Formação

A relação entre Antigo e Novo Testamento

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 40. Na perspectiva da unidade das Escrituras em Cristo,tanto os teólogos como os pastores necessitam de estar conscientes das relaçõesentre o Antigo e o Novo Testamento. Em primeiro lugar, é evidente que o próprioNovo Testamento reconhece o Antigo Testamento como Palavra de Deus e, porconseguinte, admite a autoridade das Sagradas Escrituras do povo judeu.[131]Reconhece-as implicitamente, quando usa a mesma linguagem e frequentementealude a trechos destas Escrituras; reconhece-as explicitamente, porque citamuitas partes servindo-se delas para argumentar. Uma argumentação baseada nostextos do Antigo Testamento reveste-se assim, no Novo Testamento, de um valordecisivo, superior ao de raciocínios simplesmente humanos. No quarto Evangelho,a este propósito Jesus declara que «a Escritura não pode ser anulada» (Jo 10,35) e São Paulo especifica de modo particular que a revelação do AntigoTestamento continua a valer para nós, cristãos (cf. Rm 15, 4; 1 Cor 10,11).[132] Além disso, afirmamos que «Jesus de Nazaré foi um judeu e a TerraSanta é terra-mãe da Igreja»;[133] a raiz do cristianismo encontra-se no AntigoTestamento e sempre se nutre desta raiz. Por isso a sã doutrina cristã semprerecusou qualquer forma emergente de marcionismo, que tende de diversos modos acontrapor entre si o Antigo e o Novo Testamento.[134]

 Além disso, o próprio Novo Testamento se diz em conformidadecom o Antigo e proclama que, no mistério da vida, morte e ressurreição deCristo, encontraram o seu perfeito cumprimento as Escrituras Sagradas do povojudeu. Mas é preciso notar que o conceito de cumprimento das Escrituras écomplexo, porque comporta uma tríplice dimensão: um aspecto fundamental decontinuidade com a revelação do Antigo Testamento, um aspecto de ruptura e umaspecto de cumprimento e superação. O mistério de Cristo está em continuidadede intenção com o culto sacrificial do Antigo Testamento; mas realizou-se de ummodo muito diferente, que corresponde a muitos oráculos dos profetas, ealcançou assim uma perfeição nunca antes obtida. De facto, o Antigo Testamentoestá cheio de tensões entre os seus aspectos institucionais e os seus aspectosproféticos. O mistério pascal de Cristo está plenamente de acordo – embora deuma forma que era imprevisível – com as profecias e o aspecto prefigurativo dasEscrituras; mas apresenta evidentes aspectos de descontinuidade relativamenteàs instituições do Antigo Testamento.

 41. Estas considerações mostram assim a importânciainsubstituível do Antigo Testamento para os cristãos, mas ao mesmo tempoevidenciam a originalidade da leitura cristológica. Desde os tempos apostólicose depois na Tradição viva, a Igreja deixou clara a unidade do plano divino nosdois Testamentos graças à tipologia, que não tem carácter arbitrário mas éintrínseca aos acontecimentos narrados pelo texto sagrado e, por conseguinte,diz respeito a toda a Escritura. A tipologia «descobre nas obras de Deus, naAntiga Aliança, prefigurações do que o mesmo Deus realizou, na plenitude dostempos, na pessoa do seu Filho encarnado».[135] Por isso os cristãos lêem oAntigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado. Se a leitura tipológicarevela o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento relativamente ao Novo, nãodeve todavia fazer-nos esquecer que aquele mantém o seu próprio valor deRevelação que Nosso Senhor veio reafirmar (cf. Mc 12, 29-31). Por isso «tambémo Novo Testamento requer ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitivarecorreu constantemente a este método (cf. 1 Cor 5, 6-8; 10, 1-11)».[136] Poreste motivo, os Padres sinodais afirmaram que «a compreensão judaica da Bíbliapode ajudar a inteligência e o estudo das Escrituras por parte doscristãos».[137]

