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A Melhor Viagem pelo Melhor Estado

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Os dois jovensamigos acomodaram-se na primeira fila, nas poltronas da janela e da ponta, semesconder sua decepção por não terem podido ficar um ao lado do outro. “Ai, meuDeus! O avião está lotado! Tomara que ninguém venha sentar-se na cadeira domeio. Assim podemos conversar melhor”, diziam, baixinho, olhando ansiosos ospassageiros que entravam.

 “Pronto! Já entrou todo mundo! Vem para cá,Taty…”

 “Ai, graças a Deus! Estava louca para te falarsobre um discernimento que estou fechando…”, disse a jovem de tez muitobranca e brilhante.

 “Senhorita, por favor, este assento é docavalheiro aqui,” disse o comissário, empurrando um senhor bastante idoso emuma cadeira de rodas da companhia.

 Acomodado o velhinho, Tatiana e Rodrigo trocamaquele olhar de “e agora?”, enquanto se calam para ouvir as instruções desegurança. Dadas as explicações, o ancião logo enterra o queixo no peito eronca alto e bom som. Aliviados, os dois amigos entabulam conversa animada:

 “Ah, Drico, como eu amo a Deus! Como Deus é bom!Cara! eu quero me dar toda a ele, todinha! Quero dar o melhor, o melhor de mim!Quero me dar toda a Ele, sem divisão, sem meio termo, entende? Com o coraçãoindiviso! Não quero ser como esse povo que só dá uma parte, só dá um pedaço, sódá uma área da vida, sabe como é?”

 “Hum hum! Tem tanta gente assim, não é, Taty?Meu sonho também é poder ser todo Dele, dar o melhor para ele, sem reter nadapara mim! Mas quero dar mais que tudo, quero dar o melhor, quero ser o melhorpara ele. Olha… não conta para ninguém, mas estou caminhando para osacerdócio…

 “Nossa! Que show! Queria ser homem só para poder dar o melhor para Deus,para ser sacerdote como Jesus!”

 “Sabe quem está discernindo, também? O João Pedro!”

 “Quem!!!… o Djeipi?!? … E a Moncola, comofica?”

 “Parece que ficou um pouco chocada, mas eleexplicou que queria ser todo de Deus e que não queria dividir o coração entreDeus e ela…”

 “Senhor? Aceita o lanche? … Senhorita …Senhor? …” Foi dizendo a comissária enquanto servia biscoitos e bebida, oúnico lanche naquela companhia mais econômica.

 “Ooohhh! Minha saia!” gritou, sem querer, Taty,enquanto limpava a longa saia bege molhada pelo suco de uva que o velhinhoentornara com suas mãos trêmulas de parkinsoniano.

 “Des- desculpe, moça! F-foi s-sem s-emsentir…” salpicou o ancião tingindo a blusa branca de Tati com mil farelos debiscoito molhado de suco e saliva.

 “Não tem importância… Não se preocupe…”Tentava sorrir Taty, pensando no estrago em seu traje típico de celibatária.

Lancheacabado, vinte folhas de toalha de papel molhadas depois, Taty retorna ao seulugar, aliviada de ver que o velhinho voltara a roncar, queixo enterrado nopeito. Notou que seu cinto de segurança havia-se aberto e ainda pensou em pedir ao Drico queo apertasse, mas, e se o velho acordasse? Melhor deixar. Afinal, não era assimtaaão perigoso…

 “Estive pensando, Drico, vou ligar para aMoncola. Ela também pode fazer como eu! Escolher o estado melhor, o estado maisperfeito. Assim que…”

 “UgH!Agh! Urrk! Blaaugh! Bloooof!” Vomitou o velho, sujando os doisconfidentes.

 “O saco! O saco de vômito!” Gritava Taty, semraciocinar que, na primeira cadeira, o saco fica em um bolso na parede. “Drico!Drico! Nossa, você está verde!” E, aflita, gritava pela comissária, semlembrar-se de que lhe bastava apertar o botão com este fim.

