Formação

Crianças assassinadas, crianças assassinas

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Maria Emmir Oquendo Nogueira

 Dia 2 deabril de 2008. Os jornais voltam a aterrorizar o mundo com duas notícias paraas quais se fica a buscar explicações no labirinto de evidências da crueldadehumana: no Brasil, uma criança de seis anos é jogada do sexto andar,provavelmente pelo próprio pai. Nos Estados Unidos, três crianças, de 7,8 e 9anos planejam os pormenores do assassinato de uma professora. Tendo pego ospotenciais assassinos mirins com a arma do crime e um plano minucioso paraexecutá-lo, a diretoria da escola procura os pais que se mostram totalmentesurpresos diante do plano que afirmam ignorar.

 Centenas depessoas, diante do noticiário televisivo devem ter repetido atônitas: “MeuDeus! Crianças de 7, 8 e 9 anos! Crianças de 7, 8 e 9 anos!!!” Eu mesma fizparte deste coro, para em seguida me questionar o que levou crianças de trêsfamílias diferentes – e provavelmente três séries diferentes na mesma escola –a simplesmente tentar “eliminar” a professora que os havia desgostado. Encontrosomente duas respostas: materialismo exacerbado – e, portanto, ausência de Deuse de valores evangélicos – e total desrespeito à vida – que é conseqüênciainevitável da primeira resposta.

 Há algumasdécadas, Dostoievski afirmava, em triste profecia: “Se Deus não existe, entãotudo é permitido”. Será que chegamos a este ponto de anarquia? Parece nãorestar muita dúvida. Não sei quem são as crianças, se são ricas ou pobres,negras, brancas ou ameríndias, orientais ou ocidentais. Não sei se seus paissão casados ou divorciados, idosos ou jovens, presentes ou ausentes de casa.Creio que ao chegarmos a este ponto não podemos mais ficar arranjandojustificativas socioeconômicas para todo comportamento inadequado. Propostas acada impacto moral, essas justificativas não têm explicado a grande maioria denossos impasses há pelo menos um século. Diante de um caso como o dessas trêscrianças é preciso dizer: “Basta! O problema não está aí. O problema não é ariqueza nem a pobreza. Não é a classe social ou o grupo racial. O problema éque o homem tem cada vez mais acintosamente prescindido de Deus!”

 Aoprescindir de Deus, Autor da vida, a vida perde seu valor e não é mais digna denenhum respeito. Descartam-se pessoas jogando-as do 6º andar ou matando-as comrequintes de detalhes com menos pejo do que se descartam copos de plástico.Afinal, o plástico polui, leva centenas de anos para degradar-se e é nocivo aoplaneta. O corpo, não, é rapidamente degradável e até ajuda na fertilização daterra! Quanto à alma, nem se fala, pois esta turminha que está aí, não crendonem temendo a Deus, também não crê na existência da alma. Talvez seus pais – seé que tinham fé – eram por demais ocupados para falar-lhes sobre isso, mesmoenquanto os levavam de uma aula para outra. A escola pública há muito énão-confessional nos Estados Unidos – caminho que o Brasil segue em mais um deseus desvarios de “modernidade”. A TV e a internet, que estatisticamente ocupama maior parte do tempo das crianças americanas (e das brasileiras!) falam detudo, menos de Deus e apresentam uma profusão inacreditável de valoresanti-evangélicos.

 Até hoje,dia 13 de abril, não se tem conclusão clara sobre quem terá espancado e atiradoIsabella do 6° andar. Quanto às crianças quase assassinas de 7, 8 e 9 anos,sumiram do noticiário, talvez porque o caso de Isabella trouxesse maisinteresse ao público. Nossa reflexão, porém, não se dirige a ninguém que seja“culpado” destes fatos. Dirige-se a nós, a mim e a você que temos em mãos estarevista católica. Nós conhecemos a Deus. Cremos Nele. Possivelmente temos umaexperiência pessoal com Jesus crucificado. Isso faz de nós, entre todos, osmais culpáveis, por morosidade e omissão. Conhecemos Aquele que pode trazersalvação ao homem e à humanidade, mas insistimos em nossa letargia e inépciasendo menos atuantes do que “os filhos do mundo”, como nos diz a Palavra.

 Paradoxalmente,mantemo-nos paralisados diante da TV, espantados com a pouca idade dos quaseassassinos americanos ou com a possibilidade de alguém ter jogado uma criançado 6° andar de um prédio bem ali em São Paulo. Algunsde nós nos limitamos a arregalar os olhos, por vezes cheios de lágrimascompassivas. Outros de nós nos contentamos em entreabrir a boca diante dasnotícias, correr para a TV para conhecer maiores detalhes e discutir os casos notransporte, no elevador, no trabalho, na escola. Afinal, pensamos, ainda quepudéssemos fazer alguma coisa, não faria muita diferença mesmo!

 Não foidesta forma que pensaram os primeiros apóstolos. Deram tudo de si e a própriavida para que todos conhecessem Jesus Vivo, pessoalmente, e, através dessaexperiência pessoal com Ele, acolhessem pela fé o Evangelho e a graça dasalvação. Estes dois passos são, afinal, o segredo: experiência pessoal comJesus Ressuscitado e acolhida da graça da salvação pela fé. Quem viver issoserá capaz de transformar o mundo através de seu testemunho, de sua ação, desuas obras, da graça de que é instrumento.

 Uma pessoahumana sem Deus é capaz de tudo. Certo. A recíproca, porém, é verdadeira: umapessoa humana com Deus também é capaz de tudo. Não se trata de medir o alcancede potências humanas, mas a abrangência eterna da força da graça. No primeirocaso, a pessoa humana sem Deus, pela ausência da graça, da fé, da esperança eda caridade é capaz de cometer as mais profundas perversidades. No segundo, oda pessoa que crê e tem uma experiência pessoal com Jesus, precisamente pelaforça da graça, da fé, da esperança e da caridade, pelo poder da Ressurreiçãode Jesus, que, agindo em nós é capaz de transformar a mais mínima ação, a maisínfima obra em um mundo transformado pelo amor.

 Onde fica adecantada “inocência infantil” diante dos instrumentos e planos das crianças de7 a 9 anospara matar a professora? Existe ou não, afinal, inocência infantil onde não háabertura para a graça, para a fé, para Cristo? Qual a força do pecado originale da concupiscência em uma sociedade que não mais crê, não mais batiza seusfilhos e prescinde de Deus? Uma das respostas certamente será: o homem éconsiderado como objeto descartável, não mais como imagem e semelhança de Deus,mas como algo a ser eliminado quando incomodar. As outras respostas girarão emtorno do mesmo conceito: sem Deus o homem perde o seu valor, quer tenha entre 7e 9 anos, quer seja uma professora adulta, quer seja alguém perdido osuficiente para atirar uma criança prédio abaixo. 


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