Formação

A teologia do hoje

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 É com saudade e aquele respeito pelosagrado que me atrevo a escrever sobre este tema para a formação. Até a fonte dotexto eu mudei. Da minha costumeira “Tahoma”, passei para a “Bookman Old Style”,que peço conservarem quando reproduzirem o texto.

A“teologia do hoje”, para nós, os primeiros, é uma daquelas marcas indeléveisque ferem a alma e a moldam para sempre. Hoje, talvez consideremos o própriotermo inadequado. Seria melhor, talvez, “a mística do tempo”. É, talvez. Paraquem viveu o momento desta pregação do Moysés, porém, é verdadeira teologia,até mesmo epifania de Deus através do que vivíamos nos inícios da comunidade.Mostra, além disso, traços da espiritualidade do Fundador que não poderíamosignorar sob pena de ignorar nossas próprias raízes, que, certamente, passam porsua vida e modo de ver Deus, a humanidade e os acontecimentos.

Quetraço da espiritualidade do Fundador é expresso através da pregação que vamostentar reproduzir? Um dos mais marcantes, no seu caso: a fé. Fé inabalável comrelação ao chamado de Deus, que mesmo antes da fundação da comunidade compreendiacomo desde sempre e para sempre.Fé prática, concreta, a ser vivida em situaçõesconcretas do dia a dia, do tempo que o senhor nos dá, do tempo que se chama hoje. Fé que é impossível de ser vividapelos fracos ou covardes, porque exige uma tremenda violência de coração, outracaracterística do nosso Fundador.

O temaque ficou conhecida como “teologia do hoje”, pregado em 1985, ensinou-nos queDeus é fiel e imprimiu-se em nós como direcionamento de nossa atitude diantedos desafios. Ensinou-nos que Seu chamado é irrevogável como os Seus dons. Que Eletem um plano perfeito para nós, ainda que não o compreendamos, ainda que nãovejamos evidências de sua realização. Era, na vida do Moysés, a raiz firme dafamosa “paciência histórica” que ele, antecipando-se em dois anos a Bento XVI, pediuà comunidade reunida no Capítulo de 2003 e tanto prega hoje.

Era,também, a raiz da esperança e da caridade que fazem com que, mesmo diante dasdificuldades aparente intransponíveis, jamais desista de uma inspiração de Deuse que, ainda quando criticado ou incompreendido, jamais desista de uma pessoa,nem a “descarte”, mas tente até a última instância – a vontade profunda daprópria pessoa – fazer com que ela permaneça fiel ao chamado irrevogáveldAquele que a criou, ainda que isso “dê trabalho” e ofereça desafios àcomunidade. Tudo para que, uma vez tendo sido chamada por Deus, a pessoa não “caiano deserto”, ao meio da caminhada, desistindo do chamado desde sempre e parasempre, lhe foi feito por Deus.

Seolharmos para trás em nossa história, veremos que o tema do tempo como provadorda fé teve fases bastante nítidas. É como descer degrau por degrau rumo a umanascente profunda, escondida em uma gruta. Acontece assim, aliás, com os diversostemas principais de nossa espiritualidade. Com relação à mística do tempo,teríamos um primeiro momento com: “A Teologia do Hoje”; um segundo momento, oda descoberta de que o tempo é criatura de Deus; o tempo como parte daprovidência de Deus e o tempo como parte da paciência histórica. Há, aí, umnítido aprofundamento ou maturação e uma crescente confiança na misericórdia ecuidado de Deus, que nos oferece provas, mas jamais nos abandona. O primeiro eo último degraus, os mais importantes, nos foram dados através do Fundador. Osdegraus intermediários vieram por meio da Co-fundadora e o que aprendemosatravés de D. Albert de Monléon e Santo Agostinho. A síntese foi-nos dada pelapoesia do Cristiano Pinheiro, ao nos ensinar que “o tempo esconde o/O que éeterno/Eterno”. Fico pasma de ver como, sem talvez jamais ter ouvido estapregação, o Cristiano colheu do coração de Deus o segredo da “teologia dohoje”.

Em umramo derivado deste tronco, há uma outra riqueza de nossa vocação, que tambémse configurou de formas diversas ao longo da nossa história. Trata-se damanifestação de Deus através dos desafios e provas oferecidas pelo tempo, nossa“epifania pessoal”, a evidência da presença de Deus em nossas vidas e aclarificação de Sua vontade através de nossa história quando dela fazemosmemória bíblico-afetiva. Trata-se da “História da Salvação Pessoal”,metodologia que o Moysés desenvolveu desde os tempos do Colégio Cearense paraque nos aprofundemos em nossa convicção do chamado e escolha de Deus que setorna evidente quando olhamos a nossa história pessoal a qual, no caso de cadaum de nós, confunde-se com a história da manifestação do Carisma Shalom. Tambémesta inspiração relacionada ao tempo – já descoberta por Santo Agostinho emsuas Confissões – evoluiu à medida em que fomos amadurecendo e compreendendoque, de fato, “o tempo esconde o que é eterno” e que ele foi criado para que oVerbo de Deus se fizesse carne no tempo e, através dele, em nós. Também nestaevolução, temos as bases lançadas pelo Fundador e desenvolvidas por vários denós, inclusive a Co-fundadora.

