Formação

A vida humana tem valor absoluto

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Andréia Gripp
Missionária da Com. Católica Shalom no Rio de Janeiro

É lícito a pesquisa com células-tronco embrionárias?Independente de sua resposta, gostaria de fazer outras: Por que você tem essaopinião? Sabe o que são células-tronco embrionárias? Sabe por que existe tantapolêmica entre a Igreja, a comunidade científica e o Estado em torno desseassunto? Sabe que princípios estão em jogo nessa discussão?

Pois é, antes de emitirmos uma opinião, precisamos entendero assunto. Claro, que podemos dizer: “o magistério da Igreja é contra, então eusou contra, e basta!” De certo, basta para nós, mas, e para quem vamosevangelizar no trabalho, na escola ou faculdade e na família? De certo umaresposta dessas não vai converter ninguém.

Ou, mais triste ainda, alguém pode dizer: “que bobeira, aIgreja novamente atrasada, a ciência sempre está certa. Já não tem mesmo ummonte de embrião congelado? É melhor usá-los para salvar vidas que jogá-losfora.” Que lástima! E o pior que ouvimos muitos irmãos que se dizem cristãosfalarem isso.

Esse tipo de resposta é fruto da desinformação e da mentesimplista que acha que o problema é somente utilizar ou não os embriõescongelados. Como se tudo fosse apenas uma questão de aprovar ou não uma lei. Sóque o assunto vai além, muito além disso.

Se fosse apenas uma questão de leis, estaria havendo tantodebate? Deveríamos, no mínimo, estar desconfiados: “Ora, porque tanta genteinteligente está mobilizada em torno desse assunto? PHDs em Teologia,Filosofia, Genética, em Moral e em Direito, todo mundo parou para estudar edebater o problema. E alguns de nós acha que pode resolver tudo com um simplesplebiscito… É, portanto, muito mais do que uma simples questão de “Euacho…”

Não tenho a menor capacidade de explicitar aqui aproblemática científica. Como consagrada, estudante de Teologia na PUC-Rio queropartilhar as reflexões que temos feito em torno do assunto e mesmo assim não dápara aprofundar em tão poucas linhas o tema, que envolve a concepção dehominização, debatida desde Aristóteles. O que conseguirei, na verdade, éapenas levantar questões acerca do que está em jogo em tudo isso, que acreditoser o entendimento sobre o que é o ser humano e o valor da sua vida nasociedade.

Uma sociedade sem Deus

Toda a discussão que temos assistido hoje na mídia nos levaa olhar criticamente e profundamente a sociedade em que vivemos. Na palavra queo Papa Bento XVI dirigiu aos participantes da Assembléia Plenária do ConselhoPontifício para a Cultura, no dia 8 de março deste ano, ele afirmou: “Asecularização invade todos os aspectos da vida cotidiana e cria odesenvolvimento de uma mentalidade onde Deus está ausente, em parte outotalmente, da existência da consciência humana”.

Alertando todos os fiéis para esse perigo, ele continuou:“Esta secularização não é apenas uma ameaça exterior para os crentes, porqueela também se manifesta, há algum tempo, dentro da própria Igreja.Desnaturaliza, do interior e em profundidade, a fé cristã e, em conseqüência, oestilo de vida e o comportamento cotidiano dos crentes”.

O Pontífice denunciou que “a ‘morte de Deus’ anunciada nosdecênios passados por muitos intelectuais abriu passagem para um estéril cultodo indivíduo”. A esse culto do indivíduo, segundo o Papa, não estão imunes oscrentes: a mentalidade hedonista e consumista favorece (entre o Povo de Deus)uma tendência para a superficialidade e o egocentrismo, prejudicando a vidaeclesiástica. Para ele, a cultura atual da imagem impõe modelos contraditóriose, praticamente, a negação de Deus. Na sociedade em que o indivíduo éauto-suficiente, “não há mais necessidade de Deus, de pensar Nele ou voltar aEle”.

Então, você também já se perguntou o que é essa talsecularização?

