Deus Pai e a Vida Consagrada
Há um tipo de paternidade que só pode realizar-se em Deus, o Pai dos Céus. Por isso, como diz Cristo, não devemos chamar Pai a nenhum homem da terra ( Mt 23,9 ), no sentido de que só Deus é a fonte originária da vida. Porém, no mundo podem-se realizar outros aspectos da paternidade, em dimensão temporária e limitada:
Existe uma paternidade generativa, que partindo do amor mútuo do pai e da mãe, transmite e acende a chama da vida, suscitando um novo ser humano. É a paternidade que realizam os esposos, vinculando-se em amor, criando um campo de confiança e vida compartida e acolhendo o(os) filho(s) que assim geram. Sobre o campo de amor mútuo, o(s) situam e o(s) educam, para que assim cresça(m) em liberdade e maturidade, até alcançar a independência pessoal no caminho da vida.
Há também a paternidade gratificante ou espiritual, que partindo da renúncia ao amor matrimonial, abre-se ao dom universal do Pai dos Céus, para cultivar um tipo de paternidade-maternidade mais ampla. Estes não agem assim por impotência nem por medo, mas em gesto de amor e resposta a um chamado especial.
Dentro da vida consagrada, a parnidade-maternidade espiritual oferece dimensão intracomunitária que às vezes é vinculada à função dos superiores, chamados também “pais”e “mães”. Estes são como Pai de pessoas maiores, animadores de um grupo de irmãos que caminham juntos à procura do reino de Deus. A partir daqui , e falando estritamente, podemos afirmar que dentro de uma comunidade, todos realizam, em algum sentido, funções paternais: entregar-seão generosamente a fim de que os outros possam amadurecer. Peculiar do pai e da mãe é ir criando, tornando possível que os outros sejam, amadureçam, se realizem. Neste aspecto, a comunidade inteira apresenta-se como espaço de maternidade-paternidade para cada um de seus membros: dessa forma é sinal de Deus Pai no meio da terra.
Ao lado da dimensão intracomunitária da paternidade-maternidade espiritual, encontramos a simensão extracomunitária, pela qual os consagrados realizam um tipo de paternidade eclesial e humana, no plano de entrega e doação gratuita através do carisma. Assim, oferecem no mundo o testemunho da paternidade de Deus, aberta de modo especial aos mais pobre se pequenos da terra. Desse modo, em gratuidade, sem desejo de protagonismo, mas como imitadores e continuadores do Amor do único e verdadeiro Pai, torna presente o mesmo princípio trinitário de Deus sobre a terra.
Deus Filho e a Vida Consagrada
Unidos a Jesus, explicitamos a segunda característica da vida trinitária, ou seja, a filiação. Sabemos que toda filiação deriva de Jesus: ” Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus cristo: Ele nos abençoou com toda a bênção espiritual nos céus, em Cristo…Ele nos predestinou a ser para Ele filhos adotivos por Jesus Cristo, assim o quis a sua benevolência para o louvor da sua glória, e da graça com que nos cumulou em seu Bem-Amado” (Ef 1,3.5-6).
Muitas vezes supomos que Deus é simplesmente amor ativo: sempre dá de si, gera, suscita vida em torno de si. Por isso parece-nos que receber é inferior, indigno de pessoas responsáveis, criadoras. Ora, contra isso temos que afirmar que em Deus existe também o receptivo: o Filho é divino na medida que tudo recebe; somente assim, em total passividade e acolhimento, pode realizar-se como Filho de Deus e ser pessoa.
Pensamos muitas vezes que é preciso criar e defender a autonomia pessoal como independência, que devemos realizar-nos por nós mesmos, destacando-nos por sobre os outros. Por isso, aquele que permanece por baixo, aquele que se deixa ficar atrás, aquele que não vence, parece-nos malogrado. Pois bem, contra isso cumpre-nos afirmar com toda energia: o evangelho oferece-nos esquema diferente! Jesus Cristo é Deus tendo recebido tudo de seu Pai. Também o receber tem sentido radicalmente divino: Jesus pertence ao mistério trinitário na medida que sabe receber, recebe a fundo. Dessa forma obtem e atualiza de maneira pessoal toda a essência de deus Pai, cultivando assim a glória trinitária.
