Formação

A vida de Frei Galvão

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frei-galvaojpg423112012144414Apreensão. Curiosidade. Alegria. E medo. Sentimentos diversos dominavam o jovem Antonio de Sant’Ana Galvão ao deixar a pequena Guaratinguetá, vila situada no interior daquela que seria a maior capitania e o maior estado do país, mas que na época pertencia à diocese do Rio de Janeiro. Enviado pelo pai, atuante membro das ordens terceiras de São Francisco e do Carmo, o moço Antonio iria atravessar grande parte da colônia para estudar no majestoso colégio da época, a referência nacional em ensino: o Seminário dos Padres Jesuítas, na longínqua e misteriosa Belém, arraial da Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira. Como ele, só há outra instituição também dos seguidores de Inácio de Loyola, também situada na Bahia, no antigo centro administrativo da velha Salvador, no eterno Terreiro de Jesus.

São decorridos 1752 anos da Graça do Nosso Senhor e, aos 13 anos, era chegada a hora, portanto, de conhecer a primeira capital do Brasil, a grande Baía de Todos os Santos, o caudaloso Rio Paraguaçu, o seminário desejado por todos, um novo mundo. Não há notícias detalhadas sobre a atuação em terras baianas do homem que, na próxima sexta-feira, se tornará o primeiro santo brasileiro, após um longo e sofrido processo para os fiéis de frei Galvão que há muito aguardam um final feliz para a canonização. Apenas mais um dentre alunos que ali frequentaram a escola, o então Antonio Galvão não conheceu o fundador Alexandre de Gusmão e o padre voador Bartolomeu Lourenço, ambos mortos em 1724. Mas aprendeu sobre história e ciências exatas. Ou mais: “(…) hão de aprender a ler, escrever, contar, gramática e humanidades e não se lerá curso de filosofia”, determinava o Regulamento do Colégio de Belém, de acordo com o relato do padre Serafim Leite, em História da Companhia de Jesus no Brasil, volume V.

Ali ficou sabendo da morte da mãe, que faleceu aos 38 anos. Nem a triste notícia o fez retornar ou mesmo sair do seminário. Só mesmo o terremoto em que se transformou a vida dos jesuítas no Brasil, com a ascensão do marquês de Pombal ao poder em Portugal, foi capaz de alterar o seu caminho. O novo homem forte da metrópole assusta-se com a grande influência da ordem religiosa, tanto na economia como na política no cotidiano da colônia. Com uma ação extrema o marquês expulsa os seguidores da Companhia de Jesus da colônia.

A perseguição assustou Antonio Galvão da França, o pai, que mandou buscar o filho, em 1756, ainda com 18 anos incompletos. “Teria permanecido com os jesuítas, mas o pai, preocupado com o clima antijesuítico provocado pela atuação do marquês de Pombal, aconselhou Antonio a viver com os Frades Menores Descalços da reforma de São Pedro de Alcântara. Estes tinham um Convento em Taubaté, não muito longe de Guaratinguetá”, diz um trecho do livreto Beatificazione – Piazza San Pietro, 25, Ottobre 1998, distribuído aos presentes que acompanharam a beatificação de frei Galvão, no Vaticano, pelo Paulo João Paulo II.

Terminava assim, melancolicamente, a passagem do futuro santo pela Bahia. Foram exatos quatro anos inteiramente dedicados aos estudos. Decerto, não deixou de percorrer os sete quilômetros que separam Belém da sede Cachoeira para passear no rio da cidade. Ou ainda catequizar os índios que existiam no sertão próximo e nas margens do Paraguaçu. Mas ainda não havia os inúmeros terreiros de candomblé e as polêmicas jorgeamadianas que permeiam o cotidiano do lendário município. E não é que, nos últimos dias de abril, parte da cidade se via perplexa com a retirada de um dos mais importantes símbolos da sua história, que saiu exclusivamente da antiga cadeia para ser cultuado em um terreiro?

Sacralidade violada

Disse-me-disse absurdo domina as discussões nos bares, nas praças, na academia que se implanta na cidade. Velhas beatas, mães-de-santo preteridas. Todas estão indignadas com a permissão da Câmara de Vereadores, exatamente em 19 de abril, Dia do Índio, de liberar a imagem de madeira do Caboclo, que simboliza a Independência da Bahia, para o culto no Terreiro do Caboclo Guarany de Oxóssi, hipercolorido com seus motivos nacionais e tropicalistas, com frutas, plantas e animais genuinamente brasileiros. No domingo, 29, a celeuma chegou ao fim. O Caboclo retornou cedo. O que seria um evento sem alarde virou um fantástico ritual nas escadarias da Casa de Câmara e Cadeia, sucedido por uma solenidade de quase meia hora de entrega da imagem na antiga sela, ponto turístico onde fica guardado o Caboclo durante todo o ano, ao lado de pôsteres de personalidades históricas da cidade como Maria Quitéria, Ana Néri e Teixeira de Freitas. Ali estará pronto para o desfile do 25 de junho, dia em que Cachoeira é mais Cachoeira e comemora aquela data de 1822, quando uma célebre Ata da mesma Câmara proclamou Dom Pedro I o imperador do Brasil, prenunciando a Independência do país.