Vou tentar explicar da forma mais simples possível, copiandoo sociólogo Peter Berger: por secularização entendemos o processo pelo qualsetores da sociedade e da cultura são separados das instituições religiosas. Oumelhor, e mais simples ainda: é a separação da Igreja e do Estado. “Na históriaocidental moderna, a secularização se manifesta na retirada das Igrejas cristãsde áreas que antes estavam sob o seu controle ou influência”, afirma Berguer noseu livro “O Dossel Sagrado”.

Mas a secularização, enquanto fenômeno social, não tem só oaspecto socioestrutural. Ela afeta a totalidade da vida cultural de umasociedade. Podemos facilmente constatar isso “no declínio dos conteúdosreligiosos nas artes, na filosofia, na literatura e, sobretudo, na ascensão daciência, como uma perspectiva autônoma e inteiramente ‘secular’ do mundo”.

Além disso, a secularização também tem um lado subjetivo.Assim como há uma secularização da sociedade e da cultura, também há umasecularização da consciência. Isto significa que o Ocidente moderno temproduzido um número crescente de indivíduos que encaram o mundo e suas própriasvidas independentes e totalmente à margem da experiência religiosa . “Em outraspalavras, a radical transcendência de Deus defronta-se com um universo deradical imanência, ‘fechado’ ao sagrado. Religiosamente falando, o mundo setorna muito solitário, na verdade” .

Um mundo que não é mais o de sempre

Vivemos num mundo que se renova a cada dia, à velocidade daalta tecnologia. O mundo religioso, cristão, que era parte das nossasseguranças e das nossas conquistas históricas, tradicionais, culturais, está sedesfazendo aos nossos olhos.

O que fazer? “Reagir!”, nos conclama o Papa Bento XVI. Como?“Com um renovado ardor missionário”, já nos apontava João Paulo II.

Mas o novo ardor missionário não pode ser apenasvoluntarismo, tem que ser firmado na experiência do Espírito Santo e, com Ele,na busca de um entendimento da realidade atual. Afinal, paralelo à essarealidade da secularização, e podemos dizer como reação à ela, estamosassistindo ao crescimento desenfreado de “espiritualidades” das mais variadas.Aldo Natale Terrin, outro sociólogo que estuda profundamente a religiosidadedos tempos contemporâneos, alerta para essa outra mudança radical dos nossosdias: “Hoje o efêmero da moda, o do particular e o do experimental aliaram-se epassaram a dominar, com nossa grande contrariedade, também naquele mundo quedeveria levar os sinais do ‘eterno’, do ‘imutável’, da verdade imortal. Opresente, portanto, tornou-se ainda mais frágil: é somente um ponto no tempo ena história, um ponto sem ancoragem até do ponto de vista religioso” .

E tudo isso influi na discussão sobe as céluas-troncoembionárias. Logo, não se trata de uma simples questão científica ou legal. Étambém filosófica, sociológica e sobretudo, teológica. Por isso, é infundáveldizer que a Igreja tem que ficar de fora desse debate. Ela já está todainserida nele, desde a sua origem.

Como citado anteriormente, Bento XVI disse, na AssembléiaPlenária do Conselho Pontifício para a Cultura, que é preciso “reagir” diantedessa situação, porque os altos valores da existência, que dão sentido à vida,correm riscos. Entre esses valores destacou a dignidade da pessoa, sualiberdade, igualdade entre todos os homens, sentido da vida, da morte “e o quese espera após a conclusão da existência terrena”.

Mudança de paradigmas

Outra coisa a ser ressaltada: ao afirmar que a vida nãocomeça na concepção, algumas comunidades científicas (e é bom tem isso emmente: não há unanimidade entre os cientistas a respeito dessa questão)demonstram que estão adotando um novo paradigma.

De forma bem simplista podemos dizer que paradigma é oconteúdo de uma visão de mundo. Assim sendo, um grupo de pessoas agem de acordocom os axiomas de um paradigma ao qual estão unidas, identificadas ousimplesmente em consenso sobre uma maneira de entender, de perceber, de agir, arespeito do mundo.