Filho é o que sabe escutar, aquele que “obedece”(ob-audire). Obediência não supõe escravidão, mas acolhida. Obediência é acolhida. Somente nessa linha, recebendo a palavra e o amor que lhe são eferecidos, as “crianças”da terra podem se tornar responsáveis de si mesmas: aprendem a se comportar, a responder, a realizar-se, a agirm como pessoas que são. O mesmo acontece em jesus, o Filho: tudo recebe de Seu Pai; somente desse modo se torna dono de si mesmo, e pode responder ao Pai, em gesto agradecido. Por isso a obediência (escuta) explicita-se em forma de resposta, chegando-se até ao diálogo total, em doação, em acolhimento, em agradecimento e entrega. Superam-se assim as leis de egoísmo que muitas vezes dominam a terra: supera-se a violência daquele que quer impor-se pela força, suscita-se âmbito de graça e doação onde as pessoas podem realizar-se e se realizam em amor e transparência.
Deus Espírito Santo e a Vida Consagrada
Embora as fnções do pai e do Filho continuem conservando todo o sentido, a vida consagrada como mistério trinitário, completa-se na presença do Espírito santo, que é pura comunhão, que as vincula e plenifica.
Para compreender, voltemos ao mistério do Espírito no contexto trinitário. Dissemos que o Espírito santo é comunhão de amor que procede da entrega do Pai e do Filho em Amor Perfeito. Por isso o Espírito é “de dois”, e não de um só. Esse amor plenifica-se e gera o espírito somente alí onde Pai e Filho dão e recebem a exist6encia com a mesma intensidade: tudo o que um oferece, o outro recebe; e tudo o que o segundo recebeu devolve-o livremente ao primeiro. O Espírito Santo é então pessoa comunitária. Nele o Pai e o Filho se encontram e selam sua unidade na diversidade. Enquanto o Pai representa o DAR, e o Filho representa o RECEBER, o Espírito Santo representa o COMPARTIR em plenitude eterna. Essa é a nota mais profunda do Espírito. Por isso podemos chamar-lhe “O Condileto”, a pessoa do terceiro na qual culmina o amor mútuo das pessoas anteirores.
Vivemos em um mundo individualista, confrontados uns com os outros, entendendo a pessoa em forma de sujeito que se opõe às linhas anteriores, que parecem dominar em nossa história. O liberalismo defende a liberdade individual, porém sacrificando os valores da união e do conjunto dos homens. Por outro lado, os coletivismos defendem o conjunto, mas muitas vezes parecem negar a realidade e identidade dos indivíduos. Porém, além desses extremos, à luz de tudo o que estamos esboçando, surge e explicita-se a personalidade comunitária que plenifica os indivíduos dentro de um encontro que se realiza em liberdade e transparência. Isso é o que se poderia chamar “pessoa comum” que, em perspectiva cristã está ligada à presença e atuação do espírito divino. O Espírito Santo não pode ser refletido em nós individualmente. Ele se expressa, revela-se ou explicita-se alí onde faz surgir a comunhão, unificando os irmãos de Jesus, de tal maneira que eles formem uma unidade, o corpo da Igreja.
A união dos cristãos sobre o mundo não culmina través do surgimento de uma nova pessoa comum do tipo intra-histórico (uma sociedade civil, uma pessoa jurídica, uma associação de classe). Todas as uniões puramente históricas, se querem chegar até o final, acabam sendo ditaduras do indivíduo mais forte, ou imposição impessoal do grupo. Os cristãos unimo-nos, na verdade e no amor, procurando um tipo de unidade mais elevada, a Pessoa do Espírito.
Fonte: Arquivo Shalom