![]() |
Se você é fã de propaganda bem feita, como eu, deve ter-se tornado um expectador atento à “guerra das cervejas” que se vem desenrolando há meses na televisão brasileira. Não que eu seja fã de cerveja. Que me perdoem os adeptos, mas sou mais um chope bem gelado e costumava tomar cerveja – preta! – somente quando amamentava porque, segundo as avós, serve para aumentar o leite.
Preferências à parte, voltemos aos comerciais. Sem querer julgar a atitude das concorrentes ou do comercial em si – isso é coisa interna e de foro íntimo – utilizo-me da situação para remeter-nos a não muito tempo atrás – menos de cinqüenta anos! – quando ainda tinha peso a palavra dada.
“Dou minha palavra!” costumava-se dizer quando se queria garantir a veracidade do que se dizia, o compromisso de pagar a dívida ou a lealdade em uma transação. Um sinônimo – meio machista, é certo, mas sinônimo – era “Palavra de Homem!”. A virtude correspondente a essas frases é tão desconhecida hoje em dia que nem sei se as gerações mais novas, acostumadas ao internetês cibernética, já ouviram falar: “hombridade”.
Hombridade era a virtude de quem tinha palavra. Virtude de quem era capaz até de perder a vida para não desonrar a palavra dada como garantia de um bem, de um compromisso, de lealdade. Alguns significados oferecidos pelos dicionários modernos são: “nobreza de caráter”, “altivez louvável”. Esforço vão o do autor, o Silveira Bueno. Poucos ainda se lembram do que seja hombridade. É, realmente, um esforço de boa vontade de quem tem, literalmente, não só palavra, mas muitas palavras.
Depois de um trocadilho tão infame, é bom voltar a falar sério – mas nem tanto assim – para quem fala a partir da “guerra das cervejas”. Veja bem: há menos de cinqüenta anos, a palavra de uma pessoa tinha valor de garantia. Era a melhor hipoteca. Muitas vezes, nem se assinava contrato ou, se o fizesse, nem se ia submeter-se à burocracia não informatizada dos cartórios da época. Bastava a palavra. Mesmo que o que deu sua palavra tivesse prejuízo, a palavra dada era cumprida e pronto. Simples assim.
A “guerra das cervejas” trouxe à baila a questão: hoje, quem tem mais valor, a palavra dada ou o dinheiro? Estaríamos em plena era de uma nova “ética”, na qual o dinheiro, o lucro, a vantagem tem mais valor que a palavra dada, o caráter, a lealdade, a coerência?
Talvez a memória me traia, mas na época que antecedeu o fechamento da TV Tupi, no Rio de Janeiro, falou-se de vários artistas da emissora que se negaram a ser contratados pela TV Rio – a concorrente – por lealdade à Tupi. Era o comentário do momento. Hoje, somente um leitor assíduo da imprensa especializada é capaz de dizer com certeza em que emissora anda tal produtor, tal artista, tal apresentador. Em detrimento dos contratos, mudam de emissora ao sabor do quem dá mais. Ganha quem oferece mais dinheiro, mais vantagens, mais mordomia. Ninguém nem mais se lembra da tal da palavra dada, da tal da lealdade à filosofia da empresa.
Coisas do passado!
Coisas do passado? Tem certeza? Até que ponto o homem pode vender-se sem ser prejudicado e sem prejudicar os outros? Até que ponto pode, impunemente, ferir sua coerência interior dizendo, publicamente, ora uma coisa, ora exatamente o contrário, dependendo da vantagem financeira oferecida? Quando digo “impunemente” não me refiro a sanções legais, multas ou coisas do gênero. Isso é o de menos! Um bom advogado resolve.
Ao dizer “impunemente” refiro-me ao interior da pessoa, à sua “inteireza” e paz, aquela qualidade das pessoas retas, sábias, coesas, coerentes, “inteiras” também por dentro. Refiro-me, também, ao ônus social gerado por atitudes que sobrepõem o dinheiro à verdade, à lealdade, à coerência, à reflexão, à nobreza de caráter. Os jovens, hoje – e, com eles muitos adultos – além de não saberem mais o significado de hombridade, são levados a buscar a vantagem do lucro em todos os sentidos, a praticamente qualquer preço.
Não há como não pensar em Jesus, em como é oportuno seu ensinamento de que “aquele que quiser ganhar sua vida vai perdê-la, mas aquele que quiser perdê-la, por amor, vai ganhá-la” que, traduzindo para nosso eticaquês daria: “Aquele que quiser levar vantagem corre grande risco de perder a vida, mas aquele que abrir mão das vantagens para preservar sua honra, seu caráter, sua hombridade, vai, certamente, conhecer o que vale a pena na vida”. Como você vê, não estamos diante de um mero – e criativo – caso de guerra de comerciais. Estamos diante de um dentre centenas de exemplos de uma questão que concerne o homem e sua dignidade.
Em tempo: na próxima vez que estiver em um bar, levante a mão inteira, em um gesto elegante, e peça, humilde: “Seu garçom, ainda dá para fazer o favor de me trazer depressa uma boa média que não seja requentada, um pão bem quente com manteiga à beça, um guardanapo e um copo d’água bem gelada?” É mais seguro…
