Formação

Caracteristica das heresias

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Por Marcus Grodi

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No ano 144 d.C., durante um dos momentos mais difíceis daHistória da Igreja Católica, surgiu a heresia Marcionita que logo se estenderiaprincipalmente pelo Império Bizantino e sobreviveria pelos próximos trêsséculos, até ser absorvida pelo Maniqueísmo e desaparecer. É possível que seufundador, Marcião, fosse filho de um dos primeiros bispos de Sinope, umadiocese da Ásia Menor, de onde Marcião era originário. Há quem suponha(baseando-se na conhecida habilidade de Marcião para citar as Escrituras) queele fosse um bispo renegado pela Igreja. Qualquer que fosse o caso, o certo éque Marcião deu origem a uma das mais persistentes heresias de seu tempo e, paraisso, fez uso, pela primeira vez, de certas armas que todos os cristãosdissidentes empregariam no futuro até os nossos dias.

 

O gênio divisionista de Marcião criou uma nova doutrinapseudocristã, modificando a História Sagrada e publicando um cânon próprio dasEscrituras. Isto que hoje nos parece tão familiar – depois de tantos séculos deBíblias cerceadas, lendas negras e traduções deturpadas da Escritura – eraentão uma assombrosa novidade que cativou a muitos. Marcião sustentava, comomuitos vieram a fazer desde então, que o Deus do Antigo Testamento eravingativo e colérico, que não podia corresponder à mansa e amorosa pessoa deJesus. A partir de então, desenvolveu uma doutrina dualista que sustentava aexistência de duas divindades, uma má (a do Antigo Testamento) e outra boa (ado Novo Testamento).

 

Ao iniciar uma nova igreja, sempre se tropeça com esteproblema: o que fazer com a Igreja Católica? Marcião não podia destruir aIgreja de Cristo, porém, podia desqualificá-la. Para isso, teve uma idéia quepara nós parece bem desgastada, mas que era muito original naquela época: usaras Escrituras para impugnar a veracidade da doutrina católica.

 

O problema de usar essa estratégia é que as Escrituras doAntigo Testamento – inspiradas por um "deus mau", segundo Marcião -ofereciam amplo e suficiente testemunho da futura vinda de Jesus. Essa"pequena" inconsistência não foi grande problema para o líder herege,que declarou nulo todo o Antigo Testamento. Ao fazer isto, Marcião estabeleceuoutro grande princípio, que quase todo movimento herético seguiria no futuro:eliminar as partes da Bíblia que não convenham à nova doutrina enquanto que, aomesmo tempo, se exalta a Escritura (modificada) como a autoridade sobre a qualo novo grupo eclesial é fundado.

 

Recordemos que Marcião apareceu no cenário cristã menos decinco décadas depois de ter falecido o último Apóstolo de Cristo. A Igreja deentão suportava freqüentes perseguições, algumas locais e outras maisestendidas. Os Evangelhos e os demais escritos cristãos circulavam sem quehouvesse um cânon definido e universal. A Bíblia da Igreja Católica desses anosera a versão dos LXX (ou Septuaginta Alexandrina), que consistia basicamentedos livros que hoje encontramos no Antigo Testamento da Bíblia Católica.

 

As razões para a ausência de um cânon cristão eram várias,principalmente as constantes perseguições que tornavam impossível aos bispos sereunirem em sínodos gerais, os quais seriam muito perigosos por razões óbvias.Passariam-se quase três séculos até que se apagassem as perseguições imperiaise os bispos pudessem se reunir livremente para considerar quais escritosdeveriam ser aprovados para sua inclusão no Novo Testamento. Uma das boascoisas que ocorreu por conseqüência da heresia marcionita foi justamente isto:a Igreja Católica tomou consciência da importância de possuir uma listaordenada de escritos cristãos autorizados.

 

Antes que a Igreja pudesse produzir tal lista, Marcião criouum "evangelho" de sua própria lavra. Nele declarava que o invisível,indescritível e benévolo Deus (aoratos akatanomastos agathos theos) teria seapresentado entre os judeus pregando no dia de sábado. O pseudo-evangelho deMarcião era uma versão modificada do Evangelho de Lucas, editado para apoiar asdoutrinas dualistas do fundador da seita.

 

A esta altura, encontramos no movimento marcionista ascaracterísticas que logo se repetem nas heresias surgidas posteriormente:

 

 1. A base da doutrina é umtexto – a Escritura – e não o Depósito da Fé recebido por toda a comunidade,como na Igreja Católica.

 

 2. O texto daEscritura é alterado ou redigido para afirmar as doutrinas do novo grupo, criandoassim uma nova e distinta tradição. O oposto ocorre na Igreja Católica, quepreserva cuidadosamente e exalta o papel da Escritura dentro do contexto daSagrada Tradição.