Enjôossocorridos, cores rosadas de volta, duzentas toalhas de papel depois:

 “Perdão, moça! Perdão, meu filho!”

 “Ora, não foi nada,” disseram os dois tentandoser o mais naturalmente perfeitos possível.

 “É que, sabe, er, eu ronco aaacordado. Não pudedeixar de prestar atenção na con-versa de vocês… É q-que eu sou bispo eméritoe o as-sunto me intereressou.

 “Biiispooo?!?” Disseram em coro. “Sua bênçao!”, masnenhum teve coragem de beijar-lhe a mão. Era melhor não arriscar. Podia nãoestar bem limpa…”

 “Casei-me em 1940, com vinte e um anos. Fuiim-mensamente feliz com a Isolda… Tivemos quatro fi-lhos, mas tinham umproblema genético e morreram aos quatro, cinco anos. Isolda mor-reu do parto doquarto, em 1945. Queria ca-asar-me de novo, mas senti-me chamado aosacerdócio… com seis anos de viúvo, entrei para o seminário. E-era o quechamavam de “vocação tardia”… e deu uma risadinha.

 “Enquanto amei Isolda – e a amo até hoje! – e-lasempre me ajudou a amar a Deus acima de tu-do, acima dela mesma e,principalmente, acima de mi-m mesmo… Enquanto vocês falavam de “dar o melhor”para Deus, de “ter o coração indiviso”, todo para De-us, eu, cá com meus botões,fazia força para discernir se eu como padre ou como bispo dava para Deus al-gomais ou melhor do que quando Isso-lda era viva. E, sabem…” disse, reticente,enquanto olhava de um para o outro, “com a Isolda ou sem a Isolda, meu coraçãosempre foi indiviso, sempre foi todo de Deus. A Isolda e eu sempre o amamosacima de todas as coisas…” Diante do silêncio dos dois, continuou:

 “Como celibatário, padre, bispo, eu sempreprocurei amá-lO acima de todas as coisas. É o primeiro mandamento, não é mesmo?Todo mundo é feliz se viver isso!” E, sorrindo, pensativo:

 Fico a me per-guntar se dou o melhor paraDeus… Quando a gente é jovem, a gente ama os superlativos: “o maior”, “omelhor”, “o mais completo”, “o mais alto”… E, levantando as sobrancelhas:“Faz parte!… Depois, a gente a-prende que em Deus não há superlativos… Eleé e basta! En-tão, a gente aprende que todo superlativo que se re-fere a nósmesmos é pura presunção… Deus é Amor! Amar é a ma-neira perfeita de seentregar ao A-mor!”

 “M-Mas…” ia dizendo Rodrigo, quando a mãotrêmula do bispo apoiou-se levemente em seu braço, como que pedindo silêncio, eele continuou, babando um pouco e falando lento:

  “Eu fuiposto na pol-trona, mas vocês não me ajudaram… não me dirigiram a palavra…Senti-me atrapalhando, mas não podia trocar de lugar… fingi dor-mir paradeixá-los à vontade. T-tenho Parkinson e, sozinho, não consigo comer direito…der-ramo tudo. Esperei que vocês me aju-dassem… Vomitei, mas quem me a-judoue limpou foi a co-mis-sária… Preciso ir ao banheiro, mas não tenho coragem depedir ajuda a vocês… Sei que incomodo… ainda levará algum tem-po paraenten-derem que o me-lhor estado de vida é o único estado, a me-lhor vocação éa única vocação, o coração indiviso é o co-ração que ama a todos e a todas ascoisas, mas a-ma a Deus aci-ma de tudo o que ama: a vocação à caridade… oestado do amor…sim… a caridade… a caridade…o coração todo… amor!”

Olhosgraves, cheios de água, o velhinho olhou para Taty, para Drico, e voltou a enterraro queixo no peito enquanto uma mancha escura alastrava-se por sua calça.


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