
No judaísmo antigo, Deus era amigo do homem, mas só dos santos e justos. Entre esses que não poderiam ter acesso livre junto a pessoa de Deus, estavam as mulheres e as crianças. Nesse artigo, vamos falar sobre as crianças e o seu relacionamento com Deus, evidenciando aqueles elementos que fazem delas verdadeiras pedagogas na escola da relação com Deus.
Jesus, enquanto peregrinava neste mundo, fez inúmeras pregações, e pregava como quem tinha autoridade. E em diversas passagens fez significativas alusões às crianças. Fico a pensar na dificuldade de seus interlocutores em entender seu modo tão original de pensar. Jamais um profeta fez referência às crianças, ou quis ter com elas algum tipo de relação.
A sociedade judaica primitiva era extremamente paternalista, marcavam essas comunidades uma espécie de culto à sabedoria, que era atributo exclusivo dos anciãos, profetas e Rabinos, todos eram homens. Eram excluídas dessa classe de sábios as mulheres as crianças, essas não eram ouvidas. Imagine se um patriarca judeu, um rabino ou qualquer judeu adulto passasse e ouvisse o que esses pequeninos tinham a dizer.
No tempo de Jesus, crianças menores de 12 anos pertenciam a uma categoria inferior e eram consideradas incapazes no que se referia à relação com Deus. Há textos que revelam que a criança era menosprezada e equiparada aos surdos, mudos, cegos, deficientes mentais e pagãos. Tanto assim, que entre os essênios, as crianças eram excluídas da assembleia da comunidade como podemos ver nas palavras de Edgar Morin: “as pessoas tolas, os loucos, as crianças menores, nenhum desses entrará no seio da comunidade, pois os santos anjos permanecem no meio dela ”
A criança era propriedade do pai, que podia inclusive vende-la como escrava ou usá-la como moeda de troca no pagamento de dívidas. Talvez por isso mesmo, entre os discípulos de Jesus, vemos um comportamento um tanto quanto hostil em relação aos pimpolhos, quando esses se aproximavam do mestre.
No Colégio Shalom, quando estou em sala de aula, aplicando alguma lição, o tempo todo sou atropelado por elas, com perguntas. As crianças são curiosas e querem saber tudo de uma vez. A mesma criança faz várias perguntas ao mesmo tempo: “Tio, por que isso? Tio, por que aquilo?” Mal terminei de dar a primeira resposta, lá vem a segunda pergunta, por vezes tenho a impressão de nem estar sendo ouvido. Em casa, elas interrompem o assunto dos pais, com perguntas e comentários, por vezes recebem aquela bronca: “Menino, não se meta em conversa de adultos!”
As crianças têm sede de relacionamentos. Querem comunicar algo ainda que sejam apenas suas dúvidas e inquietações. Talvez por isso elas conversem com seus brinquedos. Outro dia, observava um garotinho que conversava com o seu boneco do Bob Esponja. Era um diálogo tão intenso, ele falava, depois dava uma pausa como se o boneco mole e de olhos arregalados respondesse alguma coisa. Quem aqui nunca teve um amigo invisível na infância?
Gosto às vezes, quando estou entre as crianças na capela do Colégio Shalom, de fechar os meus olhos e imaginar essa cena do Evangelho: Jesus chegando aos povoados, as crianças são as primeiras anunciadoras da sua chegada. “Pai, mãe, Jesus esta aqui!” Logo em seguida, vêm os doentes, os cegos, os aleijados.
Em seguida penso no Senhor pregando longamente para as multidões, as crianças se aproximando dele, o olhar tenso dos pais, depois da reprovação dos apóstolos. Em seguida ,o abraço gostoso e acolhedor de Jesus, que mais uma vez, arrastado por seu amor, quebra paradigmas e nos faz avaliar costumes e tradições.
Depois de abraçar os pequenos, Jesus olha para os seus pais, em seguida para os discípulos, e diz: “Deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o Reino dos Céus (Mt 19, 13).” Quem ali poderia compreender semelhantes palavras? Talvez Nossa Senhora. Ela mesma, por diversas vezes, viu o seu pequeno Ieshuá se derramando na presença de Adonai, seja no templo ou na sinagoga próxima de sua casa.
O que realmente o Senhor queria dizer quando afirmava: “Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais”? Jesus quer dizer que o caminho de relação de Deus com as crianças deve ser livre de todo e qualquer impedimento. Quer dizer, “a grosso modo”, que as crianças, sim, podem se relacionar com Deus. E mais do que isso: são modelos para todos nós.
Vejamos ainda: Quem é o maior no Reino dos Céus? Esta foi a pergunta que os discípulos dirigiram a Jesus. O Senhor dá um exemplo vivo e compreensível a todos. Como bom mestre, ele foi concreto e direto: Precisamos ser crianças para entrar no Reino dos Céus. Converter-se agora significa se tornar criança. Jesus quebra de cima a baixo a mentalidade vigente.
Antes o maior eram os grandes patriarcas, profetas, mestres da Lei. Esses conheciam o pensamento de Deus e podiam ser amigos dele. Jesus vira tudo de cabeça pra baixo, e o maior agora são os pimpolhos. Quem é humilde como as crianças, este é maior no Reino dos Céus.