Mas,vamos ao que era pregado nos primeiros tempos sobre a “Teologia do Hoje”.Primeiramente, conheçamos o contexto: Éramos sete Moysés, Timbó, Madalena,Jaqueline, Luiza e eu. Os ventos da incompreensão e mesmo da perseguiçãobalançavam a pequena comunidade e a ameaçavam com duas terríveis armas dodemônio: a dúvida, ou incerteza, e o desânimo, ou desencorajamento. Nesseambiente contaminado pela tentação, havia clima para perguntas freqüentementedestruidoras de vocações: “O que será de mim?” e “Será que eu fiz certo aodeixar tudo e vir para cá?” Eis a orientação que recebemos do Fundador:

TomemosHebreus 3,7-19, segundo a Bíblia da Editora Ave-Maria, a única de quedispúnhamos – e a duras penas! – naépoca:

 

Por isso, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçaisos vossos corações, como por ocasião da Revolta, como no dia da tentação nodeserto, quando vossos pais me puseram à prova e viram o meu poder por quarentaanos. Eu me indignei contra aquela geração, porque andavam sempre extraviadosem seu coração e não compreendiam absolutamente nada dos meus desígnios. Porisso, em minha ira, jurei que não haveriam de entrar no lugar de descanso que lhes prometera.(Sal 94, 8-11) Tomaiprecaução, meus irmãos, para que ninguém de vós venha a perder interiormente afé, a ponto de abandonar o Deus vivo. Antes,animai-vos mutuamente cada diadurante todo o tempo compreendido na palavra hoje, para não acontecer que alguém se torne empedernido com asedução do pecado. Porque somos incorporados a Cristo, mas sob a condição deconservarmos firme até o fim nossa fé dos primeiros dias, enquanto se nos diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçaisos vossos corações, como aconteceu no tempo da Revolta.

E quaisforam os que se revoltaram contra o Senhor depois de terem ouvido a sua voz?Não foram todos os que saíram do Egito, conduzidos por Moisés? Contra quemesteve indignado o Senhor durante quarenta anos? Não foi contra os revoltosos,cujos corpos caíram no deserto?E a quem jurou que não entrariam no seu descansosenão a estes rebeldes? Portanto, estamos vendo: foi por causa da sua descrençaque não puderam entrar.”

 

 Nós fomos chamados por Deus, ouvimos aSua voz. Qual tem sido a nossa resposta Àquele que nos chamou, que nosescolheu, que nos elegeu para esta magnífica vocação? Como os hebreus quecruzavam o deserto com Moisés, poderemos, frente às primeiras provas, nosrevoltarmos, isto é, resistir à vontade de Deus, endurecer nossos corações enegar Seu chamado e eleição de cada um de nós.

 Os hebreus foram provados no deserto etiveram medo, olharam para o passado, preocuparam-se com o próprio futuro e,abalados em sua fé, desiludidos e desanimados, deixaram de olhar para o Senhore passaram a olhar para si mesmos. Conseqüência: revoltaram-se contra o Senhor [mesmo] após terem ouvido a Sua voz.O resultado? O Senhor indignou-se contra eles e fez cair seus corpos nodeserto. E qual a razão para a indignação do Senhor? A pouca fé do povo, afalta de confiança em suas promessas, o esquecimento do que havia dito a Suavoz: foi por causa de sua descrença quenão puderam entrar.

 Em nossa caminhada, corremos o riscode, diante dos desafios, mesmo tendo escutado de forma clara a vontade de Deus,começarmos a desconfiar dEle, de Suas promessas, de Sua voz que ouvimos e quenos moveu. Corremos o risco de olhar para nós mesmos – andavam sempre extraviados (isto é, fora de minhas vidas) em seus corações – e retirar os nossosolhos de Deus. Corremos o risco de voltarmos aos nossos planos e de termossaudades do que vivíamos antes de entrar na comunidade. As dificuldadesnaturais no interior da comunidade e os desafios no seu exterior podem nosatingir, nos abalar. Se não as enxergarmos como uma prova de Deus para nosfazer crescer na fé, um teste de Deus para ver se realmente confiamos nEle,podemos cair mortos no deserto, desanimados e destruídos pela falta de fé,confiança e amor a Deus – nãocompreendiam absolutamente nada dos meus desígnios.

 Por isso, Hebreus nos diz: tomai precaução, meus irmãos, para queninguém de vós venha a perder interiormente a fé, a ponto de abandonar o Deusvivo. Podemos estar na comunidade, fazer tudo o que temos de fazer, e noentanto, perder interiormente a fé que nos mantém firmes. É a fé que nos mantémde pé, lutando, acreditando, investindo nossas vidas no chamado que o Senhornos fez, apesar das ameaças interiores e exteriores.

