Formação

Deus Pai, fonte e origem da Palavra

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 20. A economia da revelação tem o seu início e a sua origemem Deus Pai. Pela sua palavra «foram feitos os céus, pelo sopro da sua bocatodos os seus exércitos» (Sl 33, 6). É Ele que faz resplandecer «o conhecimentoda glória de Deus, que se reflecte na face de Cristo» (2 Cor 4, 6; cf. Mt 16,17; L c 9, 29).

 No Filho, «Logos feito carne» (cf. Jo 1, 14), que veio paracumprir a vontade d’Aquele que O enviou (cf. Jo 4, 34), Deus, fonte darevelação, manifesta-Se como Pai e leva à perfeição a educação divina do homem,já anteriormente animada pela palavra dos profetas e pelas maravilhasrealizadas na criação e na história do seu povo e de todos os homens. O apogeuda revelação de Deus Pai é oferecido pelo Filho com o dom do Paráclito (cf. Jo14, 16), Espírito do Pai e do Filho, que nos «guiará para a verdade total» (Jo16, 13).

 Deste modo, todas as promessas de Deus se tornam «sim» emJesus Cristo (cf. 2 Cor 1, 20). Abre-se assim, para o homem, a possibilidade depercorrer o caminho que o conduz ao Pai (cf. Jo 14, 6), para que no fim «Deusseja tudo em todos» (1 Cor 15, 28).

 21. Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meiodo seu silêncio. O silêncio de Deus, a experiência da distância do Omnipotentee Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra encarnada.Suspenso no madeiro da cruz, o sofrimento que Lhe causou tal silêncio fê-Lolamentar: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mc 15, 34; Mt 27, 46).Avançando na obediência até ao último respiro, na obscuridade da morte, Jesusinvocou o Pai. A Ele Se entregou no momento da passagem, através da morte, paraa vida eterna: «Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito» (L c 23, 46).

 Esta experiência de Jesus é sintomática da situação do homemque, depois de ter escutado e reconhecido a Palavra de Deus, deve confrontar-setambém com o seu silêncio. É uma experiência vivida por muitos Santos emísticos, e que ainda hoje faz parte do caminho de muitos fiéis. O silêncio deDeus prolonga as suas palavras anteriores. Nestes momentos obscuros, Ele falano mistério do seu silêncio. Portanto, na dinâmica da revelação cristã, osilêncio aparece como uma expressão importante da Palavra de Deus.

 A resposta do homem a Deus que fala

 Chamados a entrar na Aliança com Deus

 22. Ao sublinhar a pluralidade de formas da Palavra, pudemosver através de quantas modalidades Deus fala e vem ao encontro do homem,dando-Se a conhecer no diálogo. É certo que o diálogo, como afirmaram os Padressinodais, «quando se refere à Revelação comporta o primado da Palavra de Deusdirigida ao homem».[71] O mistério da Aliança exprime esta relação entre Deusque chama através da sua Palavra e o homem que responde, sabendo claramente quenão se trata de um encontro entre dois contraentes iguais; aquilo quedesignamos por Antiga e Nova Aliança não é um acto de entendimento entre duaspartes iguais, mas puro dom de Deus. Por meio deste dom do seu amor, Ele,superando toda a distância, torna–nos verdadeiramente seus «parceiros», demodo a realizar o mistério nupcial do amor entre Cristo e a Igreja. Nestaperspectiva, todo o homem aparece como o destinatário da Palavra, interpelado echamado a entrar, por uma resposta livre, em tal diálogo de amor. Assim Deustorna cada um de nós capaz de escutar e responder à Palavra divina. O homem écriado na Palavra e vive nela; e não se pode compreender a si mesmo, se não seabre a este diálogo. A Palavra de Deus revela a natureza filial e relacional danossa vida. Por graça, somos verdadeiramente chamados a configurar-nos comCristo, o Filho do Pai, e a ser transformados n’Ele.

 Deus escuta o homem e responde às suas perguntas

 23. Neste diálogo com Deus, compreendemo-nos a nós mesmos eencontramos resposta para as perguntas mais profundas que habitam no nossocoração. De facto, a Palavra de Deus não se contrapõe ao homem, nem mortificaos seus anseios verdadeiros; pelo contrário, ilumina-os, purifica-os erealiza-os. Como é importante, para o nosso tempo, descobrir que só Deusresponde à sede que está no coração de cada homem! Infelizmente na nossa época,sobretudo no Ocidente, difundiu-se a ideia de que Deus é alheio à vida e aosproblemas do homem; pior ainda, de que a sua presença pode até ser uma ameaça àautonomia humana. Na realidade, toda a economia da salvação mostra-nos que Deusfala e intervém na história a favor do homem e da sua salvação integral. Porconseguinte é decisivo, do ponto de vista pastoral, apresentar a Palavra deDeus na sua capacidade de dialogar com os problemas que o homem deve enfrentarna vida diária. Jesus apresenta-Se-nos precisamente como Aquele que veio para quepudéssemos ter a vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Por isso, devemos fazertodo o esforço para mostrar a Palavra de Deus precisamente como abertura aospróprios problemas, como resposta às próprias perguntas, uma dilatação dospróprios valores e, conjuntamente, uma satisfação das próprias aspirações. Apastoral da Igreja deve ilustrar claramente como Deus ouve a necessidade dohomem e o seu apelo. São Boaventura afirma no Breviloquium: «O fruto da SagradaEscritura não é um fruto qualquer, mas a plenitude da felicidade eterna. Defacto, a Sagrada Escritura é precisamente o livro no qual estão escritaspalavras de vida eterna, porque não só acreditamos mas também possuímos a vidaeterna, em que veremos, amaremos e serão realizados todos os nossos desejos».[72]

