Formação

Deus amou tanto o mundo

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Dizo Evangelho deste 4º Domingo da Quaresma (Jo 3,14-21) que “Deus amoutanto o mundo, que deu seu Filho unigênito, para que não morra todo oque nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). O significado de“mundo” aqui diz respeito à humanidade inteira, à obra da criação e àsua parte mais elevada que é o homem. Assim atesta Santo Irineu deLyon: “A glória de Deus é que o homem viva”.

 

Deusentrega o Filho porque ama o mundo, porque ama o homem. Esta é a suaintenção. Deixar-se conquistar e seduzir pelo amor de Deus nunca é paranós escravidão, mas consiste em encontrar a verdadeira liberdade. É oamor de Deus a única realidade substancial e salvífica que dá overdadeiro sentido à nossa vida, ao que somos e temos. Somente o amorde Deus realiza em nós a obra do saber viver, sofrer, esperar e da obraconcreta do saber viver a descida para ser elevado na graça. “É própriodo amor abaixar-se, doar-se por inteiro até o fim.” É próprio doautêntico amor se dar até às últimas conseqüências, ao extremo (cf. Jo13,1). Mesmo que esse amor corra o risco de não ser acolhido e venha aser rejeitado, ele ama até o fim. “Quem é esse Deus pra nos amarassim?” Aqui se compreende que Deus enviou o Seu Filho não para noscondenar, mas para nos salvar através do amor. Jesus, movido por esteardente amor pelo homem, dá a vida livremente e se submete à vontade doPai porque o ama (cf. Jo 10,18).

 

Realmentenão há oferta de vida quando não existe esponsalidade, “apaixonamento”,entusiasmo, fogo que arde, que impulsiona; amor que faz ir além, amorque se submete e a tudo se dispõe. Quando paramos para escutar uma mãeque sofre a enfermidade de um filho, uma dor dilacerante no matrimônioou na Família, e contemplamos ali uma experiência de fé, fortaleza,coragem e esperança, – mesmo vendo um coração em pedaços – somostocados pela força de um coração que ama além da situação oucircunstância. Como é difícil escutar uma esposa que sofre a amargurada traição, do adultério, do amor que “parece ter fracassado”, quandotinha tudo para dar certo. Como é desafiante conviver com alguém quesofre a enfermidade grave, a solidão, a doença psíquica ou mesmo umaperda, uma escravidão em algum vício. Nessas horas eu me lembro daFamília de Nazaré, pela vida dos Santos ou mesmo de muitas pessoas que,ao nosso lado, são mártires no amor. Como não ser tocado, por exemplo,pelo testemunho da vida do Cardeal Van Thuan, que passou treze anos dasua vida no cárcere, durante a guerra do Vietnã. Como imaginar quedaria ele sentido ao aparente fracasso e não ficaria a lamentar a perdada “sua condição eclesiástica”, mas entendeu que havia dado a vida paraservir e amar. Era ali, na hora da dor e de extremo sofrimento, omomento de dar sentido à sua oferta. Falar do amor em belas homilias ediscursos ou “mesmo artigos”, é uma coisa, mas participar do sofrimentodos outros ou viver o seu próprio, é outra coisa completamentediferente.

 

Oamor de Deus ofertado gratuitamente em Seu Filho Jesus Cristo foi afortaleza e o sentido da oferta que encontrou o Bispo Van Thuan. Écomovente a leitura do livro “Testemunha da esperança” em que ele mesmodescreve sua experiência de dor e amor. Penso que é isso que acontecena vida de muitas pessoas quando se vêem no sofrimento e não seentregam ao falso direito de se pensar que pode destratar os outros,que pode se dar à murmuração, às tristezas doentias e egocêntricas, aoódio e à revolta. O amor não condena, mas edifica. No entanto, pareceque o amor vivido e ofertado junta brasas na cabeça dos que se recusama viver o amor verdadeiro. Ele mesmo cuida – no seu percurso e no seutempo devido – de desfazer as tramas do mal, do ódio, da vingança e daindiferença. O amor nos ensina a viver e a ver a situação, a pessoa e oproblema por outro ângulo. São João da Cruz estava certíssimo ao dizer:“Se não existe amor, põe aí amor e colherás amor!”. O amor autentica ador. Faz com que não soframos por sofrer e nem sejamos “fantoches”.Saibamos e não esqueçamos que quem se recusa a amar atrai para si mesmoa condenação. O que é ser privado do amor quando se escolhe viver umavida puramente carnal, material, de aventuras e superficial? Tambémnesse sentido se compreende que “quem não crê, já está condenado” (Jo3, 18). Se a recusa da luz é para nós viver no atordoamento das trevas,imagina-se uma privação eterna da luz que é o amor de Deus, a própriaSalvação que Cristo nos trouxe nos amando quando ainda éramos rebeldes,mas que não pode forçar em nós os eu amor. Ele só pode ser acolhidoquando a liberdade faz também o seu movimento “humano-salvífico”. .

 

Deusquer salvar a todos segundo o seu amor, mas cada um precisa dar suaresposta. Ele nos ama infinitamente não porque somos bons, santos,virtuosos, não, mas nos ama porque é sumamente bom e misericordioso.“Nunca nos trata como exigem nossas faltas”. Sim, “Deus amou tanto omundo, que deu seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nelecrer” (Jo 3, 16). Que Palavra confortadora e recriadora. Vivendo nesseamor jamais seremos confundidos diante Senhor. As dores, as lágrimas, osofrimento, as circunstâncias próprias em que geme a humanidade, nossacasa, família ou nosso próprio coração, absolutamente, nada pode nosfazer sucumbir quando o amor de Deus é vivo dentro de nós. O mal nãotem a última palavra nas nossas vidas, mas a misericórdia de Deus.Peçamos a Deus a graça de fazermos essa experiência com o Seu amor eque ela se renove cada novo dia, com o auxílio da Sua graça. Que aSantíssima Virgem Maria, nossa Mãe, interceda por nós. Assim seja! Amém.   


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