A ênfase dessa questão não é a definição exata da liberdade, mas a necessidade da experiência com o Bem que nos imprime os valores sólidos que devem ser base das nossas escolhas e presidir a nossa apreciação

O Catecismo da Igreja Católica ensina: “Enquanto não se tiver fixado definitivamente em seu bem último, que é Deus, a liberdade comporta a possibilidade de escolher o bem e o mal” (Cat, 1732) e ainda: “É falso pretender que o homem, sujeito à liberdade, baste a si mesmo, tendo por fim a satisfação de seu próprio interesse no gozo dos bens terrenos” (Cat, 1740).
O que a Igreja quer nos advertir com essas palavras? Que não somos obrigados a decidir pelas conveniências da atualidade que pressionam os nossos sentidos, mesmo quando o nosso coração humano apela pela felicidade.
Existem, de fato, muitas ânsias dentro de nós e é bastante compreensível os nossos entusiasmos diante do fácil, mas nem sempre tudo deve ser permitido por ser compreensível. Exatamente pelo dom da liberdade que trazemos, devemos avaliar, ver se o que escolhemos não mina necessariamente esse dom precioso, a fim de que o apelo que nos libera não seja nossa prisão.
Tem-se feito várias reflexões sobre a gravidade e os efeitos dos anti-valores, mas o enfoque urgente deve ser a necessidade da experiência com o Belo e o Bem verdadeiro. Escolher o belo e o bem tem sua força motriz numa experiência com o que é o Belo e o Bem, em absoluto.
É muito válido termos a consciência e a percepção das “vantagens” que impõem aos nossos sentidos uma escolha imediata do que, muitas vezes, compromete de maneira nociva a realização do nosso coração humano. Existe um imediatismo tragando de nós aquela pausa salutar que nos permite ver, apreciar e julgar o bem em questão; não é apenas a consciência da gravidade que nos faz recuar diante dos anti-valores, mas uma proximidade com o Belo é que pode nos fazer escolher, além de identificar o bem verdadeiro.
Sendo Cristo o Belo e o Bem por excelência, já não podemos acomodar nossas escolhas aos ritmos da cultura, da moda e de toda e qualquer linguagem de felicidade que não seja Ele mesmo a referência, porque tudo aquilo que não nos direciona a este fim compromete gravemente nossa liberdade: “A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada para Deus.”(Cat 1731). Tudo aquilo que nos lança nesse imediatismo entorpece nossa capacidade de identificar e reagir àquilo que é mal e só a experiência de trazer os sentimentos de Cristo pode filtrar e definir em nós o que nos torna verdadeiramente livres.
A ênfase dessa questão não é a definição exata da liberdade, mas a necessidade da experiência com o Bem que nos imprime os valores sólidos que devem ser base das nossas escolhas e presidir a nossa apreciação. O problema deixa de ser o volume e a velocidade do que nos incute os ritmos da cultura, da moda, da mídia em geral, e vem a ser a gravidade de uma consciência embotada, que por isso urge em retornar ao que é belo e bom em definitivo. Não se trata de uma culpa isolada dos anti-valores, mas de uma responsabilidade individual e comunitária de examinar onde estão firmadas os nossos critérios, quais são suas referências.
Estamos todos sob a ordem do “agora ou nunca” de uma avalanche de toda espécie de valores, no entanto, se estivermos sob o escudo de preferirmos Deus a tudo, a liberdade será preservada e autêntica, uma vez instruídos pelo que de fato é Belo e Bom. Tudo aquilo que contraria a finalidade da nossa existência que é ser para Deus não pode sob nenhuma circunstância ser nomeado liberdade e hesitar à ordem do “seja livre para escolher” não nos torna menos livres, ainda que fiquemos, por preferir a Deus, sem um lugar no mundo.
A aceleração e a diversidade das opções nos seus tipos, níveis, gêneros, etc., não devem nos obrigar ao “escolha já”, mas se, resguardados por esta experiência que aqui insistimos, pautando nossas escolhas pelo conhecimento de Deus, sempre haverá para nós um caminho mais seguro e mais curto rumo à saciedade tão esperada do nosso coração humano.
Temos alegado sede de felicidade ao gastar nossos ânimos no que tem nos lançado tão longe dela, sem dar-nos conta de que o problema da felicidade, hoje, é também ignorar seu Autor verdadeiro.
Meyr Andrade de Sousa
Comunidade Católica Shalom
Formação jul/2002