Formação

A parábola dos talentos

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» Provérbios 31, 10-13.19-20.30-31; 1 Tessalonicenses 5, 1-6; Mateus 25, 14-30

Hoje iremos meditar o Evangelho do talentos.  Infelizmente, no passado, o significado desta parábola foi habitualmenteconfundido, ou pelo menos muito reduzido. Quando escutamos falar dos talentos,pensamos imediatamente nos dons naturais de inteligência, beleza, força,capacidades artísticas. A metáfora é usada para falar de atores, cantores,comediantes…

 O uso não é totalmente equivocado, mas sim secundário. Jesusnão pretendia falar da obrigação de desenvolver os dons naturais de cada um,mas de fazer frutificar os dons espirituais recebidos dele. A desenvolver osdotes naturais já nos impulsiona a natureza, a ambição, a sede de lucro. Àsvezes, ao contrário, é necessário frear esta tendência de fazer valer ospróprios talentos, porque pode converter-se facilmente em afã por fazercarreira e por impor-se sobre os demais.

 Os talentos dos quais Jesus fala são a Palavra de Deus, afé, ou seja, o Reino que Ele anunciou. Neste sentido, a parábola dos talentosse conecta com a do semeador. À sorte diferente da semente que ele lançou – queem alguns casos produz sessenta por cento; em outras, ao contrário, fica entreos espinhos, ou são comidas pelos pássaros do céu –, corresponde aqui odiferente lucro realizado com os talentos.

 Os talentos são, para nós, cristãos de hoje, a fé e ossacramentos que recebemos. A palavra nos obriga a fazer um exame deconsciência: que uso estamos fazendo destes talentos? Nós nos parecemos com oservo que os faz frutificar ou com o que os enterra? Para muitos, o próprio batismoé verdadeiramente um talento enterrado. Eu o comparo a um presente que serecebeu de Natal e que foi esquecido num lugar, sem nunca tê-lo aberto oujogado fora.

 Os frutos dos talentos naturais acabam conosco ou, quandomuito, passam aos herdeiros; os frutos dos talentos espirituais nos seguem àvida eterna e um dia nos valerão a aprovação do Juiz divino: «Muito bem, servobom e fiel! Foste fiel no pouco, e por isso eu te darei autoridade sobre omuito: toma parte no gozo de teu senhor».

 Nosso dever humano e cristão não é só desenvolver nossostalentos naturais e espirituais, mas também de ajudar os demais a desenvolveremos seus. No mundo moderno existe uma profissão que se chama, em inglês,talent-scout, descobridor de talentos. São pessoas que sabem encontrar talentosocultos – de pintor, cantor, ator, jogador de futebol – e os ajudam a cultivarseu talento e a encontrar um patrocinador. Não o fazem de graça, naturalmente,nem por hobby, mas para ter uma porcentagem em seus lucros, uma vez que se afirmaram.

 O Evangelho nos convida a ser talent-scout, «descobridoresde talentos», mas não por amor ao lucro, e sim para ajudar quem não tem apossibilidade de afirmar-se sozinho. A humanidade deve alguns de seus melhoresgênios ou artistas ao altruísmo de uma pessoa amiga que acreditou neles e osanimou, quando ninguém acreditava neles. Um caso exemplar que me vem à mente éo de Theo Van Gogh, que sustentou toda a vida, econômica e moralmente, do seuirmão Vincent, quando ninguém acreditava nele e não conseguia vender nenhum deseus quadros. Eles trocaram mais de seiscentas cartas, que são um documento dealtíssima humanidade e espiritualidade. Sem ele não teríamos hoje esses quadrosque todos amamos e admiramos.

 A primeira leitura do domingo nos convida a deter-nos em umtalento em particular, que é ao mesmo tempo natural e espiritual: o talento dafeminilidade, o talento de ser mulher. Contém, de fato, o conhecido elogio damulher que começa com as palavras: «Uma mulher completa, quem a encontrará?». Esteelogio, tão belo, tem um defeito, que não depende obviamente da Bíblia, mas daépoca na qual foi escrito e da cultura que reflete. Se prestarmos atenção,descobriremos que este talento está inteiramente em função do homem. Suaconclusão é: bendito o homem que tem uma mulher assim. Ela lhe tecemaravilhosas vestes, honra a sua casa, permite-lhe caminhar com a cabeçalevantada entre seus amigos. Não creio que as mulheres de hoje gostem desteelogio.

 Deixando de lado este limite, quero sublinhar a atualidadedeste elogio da mulher. Desde todas os lugares surge a exigência de dar maisespaço à mulher, de valorizar o gênio feminino. Nós não cremos que «o eternofeminino nos salvará». A experiência cotidiana mostra que a mulher pode«elevar-nos ao alto, mas também pode precipitar-nos para baixo. Também elaprecisa ser salva por Cristo. Mas é certo que, uma vez redimida por Ele e«libertada», no campo humano, das antigas sujeições, ela pode contribuir parasalvar nossa sociedade de alguns males crônicos que a ameaçam: violência,vontade de poder, aridez espiritual, desprezo pela vida…

 Depois de tantas épocas que adotaram o nome do homem – a erado homo erectus, homo faber, até o homo sapiens, de hoje –, deve-se augurar quese abra finalmente, para a humanidade inteira, uma era da mulher: uma era docoração, da ternura, da compaixão. Foi o culto a Nossa Senhora que inspirou,nos séculos passados, o respeito pela mulher e sua idealização em boa parte daliteratura e da arte. Também a mulher de hoje pode ser olhada como modelo,amiga e aliada na hora de defender sua própria dignidade e o talento de sermulher.


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