
Às vezes, ouvir que “Deus nunca nos abandona” pode soar como mera expressão de consolo, quando não se tem muito o que dizer a alguém que está sofrendo. Mas, de fato, Ele nunca nos abandona mesmo! Essa frase resume a vida da população de Chaves (PA), na Floresta Amazônica. O município ribeirinho, cujo acesso é somente fluvial ou aéreo e que tem um dos menores índices de Desenvolvimento Humano do Brasil, conta com a presença da Comunidade Católica Shalom há 19 anos. A missionária Edionê Cristina e mais sete membros do Shalom se dedicam a ajudar adolescentes, crianças e suas famílias, promovendo a dignidade de quem necessita de bens materiais básicos e do “pão espiritual”.
“Eles esperam que não os abandonemos, porque nem todo mundo se adapta a essa realidade de isolamento. Aqui nós não temos água potável, não temos médico, nem saneamento básico”, confidencia. A evangelização acontece por meio de grupo de oração, escolinha de futebol, de informática, apoio pedagógico e aulas de violão para as crianças, e de catequeses e formações humanas para 16 famílias. Mas o coração da evangelização é o amor que se faz sacramento, o próprio Deus. Em Chaves, somente há presença de sacerdote durante seis meses. No restante do ano, os missionários da Comunidade Shalom celebram a Palavra e dão a comunhão aos fiéis. No carnaval, eles viajam entre seis e oito horas de barco para levarem sacerdote a lugares que só recebem a visita de um padre nessa data.
O que poderia afastar, une. O que poderia causar estranheza, conquista o coração de Edionê para o povo dessa terra: “O fato de estar com as crianças, com os pobres, de estar onde muitos têm medo de estar – porque as pessoas têm medo dos bichos, de viver isolados – aproxima-nos muito mais de Deus. Temos aqui a experiência de rezar e viver concretamente a Palavra do Senhor em todos os sentidos, de não ter medo, de ter fé, saber que Deus nunca nos abandona”.
Edionê ingressou na Comunidade Shalom em 1997. Deixou em Aracaju (SE) a família, renunciou à carreira profissional e ao noivado, tudo para ser missionária. Hoje, aos 50 anos, é celibatária pelo Reino dos Céus, doando-se inteiramente à missão. “Tocar o pobre é tocar o mistério de Jesus, é levá-los a ter essa experiência com Deus, de uma forma simples, mas concretamente”, conta. Com gratidão, revela a resposta de amor que a sustenta em Chaves há seis anos: “A assistência de nossos benfeitores espalhados no mundo inteiro e a ajuda que nos chega das missões próximas, como Macapá e Belém, nos socorrem em nossas necessidades”.
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Emanuele Sales