O entendimento é a grande alavanca propulsora dos processos pessoais, familiares e políticos. Também dos avanços necessários na vida dos diferentes grupos humanos. Nenhuma instituição ou grupo progridem sem a força do entendimento. Os atrasos e os emperramentos costumeiros são frutos da incapacidade de entender, com clarividência, os acontecimentos, o sentido verdadeiro e o alcance das coisas nos diferentes cenários e no contexto histórico-social. Na verdade, o entendimento é dom de Deus. Por isso, é sempre mais do que uma simples capacidade de fazer ajustes necessários ou articular situações e propósitos. É o maior dom. É um dom de Deus. É um dos sete dons do Espírito Santo. Os cristãos suplicam, insistentemente, a Deus a graça do entendimento. É o bem maior na construção de todo o bem que se quer buscar. É uma qualidade indispensável e um elemento insubstituível na composição da nobreza própria da dignidade humana. Só é nobre quem é capaz de entender adequadamente. A nobreza humana em cada pessoa tem o tamanho da sua capacidade de entendimento. A largueza da capacidade de entendimento, nas mais diferentes situações da vida e no exercício de responsabilidades, garante a nobreza de toda ação e a adequação dos exercícios próprios de cada um.
Por falta de adequado entendimento não poucos foram condenados injustamente na história da humanidade. O entendimento inadequado perpetuou no tempo muitas inimizades. Um buraco irreparável entre pessoas, grupos familiares e nações. As guerras fratricidas são um vil resultado de entendimentos comprometidos. Os genocídios são expressões da mais alta maldade humana como fruto de entendimentos equivocados por parte de governantes e dirigentes poderosos no mundo. Ao eleger seu entendimento como o mais completo do mundo, houve quem considerasse uma grande biblioteca desnecessária e supérflua. Decidiu, à luz do seu estreito entendimento, queimá-la. Talvez bastasse, pensava este, diante das grandes idéias uma única idéia. O resultado da estreiteza da compreensão é o comprometimento do entendimento justificando a perpetração de crimes, o absurdo dos preconceitos e as arbitrariedades das discriminações vergonhosas que têm pautado o dia a dia da sociedade. É fruto de um determinado tipo de entendimento o rumo político tomado por uma sociedade e a definição das prioridades na consideração da realidade social.
O entendimento é para o coração e para a inteligência tão importante quanto o alimento o é para o corpo. Incontestavelmente, existem problemas que se perpetuam em razão da falta de adequado entendimento. Não menos comprometedor é o desperdício que caracteriza a sociedade em razão da falta de um entendimento clarividente de questões, necessidades, pontos de vista e prioridades. É o entendimento que leva cidadãos e cidadãs a uma concepção classista de seus privilégios e da manutenção de benesses que comprometem o bem de todos. Não são poucas as instituições que vão à bancarrota como resultado de entendimentos egoístas, justificando configurações e funcionamentos que não passam de vaidades e gosto pela manutenção de benesses até injustas. A sociedade, por isso, para garantir sua saúde e conferir diariamente os necessários ajustes na sua direção, precisa de instâncias para produzir e fomentar o entendimento. Um conselho, seja ele o mais simples na sua composição, pode garantir no interno de uma instituição ou de um grupo a conquista dos elementos para o devido discernimento e a busca da verdade na construção do seu bem, o bem de todos. O entendimento é fruto, pois, de um acurado diálogo derrubando cristalizações muito comuns arquitetadas e mantidas por todos aqueles que se pensam donos da verdade, perpétuos nos lugares e condições que ocuparam certa vez. Assim, em todo processo educativo se torna importante a aprendizagem do como ser capaz de adequado entendimento. A ocupação de cargos e lugares para fazer andar uma sociedade depende da capacidade de entendimento próprio de homens e mulheres no exercício de sua cidadania. De grande importância é, pois, a aposta que uma sociedade faz nas suas instituições enquanto instâncias para gerar o verdadeiro e indispensável entendimento para uma sua justa condução.
Olhando o cenário complexo da sociedade, composto de tantas e importantes instituições, neste momento em que se abre o ciclo de uma nova legislatura, em foco estão o parlamento e as assembléias legislativas. Assim como noutras instituições, de diferentes identidades, é uma verdadeira aposta o funcionamento do parlamento e das assembléias. Espera-se a produção do adequado entendimento, confeccionando leis, clareando princípios e garimpando as decisões justas e embasadas na verdade como garantia do bem de todos. O entendimento justo favorece em primeiro lugar aos outros.
* Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)
Fonte: CNBB