Formação

Ajuntai tesouros

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Não se trata, simplesmente, de um slogan. Mais um slogan, ‘ajuntai tesouros’, entre tantos outros, com força de sustentação para alimentar grupos, projetos e até pessoas, como é comum acontecer na atualidade. Vive-se muito de variados slogans. É de mais fácil assimilação e são muito apropriados para uma cultura ‘fast food’. Isto é, tudo rápido, consumo imediato, conquista de sucessos e objetivos garantidos. É perigosa esta cultura que não preza a análise e não se empenha numa compreensão mais aprofundada de sentidos, das questões e de suas significações. É perigosa porque gera a violência das conclusões apressadas, dos julgamentos injustos e da perda da cordialidade que deve marcar a vivência de toda autêntica cidadania. Neste tipo de cultura se hospedam bem os discursos repetitivos e estéreis. Apreciados por não questionarem ou facilmente garantir aplausos são uma convicção maquiada de sucesso. Uma maquiagem porque a cultura atual carece de profundidade e de substância para enfrentar, com força de modificação, este quadro terrível da vitória de tantas nulidades. ‘Ajuntai tesouros’ não é, também, mais um dos muitos títulos no campo da badalada biografia da auto-ajuda ou da conquista fácil de sucessos.

Há, é verdade, uma verdadeira cultura da busca de sucessos rápidos e fáceis, custe o que custar. Neste afã se sacrificam princípios e não se tem escrúpulos em manipular e mascarar instituições e seus funcionamentos. Chega-se ao absurdo de camuflagens que revelam gravíssimas situações patológicas pessoais e grupais. Na verdade, ‘ajuntai tesouros’ é um comando que preside o coração de muitas culturas. Uma presidência que gera vícios terríveis enquanto se faz a eleição de prioridades e metas que comprometem perigosamente as dinâmicas da sociedade e, particularmente, a vida das pessoas. Antes de falar destes perigos, para iluminar a sua compreensão mais adequadamente, vale recordar que este dito, ‘ajuntai tesouros’, é capítulo importante dos ensinamentos de Jesus Mestre aos seus discípulos. Jesus disse, na carta magna do Evangelho, o Sermão da Montanha: “Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam”.

Ao contrário, ajuntai tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. Pois, onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”, Mt 6, 19-21. A ética cristã não considera o progresso social e técnico ou o bem estar material como desprezíveis ou condenáveis. Ora, o mundo deve ser conquistado, possuído e não abandonado, deve ser abençoado e não condenado. Na verdade, todo sucesso humano é uma conquista cristã. Assim, o cristão não é um que assume posições antagônicas ao mundo, mas alguém que nele se compreende como seu construtor com a missão de recriá-lo. Ora, a vocação do cristão é realizar já aqui na terra a felicidade do mundo futuro, onde toda riqueza e todo poder serão compartilhados com todos aqueles que merecerem a vida eterna. Aqui se localiza, então, a compreensão do que significa ajuntar tesouros no céu.

Não se trata de nenhum desprezo pela vida construída e vivida com dignidade. Uma dignidade que não é admissível como privilégio de alguns, mas deve ser sempre um dom para todos. Isto só é possível na medida em que o tesouro que se busca ajuntar está para além da materialidade e da quantidade. Ultrapassa a ilusória segurança que facilmente se põe nos bens e nos lugares de poder ocupados, criando apegos e gerando disputas infindas que alimentam os horrores dos ódios entre pessoas, grupos e nações, multiplicando os calvários das guerras fratricidas e escandalosas que acobertam os interesses espúrios de muitos. Quando o tesouro é entendido como o ajuntamento de bens que garantem, com segurança, a existência terrestre, difícil e até impossível se torna não perder o próprio coração. Perder o próprio coração é a perda da inteligência e de si mesmo. É preciso ter sempre um tesouro. Aí estará o próprio coração. Contudo, é preciso saber escolher o tesouro.

Quando o tesouro escolhido é algo transitório e falível a existência é projetada num tormento e no nada. A proposta de Jesus está na contramão da compreensão que faz depositar no ajuntamento de bens e na garantia dos lugares de poder a segurança verdadeira. Este é o nó das questões grandes e pequenas que estão afligindo o mundo em diferentes instâncias e esferas. Esta compreensão do simples ajuntamento de bens e nele o encontro da segurança, embora ilusória, é que alimenta as pretensões de projetos, culturais ou religiosos, institucionais ou financeiros, que estão gerando as brigas e as homéricas desavenças entre nações, grupos e pessoas. Aqui está explicação de tanto ódio no mundo e na vida das pessoas. Ódio que é sintoma da doença da ganância que nutre e mantém gente que se aproveita dos lugares e de instituições para alimentar seus interesses e ilusões de tesouros outros.

D. Walmor Oliveira


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