Formação

De Saulo a Paulo

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Perseguidor dos cristãos, Saulo (seu nome de origem) foiconvertido pelo amor de Deus, seis anos após a morte de Cristo, quando resolveusair da cidade e se dirigir a Damasco, capital da Síria, para prender oscristãos e os levar para julgamento em Jerusalém. Desdeentão, ele é um exemplo de conversão verdadeira; modelo de quem, aoexperimentar da imensa misericórdia de Deus, muda o rumo de sua vida e se tornaanunciador da Palavra, testemunha viva de que o amor de Deus supera sempre ossentimentos ruins e os pecados humanos.

Conforme Frei Isidoro Mazzarolo, Padre da Ordem dos FradesMenores Capuchinhos, exegeta e professor de Teologia da PUC-Rio, como “umavolta, um recomeço, ou um começo totalmente diferente”. A conversão é umamudança radical, para as atitudes corretas, de uma pessoa que antes trilhavacaminhos errados, ou a conversão de quem já vivia retamente, mas ainda mantinhaatitudes consideradas não cristãs ou medíocres, como hipocrisia e falsidade. “Aconversão é a mudança radical de aspectos incompatíveis com a fé”, disse o sacerdote.

Um momento forte, um momento de consciência, de maturidadeou de despertar caracteriza a conversão. Mas, embora aconteça em um momentoespecífico e signifique, de início, uma mudança radical de postura, o processode conversão dura toda uma vida, uma vez que, no cristianismo, a pessoa échamada a ser santa e perfeita, assim como o Pai que as criou. Para FreiIsidoro, o que interessa “é o ponto de chegada: ter uma vida pautada najustiça, na fidelidade e no amor fraterno”. Confira a entrevista:

 Shalom Maná – O que significa a conversão de São Paulo parao cristianismo? Por que há uma data para comemorá-la no calendário da Igreja?

 Frei Isidoro Mazzarolo – A conversão de Paulo significa agraça e a misericórdia de Deus que vai sempre em busca dos corações retos,íntegros e de boa vontade. A vida de Paulo, como perseguidor da Igreja, não erauma decisão livre de “Saulo”. Ele fazia porque essa era a prática da sociedadejudaica em relação aos cristãos. Ele acreditava nas ordens que lhe eram dadas,e a hegemonia do judaísmo era uma crença antiga e que ainda hoje existe. Nomomento da morte de Estêvão, seu amigo, Paulo se dá conta de algo errado. Matarferia um dos grandes mandamentos de Deus. E, como ele tinha nascido em Tarso,fora da Palestina, a reflexão toma conta de sua consciência e, mesmo dentro deum ambiente que se julgava hegemônico, Paulo, tocado pela graça, recuperaprincípios helenísticos da liberdade, da gratuidade e do direito de cada homeme mulher. Assim, no momento em que ele decide afastar-se, estrategicamente, deJerusalém, Deus se manifestou de modo pleno, no caminho de Damasco.

 A celebração dadata de sua conversão é importante, pois é o marco da vida de uma pessoa, epode ser o marco da vida de qualquer outra pessoa. As mudanças, mesmo quedemorem para se concretizar, sempre têm um marco ou um ponto determinado, comocomeço.

 Shalom Maná – Na vida de São Paulo, o que significou a suaconversão? E qual a sua importância para o Cristianismo?

 Frei Isidoro – Um ponto importante na vida de Paulo é o seunascimento. Ele, sendo filho de judeus, nasce fora da Palestina, nasce em Tarso(Turquia atual). O fato de ter nascido em Tarso, uma grande cidade de culturagrega, auferiu a este jovem os princípios da cultura helenística: liberdade, graça,beleza, filosofia e cultura aberta. É mister notar que Paulo tinha o passaportede cidadania romana. Era um judeu muito inserido na cultura grega e também noimpério romano. Quando é enviado a Jerusalém, ele aprende, aos pés de um granderabino chamado Gamaliel, a força e radicalidade da religião e cultura judaica.

A conversão de Paulo foi importante para o cristianismo,porque ele, ao perceber que a violência em nome das tradições judaicas nãoestava de acordo com os princípios gregos da liberdade religiosa e do respeitoà vida, rompe com a cultura judaica. Como tem muita facilidade de adaptar ouinculturar os princípios cristãos aos costumes gregos e romanos, Paulo ensinaaos primeiros cristãos, de modo particular os que eram de origem judaica, a seremflexíveis, maleáveis e compreensíveis com as culturas diferentes,particularmente com os greco-romanos.

 Shalom Maná – Como foi o processo de conversão de São Paulo?

 Frei Isidoro – A conversão sempre tem um “estalo”, o momentoforte, aquele que derruba a pessoa do seu pedestal, do seu “cavalo”, que tiratodas as garantias. Essa foi a queda do cavalo. O cavalo simboliza o meio delocomoção, transporte e segurança. No caminho de Damasco, Saulo (depois Paulo)percebe, de modo claro, que a Lei e as tradições judaicas não eram mais o seucavalo, a sua segurança por incitar a violência contra inocentes e por ferir omandamento da Lei: “Não matarás!”

Conforme os relatos autobiográficos de Paulo contidos nosAtos dos Apóstolos e seu testemunho na Carta aos Gálatas (Gl 1,16-19), depoisdo episódio de Damasco, Paulo ficou cerca de três anos na Arábia, voltou paraJerusalém e quis dar seu testemunho diante da comunidade judaica, mas os outrosdiscípulos perceberam os riscos de morte e o enviaram para sua terra natal,Tarso, onde ficou mais cinco anos, numa espécie de anonimato. Conforme algunsexegetas, Paulo teria começado a pregar já na Arábia, e ele seria o primeirocristão a anunciar o Cristo Ressuscitado na Arábia, mas numa espécie de exílio.De modo análogo, em Tarso, Paulo prega, cria uma comunidade, mas só depois decinco anos, aproximadamente, é que ele vai ser integrado ao grupo dospregadores conhecidos, quando Barnabé, enviado pela comunidade de Jerusalémpara verificar se a comunidade da Antioquia da Síria estava bem, é que ele(Barnabé) decidiu ir até Tarso para buscar Paulo e inseri-lo entre ospregadores oficiais (At 11,24ss). Assim somados os anos, podemos afirmar que aconversão de Paulo durou cerca de oito anos, antes de ele ser aceito peloscristãos de Jerusalém.

 Shalom Maná – Dentro desse contexto, o que significa aconversão para a religião cristã?

 Frei Isidoro – A conversão é uma “volta”, um “retorno” e umrecomeço, ou então, um começo totalmente diferente. Em termos religiosos, aconversão pode ser para quem sempre trilhou caminhos errados e então faria umamudança radical para o certo, mas pode ser também para quem já está num caminhocorreto, mas ainda há muita mediocridade, hipocrisia e falsidade no seu modo deser. A conversão seria a mudança radical e decidida desses aspectos secundáriosincompatíveis com a fé. A conversão tem sempre um momento forte, um pontodeterminado de consciência, de maturidade ou de despertar, mas ela é também umprocesso que dura toda a vida, pois o objetivo da religião é que a pessoa sejasanta, perfeita como o Pai dos céus é perfeito.


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