O filósofo Thomas Kuhn afirmou que uma “comunidadecientífica é constituída através da aceitação de paradigmas: conquistascientíficas universalmente reconhecidas que fornecem um modelo de problemas esoluções aceitáveis durante certo tempo” . Os que partilham de um determinadoparadigma aceitam a descrição de mundo que lhes é oferecida sem criticar osfundamentos íntimos de tal descrição. Isto significa que o olhar deles estáestruturado de maneira a perceber só uma determinada conjunção de fatos erelações entre esses fatos. Qualquer coisa que não seja coerente com taldescrição passa desapercebida e é vista como elemento marginal ou semimportância. É assim que algumas comunidades científicas trabalham. Elas nãoestão preocupadas, como a Teologia e a Filosofia, em estudar as conseqüênciashumanas, sociais ou psicológicas, dessa ou daquela descoberta. Apenas querem porem prática aquilo que consideram ser progresso. Vivem o que se chama decientificismo: somente as ciências experimentais são fontes e paradigmas detodo o conhecimento válido.

Mas como cristãos o nosso paradigma não pode ser apenascientífico, ou de uma determinada “linha” da ciência. A nossa visão sobre avida, e em especial sobre a vida humana, transcende os diversos paradigmascientíficos, especialmente o mecanicista (que privilegia a individualidade, aluta, a competição). Diante de uma descoberta, sempre devemos nos perguntar:“que peso isso tem para a eternidade? Até que ponto o homem tem direito demanipular a vida? Posso manipular embriões e congelar vidas só para saciar omeu desejo de ser mãe e depois de saciado esse desejo eliminar todos os filhosque gerei, mas não posso (ou não quero) criar? A que preço eu posso investir naciência para salvar a minha vida? Tenho o direito de interromper o processo dedesenvolvimento de uma outra vida para salvar a minha?”

Valor absoluto

Quem quer aprofundar esse assunto deve ler, especialmente,dois documentos da Igreja: Donum Vitae e Evangelium Vitae. Neles facilmentepercebemos que a Igreja se preocupa com o homem integral, em sua totalidade eunidade corporal e espiritual, imagem e semelhança de Deus, digno, desde a suaconcepção do amor incondicional de Deus. Um Deus que sacrificou o seu filhopara nos salvar. O ser humano não pode ser visto apenas como um materialgenético e não se reduz a uma máquina produtiva.

Na Donum Vitae, Instrução sobre o respeito à vida humananascente e a dignidade da procriação, publicada pela Congregação para aDoutrina da Fé, em 1987, aIgreja afirma que, do ponto de vista antropológico, há que se respeitar adignidade da pessoa humana, que é mais que um apanhado de tecidos. Criado àimagem e semelhança de Deus, o homem é formado de corpo e alma. Por essemotivo, uma intervenção no corpo humano não atinge apenas tecidos, mas aprópria pessoa. A vida de todo ser humano deve ser respeitada de modo absolutoporque o homem é a unica criatura sobre a Terra que Deus quis por si mesma.

Estaria a Igreja “atrasada” ao defender essa verdade? Ouserá que não estamos voltando ao tempo da barbárie, onde a vida humana nãotinha valor intrínseco e, por isso, poderia ser eliminada se assim desejassemos poderosos deste mundo? Não estaremos ingressando numa “barbárie científica”?

A Igreja defende o respeito ao embrião desde o primeiroinstante da sua existência por se tratar de uma pessoa humana. Os embriõesobtidos “in vitro” também são seres humanos sujeitos de direito, afirma aCongregação para a Doutrina da Fé, na Donum Vitae, ressaltando ser imoralconsiderar embriões humanos "material biológico" disponível parapesquisas.

Termino com uma frase retirada da Encíclica Evangelium Vitae(n. 2): "O homem é chamado a uma plenitude de vida, que ultrapassalargamente o das dimensões da sua existência terrena, porque consiste napartilha da própria vida de Deus".


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