As crianças são mestras no caminho de intimidade com Deus. Não só pela sua inocência, mas por serem simples, sem pretensões sociais, são vazias de si mesmas. Deixam-se atrair com facilidade pelo belo e se entregam à contemplação. Basta estar diante de um algo interessante, abandonam-se ao encantamento. Isso é uma predisposição para fitarem coisas mais elevadas. As crianças são, sem dúvidas, grandes teólogas.
Vejamos outra sentença de Jesus: “Quem quiser ser o primeiro (no Reino de Deus) seja o último de todos e o servo de todos. Quem acolhe em meu nome uma criança como esta, acolhe a mim mesmo e quem me acolhe, não é a mim que acolhe, mas aquele que me enviou” (Mt 18,1-15).
Com essas afirmações, Jesus parece colocar as crianças num novo lugar nas relações sociais, de excluídos a modelos para o qual todos devem olhar. De meros ouvintes a exímios pedagogos nos caminhos do Reino. Esses pequenos, embora pouco experientes e no estágio cognitivos em que estão, não poderiam, mesmo se quisessem, arrebatar plateias como fazem os grandes teólogos. Entretanto, escondem o segredo do Reino: a pobreza de coração.
Falemos mais sobre esse segredo das crianças. Elas são abertas a novidades, por que estão sempre na postura de aprender coisas novas, por isso o próprio Deus pode tomá-las pela mão e conduzi-las com toda liberdade. Nós também podemos reproduzir, em nossa vida, o comportamento dos apóstolos, impedindo por vezes as crianças de se aproximar de Deus.
Quantos pais alegam não levar seus filhos à Igreja por que as crianças fazem bagunça, não prestam atenção e dão muito trabalho. Sempre digo: “Trabalho você terá é depois, se seu filho crescer sem Deus”. Deus precisa chegar à vida das crianças antes que o mundo chegue com sua mentalidade por vezes perversa. Deus precisa chegar antes das drogas.
Alguns pais, que se dizem católicos, acabam manifestando um nível ainda mais elevado de ignorância, quando dizem: “Não vou batizar meu filho agora. Quando ele crescer, escolherá a religião”. Sempre brinco com esses pais, dizendo: “Vocês vacinaram seu filho?” Eles respondem: “sim!” Eu digo: “Por que vocês não o deixaram crescer para escolher se queria ou não se vacinar?” Obviamente seria loucura, uma atitude irresponsável não vaciná-la. A criança poderia morrer antes de ser capaz de tomar vacina. Do mesmo modo, nós não temos o direito de impedir que uma criança tenha acesso a vida em Deus, pois é vontade do próprio Deus tê-la junta de si.
Precisamos endireitar as veredas, aplainar os caminhos do Senhor, para que Ele entre o quanto antes na vida desses pequeninos. Não raramente as crianças manifestam curiosidades acerca da fé, porém encontramos adultos impacientes em saciar essa sadia curiosidade dos pequenos.
As crianças têm uma inclinação instintiva para o sobrenatural, o amigo invisível é uma manifestação desse desejo interior pelo Criador. As crianças podem, sim, alcançar altos níveis de experiência de Deus. Teremos dificuldade de entender isso, se quisermos enquadrá-las em categorias adultas de santidade.
As crianças absorvem tudo ao seu redor, se vivem num ambiente espiritual, sua personalidade se construirá a luz desses elementos que gravitam ao seu redor. Ao escrever esse artigo, vem ao meu coração diversos santos pequeninos: Francisco, Jacinta, Domingo Sávio e uma Florzinha que desabrochou silenciosa e escondida no interior da Igreja, cujo perfume tem exalado na eternidade: Antonieta Meo, uma garotinha italiana que morreu com apenas seis anos. É impressionante a intensidade do seu amor esponsal a Jesus. Ao escrever suas cartinhas para Deus, sempre iniciava assim: “Querido Jesus, eu te amo tanto!”
Termino esse artigo dando um breve testemunho. Tenho visto crianças confusas, desorientadas, com pouca noção do sagrado em suas vidas, por culpa de uma ação evangelizadora que não contempla seu mundo sua realidade, por outro lado tenho visto também crianças vivendo em odor de santidade, que cultivam um relacionamento com Jesus, infantil obviamente, mas que nada tem de superficial.
Tenha visto crianças idade entre seis e nove anos dando verdadeiros testemunhos de tolerância, perdão, temor a Deus, a ponto de evangelizar os próprios pais. Mencionei crianças santas que já passaram por esse mundo, mas como não falar das crianças santas com as quais me encontro todos os dias no Colégio Shalom? Como não me encher de admiração, quando me lembro de João Vitor, João Pedro, Nayuani, Leticia e outros?
Que Deus nos dê a graça de nos matricularmos o quanto antes na escola das crianças. Isso nos ajudará a passar na penosa e gratificante prova do amor que nos fará ter acesso aos tesouros do Reino dos Céus.
Rodrigo Santos
Seminarista e missionário da Comunidade de Vida Shalom