 O conselho que a Palavra nos dá éclaro: animai-vos mutuamente cada diadurante todo o tempo compreendido na palavra hoje para não acontecer que alguém se torne empedernido com a sedução dopecado.

 É o hojeque devemos viver. É a isso que somos chamados: a viver o hoje de Deus, para quem tudo é presente. Não podemos deixar quenossas preocupações ou nossos egoísmos nos joguem nas preocupações com o futuronem nas lembranças do passado. Deus nos chama a viver o Seu hoje, o hoje eterno que nos ultrapassa, mas no qual cremos. É hoje que devemos renovar nossa confiançaem Deus. Não amanhã, não conforme o que venha a acontecer, não se Deus fizerisso ou aquilo, não se Deus der este ou aquele sinal, mas incondicionalmente.Incondicionalmente, devemos crer e viver o hojeeterno de Deus, isto é, todo o tempocompreendido na palavra hoje.

 O viver o hoje, o agora, é sinal de grande confiança em Deus. É também sinalde humildade, sinal de que não direcionamos a nossa própria vida, mas que acolocamos em Suas mãos para que Ele a direcione. Sinal de que Ele é o Senhor,Ele é o Salvador e nós somos seus servos, que confiamos nEle humilde eincondicionalmente.

 O que nos vai acontecer amanhã? Não nosinteressa! Não é da nossa conta. É da conta de Deus. Ele é Deus, não nós! É Eleo Senhor desta vocação, desta Obra, desta comunidade, de nossas vidas. O Senhornos dá o hoje, o agora para vivermos a inteira confiança nEle. Esta é a sua prova,este é o seu teste de amor para conosco. Se o amamos, se cremos que Ele nos chamoue escolheu, se respondemos “sim” ao Seu chamado, continuemos a confiar, hoje, nAquele que é fiel e coerente evivamos o hoje, não o ontem, não o amanhã. É hoje que souchamado a ser fiel. É hoje que acolhoa Sua vontade. É vivendo o  hoje que entro em Sua dimensão do eterno agora, com confiança irrestritaem Seu Amor e Sua fidelidade.

 Viver bem o hoje, ser feliz hojesignifica ser fiel ao Senhor hoje,sem medo das ameaças, das dificuldades, de monstros que, na verdade, existemmais dentro de nós do que fora de nós. Ser feliz significa ser fiel hoje.Significa, também, a força da vida comunitária: Animai-vos mutuamente cada dia durante todo o tempo compreendido napalavra hoje para não acontecer quealguém se torne empedernido com a sedução do pecado.

 Precisamos nos animar uns aos outros.Sustentar uns aos outros. Trazer o outro para o hoje de Deus, para a confiança absoluta no Senhor, que nos chamou aviver esta dimensão de fé em Seus desígnios eternos. Sim, o Senhor tem para nósdesígnios de eternidade. Cabe a cada um de nós animar-se interiormente na fé eanimar os outros para a mesma fé, a mesma confiança, a mesma entrega corajosa eincondicional Àquele que nos chamou.

 Cabe a nós não nos prendermos aopassado nem nos preocuparmos conosco mesmos, com o que haveremos de comer, como que haveremos de vestir, com o que será de nós. Cabe-nos viver o hoje, sabendo que, em Deus, este hoje é eterno, sabendo que vivemos umadimensão de eternidade, sabendo que estamos constantemente sendo provados emnossa fé e confiança em Deus e que Ele é eternamente fiel às Suas promessas eao chamado eterno – não passageiro, mas para sempre – que Ele nos fez.

 Eis aquilo do que consigo me lembrar,além da pequena sala um pouco escura, das bermudas dos meninos, do jeito de vestirdas meninas, da carreira que se tinha que dar de vez em quando até a cozinha paraa comida não queimar. Certamente os outros poderão acrescentar muitas coisas,ou até dizer “mas disso eu não me lembro”. Cada um guarda em sua memória este eoutros momentos preciosos da nossa história com seus matizes pessoais. Nem seise alguém ainda tem as anotações que fez naquele tempo, há 20 anos atrás. Somosmuito descuidados com nossa própria história. Não dos damos conta do quanto elaé preciosa para nós e para as gerações que virão.

 Tentei, ao máximo, separar conceitosque tínhamos naquele tempo -em que quase nunca dizíamos “Deus”, mas preferíamosusar “Senhor” – de conceitos mais modernos. Não sei se consegui. Sei que possover muito bem, nesta pregação dos primeiros tempos da comunidade e no impactoque ela teve sobre nós em um momento de necessidade e de unção muito especial,a bendita raiz da fé inabalável e da violência de coração que caracterizam aespiritualidade do nosso fundador e que deveriam nortear as nossas vidas em todo o tempo compreendido na palavraHOJE.

 


Comentários

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  1. Obrigada, por escrever essas belas palavras. Quão importante e animadora foram neste dia em um tempo de provação pessoal e de milagres: a violência de coração p/ mim é um milagre.