Formação

A videira e os ramos

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Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Professor no Seminário de Mariana de 1967 a 2008

Através dos tempos a assertiva de Cristo “Eu sou a videira e vós osramos” (Jo 15,5) tem alimentado a espiritualidade cristocêntrica,levando seus seguidores aos páramos da santidade. Com efeito, cumpreassimilar a vida do Redentor, ser idêntico a ele. Isto marcadefinitivamente a psicologia do cristão. A contemporaneidade do Filhode Deus se estende de geração em geração, numa atualização ininterruptados mistérios da salvação, enquanto presentes e operantes naquele quefoi cristianizado.

Isto se dá através da imitação de Cristo a qual modela o fiel econstitui a personalidade do autêntico epígono do Filho de Deus. É umaparticipação viva em um arquétipo concreto e, mais ainda, atransfiguração persistente no modelo divino, uniformizando cada um aexistência individual com a de Jesus Cristo. Isto significa que abiografia de Cristo, ou seja, seus atos, gestos, palavras se tornamintegralmente a lei ou a norma de comportamento, de conduta de seudiscípulo.

Este passa então a pensar como o Mestre, a amar como Ele amou, aagir como Ele agia. Multiplica-se então a presença do meigo Rabi daGaliléia em todos os momentos da História. Clássica a indagação quemuitos santos se faziam com suma simplicidade, mas com tantoproficuidade espiritual: “Que faria Jesus no meu lugar, aqui e agora”?É claro que nunca haverá uma semelhança completa com o Exemplar divinale os teólogos empregam então o termo proporcionalidade, considerando acontingência humana. Por isto mesmo, esta assemelhação é progressiva,ininterrupta, se estende até à hora da morte.

São Paulo, este sim, pôde dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu; éCristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo nafé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”(Gl 2,20). OApóstolo testemunha até o extremo a presença do seu Senhor bem-amado,que “veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixõesmundanas e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade”(Tt 2,12).

Explica Paulo que, na prática, isto significa que, se Cristo está nocristão, o corpo, em verdade, está morto para o pecado, mas o espíritovive pela justificação (Rm 8,10) e isto porque, “Ele morreu por todos,a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que poreles morreu e ressurgiu” (2 Cor 5,15).

Cumpre então não seguir “o modo de viver deste mundo, do príncipedas potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes” (Ef2,2). Tudo isto quer dizer que é preciso uma reatualização constante deCristo na existência de cada um de seus seguidores os quais procuram seconfigurar com Ele. É a maneira de ser cristão que faz atual oEvangelho em cada contexto histórico.

Uma estruturação pessoal que ostenta a grandeza da doutrinaevangélica, participação viva do espírito e da graça nos mistériossalvíficos, incorporando-se o ser humano em Cristo. Mister se faz,porém, que o cristão não se esqueça do papel primordial da cruz nestaação espiritualizadora.

Foi o que aconteceu com Paulo: “Quanto a mim, não pretendo, jamais,gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual omundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14). A cruz docristão, no cotidiano de cada um, vem a ser as exigências da vida defé, a sabedoria desta virtude e o despojamento interior que esta féexige em todos os níveis, afetivo, intelectivo, sensitivo.

Trata-se da associação radical e sintética com o Crucificado do qualnunca se deve apartar. De fato, “nós pregamos Cristo crucificado,escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1,23). É umavisão antropológica muito séria que mostra o batizado como criatura epecador numa comunhão-participação com o mártir do Gólgota. Este aliásfoi não deixou dúvidas: “Jesus disse a seus discípulos: Se alguémquiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt16,24).

Daí uma total, completa, integral disponibilidade à vontade de Deus,a seu beneplácito, a sua iniciativa providencial em tudo. Dá-se então apassagem perfeita do humano para o cristológico. Verifica-se plenamentedesta forma o aparecimento de cristãos coerentes com a adesão a Cristoe à assimilação da verdadeira visão do Redentor face àquele que Eleredimiu.

Deste modo se evita um “pancristismo” que dissolveria aindividualidade humana pela individualidade de Jesus, mas se realiza oque o mesmo Cristo idealizou com relação a uma comunhão com o batizado:“Eu nele e ele em mim” (Jo 5,56).


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