 Dialogar com Deus através das suas palavras

 24. A Palavra divina introduz cada um de nós no diálogo como Senhor: o Deus que fala, ensina-nos como podemos falar com Ele.Espontaneamente o pensamento detém-se no Livro dos Salmos, onde Ele nos forneceas palavras com que podemos dirigir-nos a Ele, levar a nossa vida para ocolóquio com Ele, transformando assim a própria vida num movimento paraDeus.[73] De facto, nos Salmos, encontramos articulada toda a gama desentimentos que o homem pode ter na sua própria existência e que sãosapientemente colocados diante de Deus; alegria e sofrimento, angústia eesperança, medo e perplexidade encontram lá a sua expressão. E, juntamente comos Salmos, pensamos também em numerosos textos da Sagrada Escritura que apresentamo homem a dirigir-se a Deus sob a forma de oração de intercessão (cf. Ex 33,12-16), de canto de júbilo pela vitória (cf. Ex 15), ou de lamento nodesempenho da própria missão (cf. Jr 20, 7-18). Deste modo, a palavra que ohomem dirige a Deus torna-se também Palavra de Deus, como confirmação docarácter dialógico de toda a revelação cristã,[74] e a existência inteira dohomem torna-se um diálogo com Deus que fala e escuta, que chama e dinamiza anossa vida. Aqui a Palavra de Deus revela que toda a existência do homem estásob o chamamento divino.[75]

 A Palavra de Deus e a fé

 25. «A Deus que Se revela é devida “a obediência da fé” (Rm16, 26; cf. Rm 1, 5; 2 Cor 10, 5-6); pela fé, o homem entrega-se total elivremente a Deus oferecendo a Deus revelador “o obséquio pleno da inteligênciae da vontade” e prestando voluntário assentimento à sua revelação».[76] Comestas palavras, a Constituição dogmática Dei Verbum exprimiu de modo claro aatitude do homem diante de Deus. A resposta própria do homem a Deus, que fala,é a fé. Isto coloca em evidência que, «para acolher a Revelação, o homem deveabrir a mente e o coração à acção do Espírito Santo que lhe faz compreender aPalavra de Deus presente nas Sagradas Escrituras».[77] De facto, é precisamentea pregação da Palavra divina que faz surgir a fé, pela qual aderimos de coraçãoà verdade que nos foi revelada e entregamos todo o nosso ser a Cristo: «A févem da pregação, e a pregação pela palavra de Cristo» (Rm 10, 17). Toda ahistória da salvação nos mostra progressivamente esta ligação íntima entre aPalavra de Deus e a fé que se realiza no encontro com Cristo. De facto, com Elea fé toma a forma de encontro com uma Pessoa à qual se confia a própria vida.Cristo Jesus continua hoje presente, na história, no seu corpo que é a Igreja;por isso, o acto da nossa fé é um acto simultaneamente pessoal e eclesial.

 O pecado como não escuta da Palavra de Deus

 26. A Palavra de Deus revela inevitavelmente também adramática possibilidade que tem a liberdade do homem de subtrair-se a estediálogo de aliança com Deus, para o qual fomos criados. De facto, a Palavradivina desvenda também o pecado que habita no coração do homem. Muitas vezesencontramos, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a descrição do pecado comonão escuta da Palavra, como ruptura da Aliança e, consequentemente, comofechar-se a Deus que chama à comunhão com Ele.[78] Com efeito, a SagradaEscritura mostra-nos como o pecado do homem é essencialmente desobediência e«não escuta». Precisamente a obediência radical de Jesus até à morte de Cruz(cf. Fl 2, 8) desmascara totalmente este pecado. Na sua obediência, realiza-sea Nova Aliança entre Deus e o homem e é-nos concedida a possibilidade dareconciliação. De facto, Jesus foi mandado pelo Pai como vítima de expiaçãopelos nossos pecados e pelos do mundo inteiro (cf. 1 Jo 2, 2; 4, 10; Hb 7, 27).Assim, é-nos oferecida misericordiosamente a possibilidade da redenção e oinício de uma vida nova em Cristo. Por isso, é importante que os fiéis sejameducados a reconhecer a raiz do pecado na não escuta da Palavra do Senhor e aacolher em Jesus, Verbo de Deus, o perdão que nos abre à salvação.

