Formação

Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes

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 105. A Palavra de Deus torna-nos atentos à história e a tudoo que de novo germina nela. Por isso o Sínodo quis, a propósito da missãoevangelizadora da Igreja, fixar a atenção também no fenómeno complexo dosmovimentos migratórios, que tem assumido nestes anos proporções inéditas. Aquilevantam-se questões bastante delicadas relativas à segurança das nações e aoacolhimento que se deve oferecer a quantos buscam refúgio, melhores condiçõesde vida, saúde, trabalho. Um grande número de pessoas, que não conhece Cristoou possui uma imagem imperfeita d’Ele, estabelece-se em países de tradiçãocristã. Ao mesmo tempo pessoas que pertencem a povos marcados profundamentepela fé cristã emigram para países onde há necessidade de levar o anúncio deCristo e de uma nova evangelização. Estas novas situações oferecem novaspossibilidades para a difusão da Palavra de Deus. A este propósito, os Padressinodais afirmaram que os migrantes têm o direito de ouvir o kerygma, que lhesé proposto, não imposto. Se forem cristãos, necessitam de uma assistênciapastoral adequada para fortalecer a fé e serem eles mesmos portadores doanúncio evangélico. Conscientes da complexidade do fenómeno, é necessário quetodas as dioceses interessadas se mobilizem para que os movimentos migratóriossejam considerados também como ocasião para descobrir novas modalidades depresença e de anúncio e se proveja, segundo as próprias possibilidades, a umcondigno acolhimento e animação destes nossos irmãos para que, tocados pela BoaNova, se façam eles mesmos anunciadores da Palavra de Deus e testemunhas doSenhor Ressuscitado, esperança do mundo.[345]

 Anúncio da Palavra de Deus e os doentes

 106. Ao longo dos trabalhos sinodais, a atenção dos Padresdeteve-se também na necessidade de anunciar a Palavra de Deus a todos aquelesque estão em condições de sofrimento físico, psíquico ou espiritual. De facto,é na hora do sofrimento que se levantam mais acutilantes no coração do homem asquestões últimas sobre o sentido da própria vida. Se a palavra do homem pareceemudecer diante do mistério do mal e da dor e a nossa sociedade parece darvalor à vida apenas se corresponde a certos níveis de eficiência e bem-estar, aPalavra de Deus revela-nos que mesmo estas circunstâncias são misteriosamente«abraçadas» pela ternura divina. A fé que nasce do encontro com a Palavradivina ajuda-nos a considerar a vida humana digna de ser vivida plenamente,mesmo quando está debilitada pelo mal. Deus criou o homem para a felicidade e avida, enquanto a doença e a morte entraram no mundo em consequência do pecado(cf. Sb 2, 23-24). Mas o Pai da vida é o médico por excelência do homem e nãocessa de inclinar-

-Se amorosamente sobre a humanidade que sofre. Contemplamoso apogeu da proximidade de Deus ao sofrimento do homem, no próprio Jesus que é«Palavra encarnada. Sofreu connosco, morreu. Com a sua paixão e morte, assumiue transformou profundamente a nossa debilidade».[346]

 A proximidade de Jesus aos doentes não se interrompeu:prolonga-se no tempo graças à acção do Espírito Santo na missão da Igreja, naPalavra e nos Sacramentos, nos homens de boa vontade, nas actividades deassistência que as comunidades promovem com caridade fraterna, mostrando assimo verdadeiro rosto de Deus e o seu amor. O Sínodo dá graças a Deus pelotestemunho esplêndido, frequentemente escondido, de muitos cristãos –sacerdotes, religiosos e leigos – que emprestaram e continuam a emprestar assuas mãos, os seus olhos e os seus corações a Cristo, verdadeiro médico doscorpos e das almas. Depois exorta para que se continue a cuidar das pessoasdoentes, levando-lhes a presença vivificadora do Senhor Jesus na Palavra e naEucaristia. Sejam ajudadas a ler a Escritura e a descobrir que podem, precisamentena sua condição, participar de um modo particular no sofrimento redentor deCristo pela salvação do mundo (cf. 2 Cor 4, 8-11.14).[347]

 Anúncio da Palavra de Deus e os pobres

 107. A Sagrada Escritura manifesta a predilecção de Deuspelos pobres e necessitados (cf. Mt 25, 31-46). Com frequência, os Padressinodais lembraram a necessidade de que o anúncio evangélico e o empenho dospastores e das comunidades se dirijam a estes nossos irmãos. Com efeito, «osprimeiros que têm direito ao anúncio do Evangelho são precisamente os pobres,necessitados não só de pão mas também de palavras de vida».[348] A diaconia dacaridade, que nunca deve faltar nas nossas Igrejas, tem de estar sempre ligadaao anúncio da Palavra e à celebração dos santos mistérios.[349] Ao mesmo tempoé preciso reconhecer e valorizar o facto de que os próprios pobres são tambémagentes de evangelização. Na Bíblia, o verdadeiro pobre é aquele que se confiatotalmente a Deus e, no Evangelho, o próprio Jesus chama-os bem-aventurados, «porquedeles é o reino dos céus» (Mt 5, 3; cf. L c 6, 20). O Senhor exalta asimplicidade de coração de quem reconhece em Deus a verdadeira riqueza, colocan’Ele a sua esperança e não nos bens deste mundo. A Igreja não pode desiludiros pobres: «Os pastores são chamados a ouvi-los, a aprender deles, a guiá-losna sua fé e a motivá-los para serem construtores da própria história».[350]

