Formação

A Perseguição aos primeiros cristãos

Melitão, bispo de Sardes, cidade da Ásia Menor, escreveu uma cartapara o imperador Marco Aurélio defendendo os cristãos perseguidos.Nesta carta, ele fala da providencial coincidência entre o nascimentodo Império e o aparecimento do cristianismo. Jesus nasceu quandoAugusto era imperador, e pregou no reinado de Tibério. A rápidaexpansão do cristianismo se deveu principalmente à unificação da baciamediterrânea sob o poderio romano e às facilidades proporcionadas pelasestradas e rotas marítimas, que permitiam a rápida circulação depessoas e idéias.

Mas quando foi que o Império começou a se dar conta da existência do cristianismo?

O documento oficial mais antigo falando dos cristãos é do ano 112:uma carta enviada a Trajano pelo procônsul da Bitínia, Plínio, o Jovem.

A opinião pública confundia os judeus com os cristãos. Geralmenteambos os grupos eram vítimas das mesmas acusações e maledicências. Masem Roma a diferença foi percebida bem cedo. Em 49, Cláudio "expulsa deRoma os judeus que se agitavam por instigação de Crestos [Cristo?]"(Suetônio).

Nero começou a governar com a idade de 17 anos. Dirigiu o Imperiumde 54 a 68. Mandou matar o irmão, a mãe e seu mestre, Sêneca (os doisúltimos sob influência da sua amante, Popéia Sabina). Em 62divorciou-se da mulher, Otávia, a qual fez exilar em Pandatária. Tantoscrimes provocaram a indignação popular.

Foi na noite de 18 (ou 19?) de julho de 64 que as trombetas dossentinelas começaram a ser ouvidas pelos quatro cantos de Roma. O fogose espalhava rapidamente. Depois de cento e cinqüenta horas, quatro doscatorze bairros da cidade tinham sido completamente devorados pelaschamas, enquanto de sete só sobravam as paredes das edificações ouescombros inabitáveis.

Sobre as causas da calamidade circularam vários rumores. Algunspensaram que tinha sido apenas um acidente. Mas atribuir ao acasotamanha destruição não parecia uma hipótese muito plausível.Precisava-se de um culpado. E logo o seu nome começou a correr de bocaem boca.

Seria o próprio Nero o responsável? Sabia-se que ele desejavademolir as velhas construções para edificar uma nova Roma. Talvez fosseum castigo dos deuses por causa dos crimes hediondos do imperador.Suetônio nos fala de um boato segundo o qual Nero teria permanecido emuma torre durante o incêndio, com roupas de teatro e uma lira,admirando o terrível espetáculo e entoando um poema de sua autoriasobre a conquista de Tróia e o fogo nela ateado pelos guerreiros deAgamenon.

Nero logo teve de arrumar um bode expiatório. Através de torturas efalsas testemunhas, obteve as "provas" para acusar os cristãos. Asprisões ficaram lotadas a ponto de Tácito se referir aos encarceradoscomo uma "grande multidão". Sob acusação de "inimigos do gênerohumano", os cristãos foram perseguidos.

Tertuliano fala de um instrumento jurídico instituído por Nero paralegalizar a perseguição, o Institutum Neronianum, que afirmava ailicitude do cristianismo ("non licet esse Christianos", não é lícitoser cristão). Mas os historiadores não são unânimes em reconhecer istocomo fato.

Não apenas os cristãos eram trucidados, degolados e crucificados nocirco de Nero (que ficava localizado onde hoje está a Basílica de SãoPedro). Organizaram-se verdadeiras caçadas nos jardins do imperador,com fiéis fantasiados de animais. Foram encenadas as mais escabrosascenas, copiando a mitologia pagã, onde os "atores", cristãos, eramhumilhados e ultrajados de mil maneiras e com sadismo indescritível.Durante a noite, pelas alamedas, cristãos cobertos de pez e resinaardiam em chamas, queimados vivos, iluminando o caminho para a passagemda carruagem de Nero.

Pedro, em uma de suas epístolas, alude a esses terríveissofrimentos. Mais tarde, quando João escrever o Apocalipse, a sualembrança ainda será muito viva.

Nada mudou com Domiciano (81-96), que se autoproclamou "Dominus etDeus". Quando o século I termina, a fé cristã já começa a conquistar asclasses mais altas, chegando até o palácio do imperador. FlávioClemente, Flávia Domitila, parentes de Domiciano, e Acílio Glábrio, umdos cônsules de 91, eram cristãos. Para satisfazer a alegria das elitespagãs, o imperador massacra os fiéis, tomando seus bens e executando-ossob a acusação de ateísmo. Na Ásia a perseguição foi bem violenta.

Trajano (98-117), mais tolerante, responde a Plínio, o Jovem, em umacarta dizendo que os cristãos não deviam ser procurados e que asdenúncias anônimas deviam ser ignoradas. Os cristãos convictos que serecusassem a abandonar suas crenças, no entanto, seriam punidos. ORescrito de Trajano, como é conhecido este documento, estabeleceujurisprudência.


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