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A noite e a Páscoa

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O apóstolo João, que na última ceia estava ao lado de Jesus, conta que “Satanás entrou em Judas” e mesmo assim ele recebeu o pedaço de pão. Depois saiu imediatamente para entregar o Senhor nas mãos dos inimigos. João acrescenta laconicamente: “Era noite” (Jo 13, 30 b).

Esta “noite” é chamada também de “hora das trevas”. A humanidade vinha mergulhada em trevas. Jesus, como homem normal, suou sangue para assumir sobre si toda a escuridão da maldade, porque esta era a vontade do Pai.

O poeta entendeu o limite do poder das trevas: “Faz escuro, mas eu canto”. A passagem de Jesus pelo sofrimento e a morte visa a libertação das trevas, a vitória da vida sobre a morte, o aconchego de Deus aos seres humanos.

Certa vez viajei de Bogotá ao Rio de Janeiro. Quando o avião já estava à altura de Manaus, voltou rapidamente e como que se atirou sobre a pista em Bogotá. Prenderam um passageiro italiano, acusado de querer explodir o avião. Depois de longo interrogatório, o italiano voltou e a viagem reiniciou. Ninguém sentou ao lado do acusado, ninguém falou com ele. Achei isto errado e fui sentar uns minutos a seu lado. Perguntei: Como vai? E ele: “Agora melhor; alguém falou comigo”. Daí eu soube que o moço fora a Bogotá para acabar o namoro com uma jovem colombiana e ela, para se vingar, denunciou-o como terrorista!

Esta solidão foi pesada para o passageiro italiano.Pois Jesus veio tirar seu povo da solidão, da separação de Deus. Ele veio reconciliar o ser humano com o Criador.

Por contraste com a “noite”, o evangelista Marcos anuncia a ressurreição “de madrugada”. “Depois de ressuscitar na madrugada do primeiro dia após o sábado, Jesus apareceu” (Mc 16,9). Por isto a liturgia pascal exclama: “Este é o dia que o Senhor fez para nós; alegremos-nos e nele exultemos”.

O espírito pascal é de alegria e de esperança. Deus está conosco, Ele está por nós. Portanto, quando as trevas ameaçam nosso coração, confiemo-nos ao Senhor. Ele venceu as trevas.

Quem sabe, olhemos ao redor de nós: há alguém na solidão, no abandono, na exclusão? Façamos como Jesus: sejamos nós a ponte do aconchego, da reconciliação. É o conselho do Apóstolo Paulo: “Revesti-vos de compaixão… suportai-vos mutuamente; perdoai-vos se alguém tem queixa do outro; como o Senhor vos perdoou, fazei assim também vós” (Cl 3, 12-13).

Feliz Páscoa!

Dom Sinésio Bohn
Bispo de Santa Cruz do Sul

Fonte: CNBB


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