 A Igreja está ciente também de que existe uma pobreza que évirtude a cultivar e a abraçar livremente, como fizeram muitos Santos, e há amiséria, muitas vezes resultante de injustiças e provocada pelo egoísmo, queproduz indigência e fome e alimenta os conflitos. Quando a Igreja anuncia aPalavra de Deus sabe que é preciso favorecer um «círculo virtuoso» entre apobreza «que se deve escolher» e a pobreza «que se deve combater»,redescobrindo «a sobriedade e a solidariedade como valores simultaneamenteevangélicos e universais. (…) Isto obriga a opções de justiça e desobriedade».[351]

 Palavra de Deus e defesa da criação

 108. O compromiso no mundo requerido pela Palavra divinaimpele-nos a ver com olhos novos todo o universo criado por Deus e que traz jáem si os vestígios do Verbo, por Quem tudo foi feito (cf. Jo 1, 2). Com efeito,há uma responsabilidade que nos compete como fiéis e anunciadores do Evangelhotambém a respeito da criação. A revelação, ao mesmo tempo que nos dá a conhecero desígnio de Deus sobre o universo, leva-nos também a denunciar oscomportamentos errados do homem, quando não reconhece todas as coisas comoreflexo do Criador, mas mera matéria que se pode manipular sem escrúpulos.Deste modo, falta ao homem aquela humildade essencial que lhe permitereconhecer a criação como dom de Deus que se deve acolher e usar segundo o seudesígnio. Ao contrário, a arrogância do homem que vive como se Deus nãoexistisse, leva a explorar e deturpar a natureza, não a reconhecendo como umaobra da Palavra criadora. Neste quadro teológico, desejo lembrar as afirmaçõesdos Padres sinodais ao recordarem que o facto de «acolher a Palavra de Deusatestada na Sagrada Escritura e na Tradição viva da Igreja gera um novo modo dever as coisas, promovendo um ecologia autêntica, que tem a sua raiz maisprofunda na obediência da fé, (…) e desenvolvendo una renovada sensibilidadeteológica sobre a bondade de todas as coisas, criadas em Cristo».[352] O homemprecisa de ser novamente educado para se maravilhar, reconhecendo a verdadeirabeleza que se manifesta nas coisas criadas.[353]

 Palavra de Deus e culturas

 O valor da cultura para a vida do homem

 109. O anúncio joanino referente à encarnação do Verborevela o vínculo indissolúvel que existe entre a Palavra divina e as palavrashumanas, através das quais Se nos comunica. Foi no âmbito desta reflexão que oSínodo dos Bispos se deteve sobre a relação entre Palavra de Deus e cultura. Defacto, Deus não Se revela ao homem abstractamente, mas assumindo linguagens,imagens e expressões ligadas às diversas culturas. Trata-se de uma relaçãofecunda, largamente testemunhada na história da Igreja. Hoje tal relação entratambém numa nova fase, devido à propagação e enraizamento da evangelizaçãodentro das diversas culturas e nas mais recentes evoluções da culturaocidental. Isto implica, antes de mais nada, reconhecer a importância dacultura como tal para a vida de cada homem. De facto, o fenómeno da cultura,nos seus múltiplos aspectos, apresenta-se como um dado constitutivo daexperiência humana: «O homem vive sempre segundo uma cultura que lhe é própriae por sua vez cria entre os homens um laço, que lhes é próprio também,determinando o carácter inter-humano e social da existência humana».[354]

 A Palavra de Deus inspirou, ao longo dos séculos, asdiversas culturas, gerando valores morais fundamentais, expressões artísticasmagníficas e estilos de vida exemplares.[355] Assim, na esperança de umrenovado encontro entre Bíblia e culturas, quero reafirmar a todos os agentesculturais que nada têm a temer da sua abertura à Palavra de Deus, que nuncadestrói a verdadeira cultura, mas constitui um estímulo constante para a buscade expressões humanas cada vez mais apropriadas e significativas. Para servirverdadeiramente o homem, cada cultura autêntica deve estar aberta àtranscendência e, em última análise, a Deus.

 A Bíblia como grande código para as culturas

 110. Os Padres sinodais sublinharam a importância defavorecer um adequado conhecimento da Bíblia entre os agentes culturais, mesmonos ambientes secularizados e entre os não crentes;[356] na Sagrada Escritura,estão contidos valores antropológicos e filosóficos que influíram positivamentesobre toda a humanidade.[357] Deve-se recuperar plenamente o sentido da Bíbliacomo grande código para as culturas.

 O conhecimento da Bíblia nas escolas e universidades

 111. Um âmbito particular do encontro entre Palavra de Deuse culturas é o da escola e da universidade. Os Pastores tenham um cuidadoespecial por estes ambientes, promovendo um conhecimento profundo da Bíbliapara se poder individuar, também hoje, as suas fecundas implicações culturais.Os centros de estudo promovidos pelas realidades católicas oferecem umacontribuição original – que deve ser reconhecida – para a promoção da cultura eda instrução. Além disso, não se deve descuidar o ensino da religião, formandocuidadosamente os professores. Em muitos casos, isto representa para osestudantes uma ocasião única de contacto com a mensagem da fé. É bom que sepromova, neste ensino, o conhecimento da Sagrada Escritura, superando antigos enovos preconceitos e procurando dar a conhecer a sua verdade.[358]

Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini –Introdução »

I Parte:
O Deus que fala »
Cristologia da Palavra »
A Palavra de Deus e o Espírito Santo »
Deus Pai, fonte e origem da Palavra »
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja »
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada »
A relação entre Antigo e Novo Testamento »
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas »

II – Parte:
A Igreja acolhe a Palavra »
A sacramentalidade da Palavra »
A palavra de Deus na vida eclesial »
Leitura orante da Sagrada Escritura e "lectio divina" »

III-Parte
A missão da Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo »
Palavra de Deus e compromisso no mundo »
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes »
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas »
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso »

Conclusão
A palavra definitiva de Deus »


Comentários

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