Formação

A verdadeira natureza do matrimônio

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Germana Perdigão
Missionária da Comunidade Católica Shalom em Fortaleza

Antes do Concílio Vaticano II o matrimônio era visto como umestado de vida menor do que o celibatário e o sacerdócio. Antigamente os casaischegavam na Igreja para celebrarem a Eucaristia e os homens se posicionavam deum lado da Igreja e as mulheres do outro. O matrimônio era visto mais no seuaspecto jurídico, onde se ressaltava as suas obrigações, direitos e fins.

Depois do notável acontecimento do Concílio Vaticano II, ocasamento passou a ser visto numa dimensão mais “pessoal”. Mas, o quesignificou a passagem de uma apresentação "jurídica" do casamentopara uma abordagem mais "pessoal"? Aqui se encontra a beleza docasamento! Os padres conciliares, ao invés de centralizar nas"obrigações", "direitos" e "fins" do casamento,foram além e ressaltaram o amor íntimo e interpessoal dos cônjuges como fonteda vivência dessas mesmas “obrigações”, “direitos” e “fins.

Esse novo entendimento foi-nos revelado através das palavrasdo documento conciliar Gaudium et Spes quando ele afirma que o amor conjugal,“unindo o humano e o divino, leva os esposos ao livre e recíproco dom de simesmos, que se manifesta com a ternura do afeto e, com as obras, e penetra todaa sua vida; e aperfeiçoa-se e aumenta pela sua própria generosa atuação. Eletranscende, por isso, de longe, a mera inclinação erótica a qual fomentadaegoisticamente, rápida e miseravelmente se desvanece” (GS 49).

Dessa forma, os esposos recebem a graça do amor que é aunião do amor divino e humano, isto é, recebem uma força interior que oscapacita a cumprirem todas as obrigações, direitos e fins do matrimônio. Amoresse, como afirma o documento, que é a união do amor divino e humano. E essaunião é possível em razão do Jesus reunir tudo o que é humano ao divino. É ahumanidade do segundo Adão que é a verdadeira humanidade, porque passou pelacruz e leva à luz o verdadeiro homem. Perdidos em Cristo Jesusencontramos verdadeiramente a nós mesmos. Nele somos elevados, nele o nossoamor humano se rompe e alcança o amor sobrenatural. O amor conjugal é muitomais do que paixão, enamoramento, inclinação erótica.

Está claro a beleza e a riqueza própria do matrimônio!Infelizmente essa verdade não é conhecida por todos os homens.

Além dessa esplendorosa afirmação conciliar encontramosainda outra mensagem do documento conciliar da Gaudium et Spes e do Código deDireito Canônico que definem o casamento como a íntima, exclusiva eindissolúvel comunhão de vida e de amor assumida por homem e mulher comodesígnio do Criador com o propósito de seu próprio bem e da procriação eeducação dos filhos; esta aliança entre pessoas batizadas foi elevada porCristo Senhor à dignidade de um sacramento (cf. CIC 1055 e GS 48).

Procuremos refletir sobre a expressão cheia de uma verdadeque nos renova, “comunhão íntima, exclusiva e indissolúvel de vida e amor”.Reflitamos por parte. Primeiro sobre a afirmação “comunhão íntima de vida eamor. Num resultado realista e objetivo dessa reflexão, podemos afirmar que ocasamento é a mais estreita e a mais íntima das amabilidades, das benevolênciashumanas. Porque ele envolve a oferta, a entrega, a doação da vida inteira deuma pessoa, na sua totalidade, ao seu cônjuge. O vínculo de amor entre o homeme a mulher é imagem e símbolo da Aliança que une Jesus e a sua Igreja, que uneDeus e o seu povo. O casamento chama os esposos para uma mútua entrega de simesmos um ao outro, tão íntima e completa que – sem perder sua individualidade– se tornam "um" de corpo e de alma. Quando uma pessoa se doa a outraacontece a doação de todo o seu ser; não há oferta só no sentido psicológiconem físico, porque diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal;corpo, instinto, sentimento, afetividade, aspiração do espírito e da vontade.

Passemos adiante em nossa reflexão: o casamento é “comunhãoexclusiva de vida e amor”. O amormatrimonial é exclusivo, requer a fidelidade. Como uma doação mútua de duaspessoas uma à outra, esta união íntima exclui semelhante união com qualqueroutra pessoa. Ela exige total fidelidade entre os esposos. Esta exclusividade étambém essencial para os filhos do casal. Uma pessoa não se doa inteira etotalmente a várias pessoas. Isso não é doação verdadeira. Doação de vida é aunião de um só homem com uma única mulher, em todos os níveis: dos corpos, doscorações, das inteligências, das vontades, das almas.

Finalizemos a nossa reflexão de hoje sobre a “comunhãoindissolúvel de vida e amor”. Essa expressão é fantástica! O amor verdadeiro épara sempre, fiel e exclusivo até a morte. É um laço que não pode ser desatadopelo homem, porque é um laço feito pelas mãos de Deus e não pelas leis ou mãoshumanas. Vai além da separação física. Não existe sentido dizer que se ama poralguns meses, ou anos, ou só por algum tempo, enquanto o outro continuasimpático e agradável, ou não encontre alguém melhor. O verdadeiro amor possuia exigência de ser eterno, de ser indissolúvel. Marido e mulher não se unemapenas pela emoção ou pela simples atração erótica, as quais, egoisticamentebuscadas, rapidamente vão embora. Eles se unem num amor conjugal autêntico pelofirme e irrevogável ato de sua própria vontade, selado pela graça de Deus.

Esse consentimento mútuo, uma vez consumado pela “doaçãosexual” – só no matrimônio pode haver doação sexual, ou deixa de sê-lo e passaa ser um encontro erótico, uma deleitação sexual, porque vivido na perspectivaexclusiva do prazer, onde a pessoa humana passa a ser um meio para se alcançarum fim (a pessoa humana não pode ser para a outra somente o meio para o fim) –um laço indissolúvel é estabelecido entre o esposo e a esposa pelo EspíritoSanto. Por essa razão, a Igreja afirma que o matrimônio uma vez contraído setorna absolutamente indissolúvel. Assim,a Igreja não ensina que o divórcio é errado, mas que o divórcio é impossível,independente de suas implicações civis. A entrega total exige ser para sempre eexclusivamente.

Como é possível alguém entregar sua vida para várias pessoasou só por um tempo? O amor realiza-se com o tempo. O amor é em si mesmo, parasempre. Uma pessoa ou se entrega para sempre ou não se entregou a si própria.

Desta forma, um amor total, fiel e exclusivo estará sempreaberto à vida, chega a condição de transcender o outro e de abrir-se para oinesperado e a surpresa.

Que Deus nos faça compreender o matrimônio como no“princípio”!


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