Formação

A parábola dos talentos

comshalom

Mateus 25, 14-30

O evangelho deste domingo é a parábola dos talentos. Infelizmente, nopassado, o significado desta parábola foi habitualmente confundido, oupelo menos muito reduzido. Quando escutamos falar dos talentos,pensamos imediatamente nos dons naturais de inteligência, beleza,força, capacidades artísticas. A metáfora é usada para falar de atores,cantores, comediantes…

O uso não é totalmente equivocado, mas sim secundário. Jesus nãopretendia falar da obrigação de desenvolver os dons naturais de cadaum, mas de fazer frutificar os dons espirituais recebidos dele. Adesenvolver os dotes naturais já nos impulsiona a natureza, a ambição,a sede de lucro. Às vezes, ao contrário, é necessário frear estatendência de fazer valer os próprios talentos, porque pode converter-sefacilmente em afã por fazer carreira e por impor-se sobre os demais.

Os talentos dos quais Jesus fala são a Palavra de Deus, a fé, ou seja,o Reino que Ele anunciou. Neste sentido, a parábola dos talentos seconecta com a do semeador. À sorte diferente da semente que ele lançou– que em alguns casos produz sessenta por cento; em outras, aocontrário, fica entre os espinhos, ou são comidas pelos pássaros do céu–, corresponde aqui o diferente lucro realizado com os talentos.

Os talentos são, para nós, cristãos de hoje, a fé e os sacramentos querecebemos. A palavra nos obriga a fazer um exame de consciência: queuso estamos fazendo destes talentos? Nós nos parecemos com o servo queos faz frutificar ou com o que os enterra? Para muitos, o própriobatismo é verdadeiramente um talento enterrado. Eu o comparo a umpresente que se recebeu de Natal e que foi esquecido num lugar, semnunca tê-lo aberto ou jogado fora.

Os frutos dos talentos naturais acabam conosco ou, quando muito, passamaos herdeiros; os frutos dos talentos espirituais nos seguem à vidaeterna e um dia nos valerão a aprovação do Juiz divino: «Muito bem,servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, e por isso eu te dareiautoridade sobre o muito: toma parte no gozo de teu senhor».

Nosso dever humano e cristão não é só desenvolver nossos talentosnaturais e espirituais, mas também de ajudar os demais a desenvolveremos seus. No mundo moderno existe uma profissão que se chama, em inglês,talent-scout, descobridor de talentos. São pessoas que sabem encontrartalentos ocultos – de pintor, cantor, ator, jogador de futebol – e osajudam a cultivar seu talento e a encontrar um patrocinador. Não ofazem de graça, naturalmente, nem por hobby, mas para ter umaporcentagem em seus lucros, uma vez que se afirmaram.

O Evangelho nos convida a ser talent-scout, «descobridores detalentos», mas não por amor ao lucro, e sim para ajudar quem não tem apossibilidade de afirmar-se sozinho. A humanidade deve alguns de seusmelhores gênios ou artistas ao altruísmo de uma pessoa amiga queacreditou neles e os animou, quando ninguém acreditava neles. Um casoexemplar que me vem à mente é o de Theo Van Gogh, que sustentou toda avida, econômica e moralmente, do seu irmão Vincent, quando ninguémacreditava nele e não conseguia vender nenhum de seus quadros. Elestrocaram mais de seiscentas cartas, que são um documento de altíssimahumanidade e espiritualidade. Sem ele não teríamos hoje esses quadrosque todos amamos e admiramos.

A primeira leitura do domingo nos convida a deter-nos em um talento emparticular, que é ao mesmo tempo natural e espiritual: o talento dafeminilidade, o talento de ser mulher. Contém, de fato, o conhecidoelogio da mulher que começa com as palavras: «Uma mulher completa, quema encontrará?». Este elogio, tão belo, tem um defeito, que não dependeobviamente da Bíblia, mas da época na qual foi escrito e da cultura quereflete. Se prestarmos atenção, descobriremos que este talento estáinteiramente em função do homem. Sua conclusão é: bendito o homem quetem uma mulher assim. Ela lhe tece maravilhosas vestes, honra a suacasa, permite-lhe caminhar com a cabeça levantada entre seus amigos.Não creio que as mulheres de hoje gostem deste elogio.

Deixando de lado este limite, quero sublinhar a atualidade deste elogioda mulher. Desde todas os lugares surge a exigência de dar mais espaçoà mulher, de valorizar o gênio feminino. Nós não cremos que «o eternofeminino nos salvará». A experiência cotidiana mostra que a mulher pode«elevar-nos ao alto, mas também pode precipitar-nos para baixo. Tambémela precisa ser salva por Cristo. Mas é certo que, uma vez redimida porEle e «libertada», no campo humano, das antigas sujeições, ela podecontribuir para salvar nossa sociedade de alguns males crônicos que aameaçam: violência, vontade de poder, aridez espiritual, desprezo pelavida…

Depois de tantas épocas que adotaram o nome do homem – a era do homoerectus, homo faber, até o homo sapiens, de hoje –, deve-se augurar quese abra finalmente, para a humanidade inteira, uma era da mulher: umaera do coração, da ternura, da compaixão. Foi o culto a Nossa Senhoraque inspirou, nos séculos passados, o respeito pela mulher e suaidealização em boa parte da literatura e da arte. Também a mulher dehoje pode ser olhada como modelo, amiga e aliada na hora de defendersua própria dignidade e o talento de ser mulher.

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri]


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