 Assim se exprimia, com aguda sabedoria, Santo Agostinhosobre este tema: «O Novo Testamento está oculto no Antigo e o Antigo estápatente no Novo».[138] Deste modo, tanto em âmbito pastoral como em âmbitoacadémico, importa que seja colocada bem em evidência a relação íntima entre osdois Testamentos, recordando com São Gregório Magno que aquilo que «o AntigoTestamento prometeu, o Novo Testamento fê-lo ver; o que aquele anuncia demaneira oculta, este proclama abertamente como presente. Por isso, o AntigoTestamento é profecia do Novo Testamento; e o melhor comentário do AntigoTestamento é o Novo Testamento».[139]

 As páginas «obscuras» da Bíblia

 42. No contexto da relação entre Antigo e Novo Testamento, oSínodo enfrentou também o caso de páginas da Bíblia que às vezes se apresentamobscuras e difíceis por causa da violência e imoralidade nelas referidas. Emrelação a isto, deve-se ter presente antes de mais nada que a revelação bíblicaestá profundamente radicada na história. Nela se vai progressivamentemanifestando o desígnio de Deus, actuando-se lentamente ao longo de etapassucessivas, não obstante a resistência dos homens. Deus escolhe um povo e,pacientemente, realiza a sua educação. A revelação adapta-se ao nível culturale moral de épocas antigas, referindo consequentemente factos e usos como, porexemplo, manobras fraudulentas, intervenções violentas, extermínio depopulações, sem denunciar explicitamente a sua imoralidade. Isto explica-se apartir do contexto histórico, mas pode surpreender o leitor moderno, sobretudoquando se esquecem tantos comportamentos «obscuros» que os homens sempretiveram ao longo dos séculos, inclusive nos nossos dias. No Antigo Testamento,a pregação dos profetas ergue-se vigorosamente contra todo o tipo de injustiçae de violência, colectiva ou individual, tornando-se assim o instrumento daeducação dada por Deus ao seu povo como preparação para o Evangelho. Seria,pois, errado não considerar aqueles passos da Escritura que nos aparecemproblemáticos. Entretanto deve-se ter consciência de que a leitura destaspáginas requer a aquisição de uma adequada competência, através duma formaçãoque leia os textos no seu contexto histórico-literário e na perspectiva cristã,que tem como chave hermenêutica última «o Evangelho e o mandamento novo deJesus Cristo realizado no mistério pascal».[140] Por isso exorto os estudiosose os pastores a ajudarem todos os fiéis a abeirar-se também destas páginas pormeio de uma leitura que leve a descobrir o seu significado à luz do mistério deCristo.

 Cristãos e judeus, relativamente às Sagradas Escrituras

 43. Depois de considerar a íntima relação que une o NovoTestamento ao Antigo, é espontâneo fixar a atenção no vínculo peculiar que issocria entre cristãos e judeus, um vínculo que não deveria jamais ser esquecido.Aos judeus, o Papa João Paulo II declarou: sois «os nossos “irmãos predilectos”na fé de Abraão, nosso patriarca».[141] Por certo, estas afirmações nãosignificam ignorar as rupturas atestadas no Novo Testamento relativamente àsinstituições do Antigo Testamento e menos ainda o cumprimento das Escrituras nomistério de Jesus Cristo, reconhecido Messias e Filho de Deus. Mas estadiferença profunda e radical não implica de modo algum hostilidade recíproca.Pelo contrário, o exemplo de São Paulo (cf. Rm 9–11) demonstra que «uma atitudede respeito, estima e amor pelo povo judeu é a única atitude verdadeiramentecristã nesta situação que, misteriosamente, faz parte do desígnio totalmentepositivo de Deus».[142] De facto, o Apóstolo afirma que os judeus, «quanto àescolha divina, são amados por causa dos Patriarcas, pois os dons e ochamamento de Deus são irrevogáveis» (Rm 11, 28-29).