 

 3. Altera-se ocontexto histórico ou até a própria História. Isto é feito com o duplo sentidode afirmar a própria doutrina e, ao mesmo tempo, impugnar a Igreja Católica,acusando-a de ser ela quem "conta a História à sua maneira".Curiosamente, estas acusações tão imaturas imprimiram na Igreja o costume dedocumentar o desenvolvimento da sua própria doutrina na História. Na IgrejaCatólica a História, as Escrituras e a Doutrina da Igreja devem estarobrigatoriamente de acordo, sempre sem deixar espaço para dúvidas. É por issoque sabemos com certeza que hoje cremos na mesma fé declarada por Cristo epelos Apóstolos.

 

 Conseqüentemente,um dos testemunhos mais fortes que pode ser oferecido em favor do Catolicismo éa sua consistência e coerência durante vinte [e um] séculos de História. Omesmo não ocorreu com os marcionitas, que se dividiram em diversas seitas e, deuma espécie de puritanismo original, logo passaram para o Gnosticismo e,depois, para o Maniqueísmo, movimento que acabou absorvendo o Marcionismo porcompleto. Disto podemos deduzir uma quarta característica das heresias: suainstabilidade.

 

 4. A instabilidade doutrináriae sua conseqüência (as divisões sectárias), identificam todas as heresias.Seguindo o ditado de "quem com o ferro mata, pelo ferro morrerá", oscriadores de divisões na Igreja logo recebem na própria carne o seu amargoremédio.

 

 

Podemos afirmar, sem medo de errar, que todos os movimentosdissidentes do Cristianismo que se afastaram da Igreja Católica possuem estasquatro características em menor ou maior grau. Quando Cristo pregou a parábolada videira, disse assim:

 

 "Eu sou avideira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dáfruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto. Vós jáestais limpos, pela palavra que vos tenho falado. Estai em mim, e eu em vós;como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assimtambém vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eunele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiverem mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo,e ardem. Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós,pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai,que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos. Como o Pai me amou,também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor. Se guardardes os meusmandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado osmandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor. Tenho-vos dito isto, para queo meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo. O meu mandamento éeste: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maioramor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos. Vós sereis meusamigos, se fizerdes o que eu vos mando" (João 15,1-14).

 

É inegável a importância destas palavras de Cristo. A Igrejadeve operar em união com Cristo e em unidade interna. É a única maneira deproduzir "fruto", isto é, a salvação das almas. Quem espera agir foradesta ordem que Cristo estabeleceu deixa de permanecer em Seu amor. Parapermanecer no amor de Cristo, entende-se que devemos guardar os Seusmandamentos. Nesta simples parábola, Cristo resumiu as qualidades da Igreja quedeverá durar até o fim do mundo. Todas elas provêm do amor cristão:

 

 – A primeiraqualidade é a humildade. Cristo é a videira, a plenitude da fé e o todo daIgreja, enquanto que seus discípulos são os ramos que se nutrem Dele. Nãoexiste outra ordem pela qual algum dos ramos possa dar origem a outra videiradistinta.

 

 – A segundaqualidade é a obediência. Somos amigos de Cristo se fizermos o que Ele nos diz.Não há outra opção se O amamos.

 

 – A terceiraqualidade é conseqüência das outras duas: a unidade. A indivisibilidade daplanta produz fruto que dá glória a Deus em Cristo. Essa união éo resultado visível do amor que começa em Cristo e se multiplica nosdiscípulos.

 

Como não ocorre – nem nunca ocorrerá – entre aqueles que seseparam da Igreja Católica, estas três qualidades distintas produzem o milagreda duração da Igreja na História, que é por si mesma um poderoso testemunho daverdade do Evangelho. Quando Cristo nos adverte que sem Ele não podemos fazernada, também agrega que nossa relação com Ele só pode ser frutífera. SemCristo, os ramos morrem sem dar fruto; com Cristo, a Igreja continua no mundo ena História, dando testemunho do Seu amor em perfeita união. Este é o frutocristão por excelência!

 

Tendo comparado as qualidades próprias das heresias e daIgreja, não nos surpreende que as Palavras de Cristo se cumpram na História.Apenas a Igreja fundada por Cristo sobrevive dando testemunho ao longo dosséculos e ao mundo inteiro com a doutrina integral recebida de Cristo. Nãoimporta quão numerosos sejam os membros de uma seita; sabemos que passarãoenquanto que a Igreja continuará sua missão até que Jesus retorne. Os poderesmalignos continuarão criando divisões, pois isto é da sua natureza; mesmo assim,não prevalecerão contra toda a Igreja (Mateus 16,13-20).

 

A Igreja já viu passar centenas de seitas, movimentosdissedentes, heresias crassas e toda espécie de inimigos. O testemunho daHistória é apenas um: a Igreja SEMPRE permanece e seus inimigos SEMPRE passam,pouco importando quão forte ou astuto tenham sido seus adversários. Aquele quea sustenta nunca dorme e Seu braço protetor jamais descansa!


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