Formação

A teologia e a mística da Virtude da Fortaleza

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Aspecto teológico-ascético

“A fortaleza é a virtude do bem árduo que se defronta com um mundo que busca o bem fácil, este é o dilema que sofrem as pessoas mal formadas ou desinteressadas do verdadeiro bem.” [5] “O bem não se impõe por si mesmo, como opinam os liberalismos, para que isto ocorra, há necessidade do empenho da pessoa. Empenhar-se pela realização do bem contra o poder do mal, eis aí circunscrito de forma bem completa aquilo que perfaz o ato da virtude da Fortaleza. “Empenhar-se”: com isto não se indica um agir qualquer, mas um agir pelo qual o agente está disposto a sofrer um prejuízo.”

“Os cristãos são convidados a fomentar em si a virtude da Fortaleza, fazendo esforços pessoais para corresponderem na fidelidade aos apelos do Evangelho. Na medida em que nos vamos purificando das nossas indiferenças, individualismos e auto-suficiências e nos vamos abrindo para o Dom de Deus, é nessa mesma medida que o Dom do Espírito Santo nos torna fortes na docilidade aos critérios de Deus e capazes de dizer como o Apóstolo Paulo: “Tudo posso naquele que me fortalece”(Fl 4, 13).

A virtude da fortaleza, aperfeiçoada pelo dom do Espírito Santo, não suprime a fraqueza própria da natureza humana, o temor ao perigo, o medo à dor, à fadiga, mas permite superá-los graças ao amor. Precisamente porque ama, o cristão é capaz de enfrentar os maiores riscos, ainda que a sua sensibilidade manifeste repugnância em ir para a frente, não só no começo, mas também ao longo de todo o tempo da prova ou enquanto não tiver alcançado aquilo que ama.
Esta virtude leva ao extremo de sacrificar voluntariamente a vida em testemunho da fé, se o Senhor assim o vier a pedir. O martírio é o ato supremo da fortaleza, e Deus não deixou de pedi-lo a muitos fiéis ao longo da história da Igreja. Os mártires foram – e são – a coroa da Igreja, bem como uma prova mais da sua origem divina e da sua santidade. Cada cristão deve estar disposto a dar a vida por Cristo, se as circunstâncias o exigirem. O Espírito Santo dar-lhe-á então as forças e a coragem necessárias para enfrentar essa prova suprema. No entanto, o que o Senhor espera de nós é o heroísmo nas pequenas coisas, no cumprimento diário dos nossos deveres.”[7]
                         
Aspecto Místico

Para o místico carmelita, São João da Cruz, a fortaleza é eminente no estado do matrimônio espiritual. “Para chegar a tão alto estado de perfeição, qual é o matrimônio espiritual, como aqui pretende a alma, não lhe basta apenas estar limpa e purificada de todas as imperfeições, revoltas e hábitos imperfeitos da parte inferior, que, despida do velho homem, está já sujeita e rendida à superior. É necessário também ter grande fortaleza e mui subido amor para que se torne capaz de tão forte e estreito abraço de Deus. De fato, neste estado, não só a alma atinge altíssima pureza e formosura, mas também adquire terrível fortaleza, em razão do estreito e forte laço que se aperta entre Deus e a alma por meio desta união.

Para chegar, portanto, a essa altura, precisa estar a alma em competente grau de pureza, fortaleza e amor; por isto, desejando o Espírito Santo, – que pela sua intervenção realiza essa união espiritual, – ver a alma com as disposições requeridas para alcançá-la, fala ao Pai e ao Filho nestes termos do livro dos Cantares: “Que faremos à nossa irmã no dia em que apareça e se lhe tenha de falar? Porque é pequenina e não tem seios crescidos. Se ela é um muro, edifiquemos sobre ele forças e defesas prateadas; se ela é uma porta, guarneçamo-la com tábuas de cedro”(Ct 8,10). Compreende aqui por forças e defesas prateadas, as virtudes fortes e heróicas, envoltas na fé, significada pela prata; estas virtudes heróicas são já as do matrimônio espiritual, que assentam sobre a alma forte, simbolizada pelo muro, em cuja fortaleza repousará o Esposo de paz, sem mais perturbação de fraqueza alguma.

Entende por tábuas de cedro as afeições e propriedades do sublime amor, aqui figurado no cedro, – amor característico do matrimônio espiritual. Para guarnecer com ele a Esposa, torna-se mister que ela seja porta, isto é, dê entrada ao Esposo, mantendo aberta a porta da vontade para ele, por total e verdadeiro sim de amor, sim do apaixonamento, dado já antes do matrimônio espiritual. Pelos seios da Esposa exprime também este mesmo amor perfeito que lhe convém ter para comparecer diante do Esposo, Cristo, a fim de operar-se a consumação de tal estado.”(São João da Cruz, C 20,1-2)


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