 Além disso, usa a bela imagem da oliveira para descrever asrelações muito estreitas entre cristãos e judeus: a Igreja dos gentios é comoum rebento de oliveira brava enxertado na oliveira boa que é o povo da Aliança(cf. Rm 11, 17-24). Alimentamo-nos, pois, das mesmas raízes espirituais.Encontramo-nos como irmãos; irmãos que em certos momentos da sua históriativeram um relacionamento tenso, mas agora estão firmemente comprometidos naconstrução de pontes de amizade duradoura.[143] Como disse o Papa João Paulo IInoutra ocasião: «Temos muito em comum. Juntos podemos fazer muito pela paz,pela justiça e por um mundo mais fraterno e mais humano».[144]

 Desejo afirmar uma vez mais quão precioso é para a Igreja odiálogo com os judeus. É bom que, onde isto se apresentar como oportuno, secriem possibilidades mesmo públicas de encontro e diálogo, que favoreçam ocrescimento do conhecimento mútuo, da estima recíproca e da colaboraçãoinclusive no próprio estudo das Sagradas Escrituras.

 A interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura

 44. A atenção que quisemos dar até agora ao tema dahermenêutica bíblica, nos seus diversos aspectos, permite-nos abordar o tema –muitas vezes aflorado no debate sinodal – da interpretação fundamentalista daSagrada Escritura.[145] Sobre este tema, a Pontifícia Comissão Bíblica, nodocumento A interpretação da Bíblia na Igreja, formulou indicações importantes.Neste contexto, desejo chamar a atenção sobretudo para aquelas leituras que nãorespeitam o texto sagrado na sua natureza autêntica, promovendo interpretaçõessubjectivistas e arbitrárias. Na realidade, o «literalismo» propugnado pelaleitura fundamentalista constitui uma traição tanto do sentido literal como doespiritual, abrindo caminho a instrumentalizações de variada natureza,difundindo por exemplo interpretações anti-eclesiais das próprias Escrituras. Oaspecto problemático da «leitura fundamentalista é que, recusando ter em contao carácter histórico da revelação bíblica, torna-se incapaz de aceitar plenamentea verdade da própria Encarnação. O fundamentalismo evita a íntima ligação dodivino e do humano nas relações com Deus. (…) Por este motivo, tende a tratar otexto bíblico como se fosse ditado palavra por palavra pelo Espírito e nãochega a reconhecer que a Palavra de Deus foi formulada numa linguagem e numafraseologia condicionadas por uma dada época».[146] Ao contrário, ocristianismo divisa nas palavras a Palavra, o próprio Logos, que estende o seumistério através de tal multiplicidade e da realidade de uma históriahumana.[147] A verdadeira resposta a uma leitura fundamentalista é «a leituracrente da Sagrada Escritura, praticada desde a antiguidade na Tradição daIgreja. [Tal leitura] procura a verdade salvífica para a vida do indivíduo fiele para a Igreja. Esta leitura reconhece o valor histórico da tradição bíblica.Precisamente por este valor de testemunho histórico é que ela quer descobrir osignificado vivo das Sagradas Escrituras destinadas também à vida do fiel dehoje»,[148] sem ignorar, portanto, a mediação humana do texto inspirado e osseus géneros literários.

Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini –Introdução »

I Parte:
O Deus que fala »
Cristologia da Palavra »
A Palavra de Deus e o Espírito Santo »
Deus Pai, fonte e origem da Palavra »
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja »
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada »
A relação entre Antigo e Novo Testamento »
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas »

II – Parte:
A Igreja acolhe a Palavra »
A sacramentalidade da Palavra »
A palavra de Deus na vida eclesial »
Leitura orante da Sagrada Escritura e "lectio divina" »

III-Parte
A missão da Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo »
Palavra de Deus e compromisso no mundo »
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes »
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas »
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso »

Conclusão
A palavra definitiva de Deus »


Comentários

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  1. No pouco que eu me detive em história da religião, chamou-me atenção o que o estudioso do assunto, Mircea Eliade (1907-1986), declarou em sua obra O Sagrado e o Profano. Segundo este conceituado professor, o cristianismo inovou ao criar sua divindade no tempo histórico e não no tempo mítico, como se fazia até então. Pensando nas consequências dessa opção, me veio à conclusão de que somente um motivo muito forte poderia ter motivado tal escolha.
    https://www.facebook.com/aorigemdocristianismoemreflexao/posts/1396280383900493