 Maria «Mater Verbi Dei» e «Mater fidei»

 27. Os Padres sinodais declararam que o objectivofundamental da XII Assembleia foi «renovar a fé da Igreja na Palavra de Deus»;por isso é necessário olhar para uma pessoa em Quem a reciprocidade entrePalavra de Deus e fé foi perfeita, ou seja, para a Virgem Maria, «que, com oseu sim à Palavra da Aliança e à sua missão, realiza perfeitamente a vocaçãodivina da humanidade».[79] A realidade humana, criada por meio do Verbo,encontra a sua figura perfeita precisamente na fé obediente de Maria. Desde aAnunciação ao Pentecostes, vemo-La como mulher totalmente disponível à vontade deDeus. É a Imaculada Conceição, Aquela que é «cheia de graça» de Deus (cf. L c1, 28), incondicionalmente dócil à Palavra divina (cf. L c 1, 38). A sua féobediente face à iniciativa de Deus plasma cada instante da sua vida. Virgem àescuta, vive em plena sintonia com a Palavra divina; conserva no seu coração osacontecimentos do seu Filho, compondo-os por assim dizer num único mosaico (cf.L c 2, 19.51).[80]

 No nosso tempo, é preciso que os fiéis sejam ajudados adescobrir melhor a ligação entre Maria de Nazaré e a escuta crente da Palavradivina. Exorto também os estudiosos a aprofundarem ainda mais a relação entremariologia e teologia da Palavra. Daí poderá vir grande benefício tanto para avida espiritual como para os estudos teológicos e bíblicos. De facto, quando ainteligência da fé olha um tema à luz de Maria, coloca-se no centro mais íntimoda verdade cristã. Na realidade, a encarnação do Verbo não pode ser pensadaprescindindo da liberdade desta jovem mulher que, com o seu assentimento,coopera de modo decisivo para a entrada do Eterno no tempo. Ela é a figura daIgreja à escuta da Palavra de Deus que nela Se fez carne. Maria é tambémsímbolo da abertura a Deus e aos outros; escuta activa, que interioriza,assimila, na qual a Palavra se torna forma de vida.

 28. Nesta ocasião, desejo chamar a atenção para afamiliaridade de Maria com a Palavra de Deus. Isto transparece com particularvigor no Magnificat. Aqui, em certa medida, vê-se como Ela Se identifica com aPalavra, e nela entra; neste maravilhoso cântico de fé, a Virgem exalta oSenhor com a sua própria Palavra: «O Magnificat – um retrato, por assim dizer,da sua alma – é inteiramente tecido de fios da Sagrada Escritura, com fiostirados da Palavra de Deus. Desta maneira se manifesta que Ela Se senteverdadeiramente em casa na Palavra de Deus, dela sai e a ela volta comnaturalidade. Fala e pensa com a Palavra de Deus; esta torna-se Palavra d’Ela,e a sua palavra nasce da Palavra de Deus. Além disso, fica assim patente que osseus pensamentos estão em sintonia com os de Deus, que o d’Ela é um quererjuntamente com Deus. Vivendo intimamente permeada pela Palavra de Deus, Elapôde tornar-Se mãe da Palavra encarnada».[81]

 Além disso, a referência à Mãe de Deus mostra-nos como oagir de Deus no mundo envolve sempre a nossa liberdade, porque, na fé, aPalavra divina transforma-nos. Também a nossa acção apostólica e pastoral nãopoderá jamais ser eficaz, se não aprendermos de Maria a deixar-nos plasmar pelaacção de Deus em nós: «A atenção devota e amorosa à figura de Maria, comomodelo e arquétipo da fé da Igreja, é de importância capital para efectuartambém nos nossos dias uma mudança concreta de paradigma na relação da Igrejacom a Palavra, tanto na atitude de escuta orante como na generosidade do compromissoem prol da missão e do anúncio».[82]

 Contemplando na Mãe de Deus uma vida modelada totalmentepela Palavra, descobrimo-nos também nós chamados a entrar no mistério da fé,pela qual Cristo vem habitar na nossa vida. Como nos recorda Santo Ambrósio,cada cristão que crê, em certo sentido, concebe e gera em si mesmo o Verbo deDeus: se há uma só Mãe de Cristo segundo a carne, segundo a fé, porém, Cristo éo fruto de todos.[83] Portanto, o que aconteceu em Maria pode voltar aacontecer em cada um de nós diariamente na escuta da Palavra e na celebraçãodos Sacramentos.

Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini –Introdução »

I Parte:
O Deus que fala »
Cristologia da Palavra »
A Palavra de Deus e o Espírito Santo »
Deus Pai, fonte e origem da Palavra »
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja »
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada »
A relação entre Antigo e Novo Testamento »
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas »

II – Parte:
A Igreja acolhe a Palavra »
A sacramentalidade da Palavra »
A palavra de Deus na vida eclesial »
Leitura orante da Sagrada Escritura e "lectio divina" »

III-Parte
A missão da Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo »
Palavra de Deus e compromisso no mundo »
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes »
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas »
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso »

Conclusão
A palavra definitiva de Deus »


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