidade, você se «atou» para protegerseu amor de toda «alteração».

Nós nos atamos pelo mesmo motivo que Ulisses se atou ao mastro da nave.Ulisses queria a toda custa voltar a ver sua pátria e sua esposa, aquem amava. Sabia que tinha que passar pelo lugar das sereias, etemendo naufragar como tantos outros antes dele, pediu para seramarrado ao mastro depois de ter tapado os ouvidos de seuscompanheiros. Chegado ao luar das sereias, foi seduzido, queriaalcançá-las e gritava para que o soltassem, mas os marinheiros nãoouviam, e assim superou o perigo e pôde chegar à meta.


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