Frei Galvão não é lembrado ali naquele espaço, só agora a população descobre o antigo morador ilustre. Mas os estudos, a devoção e o respeito crescem de forma exponencial pelo ilustre visitante de pouco mais de 300 anos. Lá no centro da sede do município, o padre Reinaldo Balbino dos Santos ouve pacientemente, na sacristia, mais uma confissão após a missa na manhã chuvosa de Outono na pioneira Capela de Nossa Senhora da Ajuda. Ali, em mais uma recente intervenção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por meio do Projeto Monumenta, foram descobertas, em 2002, remanescentes de pinturas na cúpula do altar-mor, exatamente idênticas às que serão reveladas em toda a igreja de Nossa Senhora de Belém, assim que toda a restauração for realizada.

Mas, enquanto se descobre o monumento, aguarda-se. O pecado deve ser grande e só quase meia hora depois, o padre dá início à aula: saca uma bolsa e começa a retirar livros, revistas, CDs e DVDs sobre a vida cristã do futuro santo. “Precisamos, sim, estudar sobre o tema, é um assunto importante e vai mexer com a nossa cidade”, diz o simpático religioso com um sorriso bonachão de gente do recôncavo. “E ele não veio para Belém para ser padre, não tinha essa intenção. Veio sim para se tornar um cidadão”, completa ele, natural de São Sebastião do Passé e vigário da Paróquia da Nossa Senhora do Rosário da Cachoeira, a primeira que deu origem à vila.

Em todo o material estudado não há, realmente, maiores detalhes sobre a vida de frei Galvão em sua breve passagem cachoeirana. A pesquisa reúne ainda altas horas de navegação em páginas eletrônicas na rede mundial de computadores, sem muito sucesso. Nem mesmo no volume V da História da Companhia de Jesus, existem referências à passagem do frei por Belém. Mas, a partir da sua saída do seminário e da adolescência, os trabalhos e a atuação do santo nacional ganharam publicidade mais minuciosa.

Após a passagem por Taubaté, segue para o noviciado do Convento de São Boaventura, na vila de Macacu, no Rio de Janeiro. Em 11 de julho de 1762, foi admitido à ordenação sacerdotal depois de muitos estudos teológicos. Virou frei Galvão. E assim é enviado para o Convento de São Francisco em São Paulo. Ali continuou sofrendo com os ordenamentos do Marquês de Pombal. Fundou o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência, uma casa que acolhia jovens para viver como religiosas sem o compromisso dos votos. Manobra político-cristã que fugia do veto da metrópole que não permitia novas fundações e novas consagrações religiosas.

Uma das grandes realizações de frei Galvão foi a construção do Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição da Luz, erguido a partir de uma capela quinhentista. “A frei Galvão, como arquiteto, deve-se um documento tão interessante quanto importante: trata-se do frontispício da Igreja da Luz, riscado – e ainda existente – na parede de taipa de sua cela, no mosteiro”, escreveram Thereza Regina de Camargo Maia e Tom Maia em Frei Galvão – sua terra e sua vida, publicado pela primeira vez em 1998 pela Editora Santuário, em Aparecida, interior paulista.

Para se tornar santo, foi preciso que o Vaticano reconhecesse os dons especiais do franciscano. O livro relata alguns milagres como o da Potunduba, do frango do diabo, da mulher grávida, do lenço, cujo relato diz: “Os familiares de um senhor que adoecera gravemente em Taubaté lembraram-no de que deveria confessar-se, preparando-se ‘para fazer viagem à outra vida’.

Informados por ele de que já se havia confessado com frei Galvão, riram-se todos, pois o santo frade não se encontrava naquela ocasião em Taubaté. Como o caso urgisse, dada a gravidade da doença, insistiram em sua confissão. O doente tirou, então, de sob o travesseiro, um lenço que pertencia a frei Galvão, e que o frade havia esquecido sobre sua cama durante a confissão. Ninguém duvidou mais da presença do frade, pois o seu dom de bilocação já era notório em toda a Capitania de São Paulo”.

Com a canonização, devem se popularizar ainda mais as pílulas de frei Galvão, aquelas que curam. “Pos partum, Virgo, Inviolata permanansisti! Dei Genitrix, intercede pro nobis”, escreveu o santo em minúsculo pedaço de papel. Pediu que o enrolassem e o cortassem em forma de pílula para, em seguida, dar a uma parturiente que sofria. “Depois do parto, ó Virgem, permaneceste Intacta! Mãe de Deus, roga por nós”. Nascia a devoção por mais um ato do frei Galvão. O processo de beatificação e canonização iniciado em 1938 foi reaberto solenemente em 1986 e concluído em 1991. Em 8 de abril de 1997, foi promulgado o Decreto das Virtudes Heróicas e, em 6 de abril do ano seguinte, o respectivo decreto sobre o milagre, pelo santo padre João Paulo II. No final da semana que inicia, será santo. Canonizado em São Paulo. Mas leva um pouquinho da aura baiana.

 

Formação: Maio/2007

25.10A vida exemplar de Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, mais conhecido como Frei Galvão.Um frade católico e primeiro santo nascido no Brasil. Foi canonizado pelo papa Bento XVI durante sua visita ao Brasil (São Paulo) em 11 de maio de 2007.

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