Formação

Deus ultrapassa tudo o que podemos imaginar…

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Gostaria de dirigir estas linhas a todos os jovens, garotase rapazes. Uma garota talvez possa compreender-me melhor a partir do interior,se infelizmente lhe aconteceu uma experiência como a minha. Que estas palavrassejam para você uma mensagem de esperança.

Partilhando com vocês essa passagem da minha vida gostaria,antes de tudo, de dar graças a Nosso Senhor, que me salvou e me permitiurenascer, pelo seu Amor que ultrapassa todo amor. Gostaria também de gritar:“Respeitem o outro no seu corpo, na sua intimidade. Respeitem a si mesmotambém”.

Tenho vinte e oito anos. Tinha treze quando me aconteceu oque vou lhes contar. Quinze anos se passaram e eu nada esqueci. Todo o “filme”desse fato que dilacerou a minha vida está gravado em mim para sempre. Óbvio,pois foi escrito não sobre a “rocha”, mas sobre “argila em formação”, numapágina branca, virgem. Mas agora, através do amor de Jesus, tudo setransformou.

Aos treze anos eu ainda era uma “menininha”. Feliz da vida,sem problemas, querendo amar o mundo inteiro, mas querendo amar a Deus mais quetudo, com toda a força do meu pequeno coração. Utopia? Não, não creio. É aingenuidade das “crianças”. Possível, então? Sim, ainda hoje eu penso, apesarda dureza deste mundo, graças à força de Deus.

Frequentemente eu dizia a mim mesma: “Eu quero permanecerpura até o casamento. Entretanto, eu sentia no coração um chamado para amar sóa Deus durante toda a minha vida. Parecia-me que só Deus poderia saciar toda asede de amor que havia em mim. E eis que, de repente, numa esquina, sou,gratuitamente e sem razão, vítima de toda a violência de um ser humano. Era umasexta-feira, uma hora de torturas sexuais, de gestos, um lugar, gravados parasempre. Palavras como: “Eu quero matá-la”, que ferem atrozmente. Eu estavaencurralada entre algumas tábuas e o muro de um cemitério. Ninguém parasocorrer-me. Como eu gostaria de ir ao encontro daqueles mortos do outro ladodo muro… O que pode fazer uma menina de treze anos para se defender damaldade de um homem de vinte ou vinte e cinco anos? Nada. Eu desejava o nada.Aquele Jesus que havia feito um apelo ao meu coração ficara surdo de repente?Por que tudo aquilo? Por que tanta violência? Quantas perguntas fiz a mimmesma… Durante onze anos! Onze anos, como é longo! Creia-me. Principalmentequando você carrega esse peso sozinha…

Quando cheguei em casa – meus pais estavam ausentes poralguns dias –, eu só tinha uma idéia na cabeça: a morte. Tentei o suicídio…Acordei após ter dormido por dois dias. Mas a idéia do suicídio não me deixavae não me deixaria tão cedo. Eu não era a mesma pessoa. Havia um “antes” e haviaum “depois”. Esse “depois”, eu o detestava de antemão. Eu me detestava. Eu metornara um lixo. Um corpo e um coração sem gosto pela vida. Um coração? Não seise eu ainda possuía um. Todo amor que ele até aí guardara transformou-se emódio contra o ser humano, principalmente contra o sexo masculino.

Então, por que continuar a viver se eu não era mais nada?Apenas a morte poderia libertar-me. Era o que eu pensava. Essa idéia meperseguia com tenacidade. Os dias corriam sem me trazer nada de novo. Jesus, afé, tudo em que até então eu crera de repente evaporou. Não havia mais amor emmim. Por ninguém. Nem por mim. A segunda tentativa de suicídio tambémfracassou. Então, forjei uma barricada em torno de mim. Essa barricada, eu aqueria o mais resistente possível para que ninguém, nunca, encontrasse nela umabrecha. Meus pais não entenderam a mudança. Meu caráter foi se tornando cadavez mais duro. Eu me sentia mal, muito mal por estar assim, mas era quasecontra a minha vontade. Eu era vítima e me sentia culpada. Quantas vezes,durante o sono, revivi a cena do estupro. Era indelével. Gostaria de ter matadoaquele homem.

Não era mais necessário que me falassem de Deus; eu projetavanele toda a minha tristeza, todo o meu desgosto. Era quase culpa dele o que meacontecera, pois Ele não tinha ido me libertar. Agora, eu compreendo comodurante todo esse tempo Ele sofria comigo, pois Deus é amor. Ele nos mostraisso todos os dias, mostrou-o na minha própria vida.

Os anos passaram. Pouco a pouco eu recomecei a rezar. Semperceber, creio, pois eu me sentia terrivelmente só. Eu procurava alguém a quemfalar. Hoje posso dizer que nunca, nem por um segundo, o Senhor largou a minhamão. Fui eu que larguei a dele. O Senhor podia restituir-me a pureza que euperdera sem querer. Apenas Ele podia me recriar.

No final desses onze anos de desgosto, de tristeza,encontrei um padre com quem pude me abrir. Através do sacramento dareconciliação, através de seu coração, pude dar para Jesus todo o ódioacumulado, e pouco a pouco, com a ajuda do Senhor, recuperei a paz. Jesus tinhaencontrado uma brecha na barricada que eu havia levantado com a força dos meusbraços. Suavemente, mas com firmeza, Ele fez seu trabalho de Salvador. Ele nãoparava de chamar-me pelo meu nome. Para Ele eu era como sempre uma criança. Euera como antes. Em alguns meses a barricada desmoronou. O Senhor só desejavauma coisa: poder morar no meu coração para me dar incessantemente o seu amor.Ele repetia sem cessar: “Você é única aos meus olhos e eu a amo” (Is 43,4).

Eu precisava deixar-me amar. Mas isso era muito duro paramim. Eu precisava tornar-me criança outra vez. Santa Teresa do Menino Jesusajudou-me muito: “Quanto mais você for pobre, mais Jesus a amará. Se você seafastar Ele irá longe, bem longe, buscá-la…”.

Compreendi também que no madeiro da cruz Jesus haviaassumido todos os meus sofrimentos. Esse sofrimento oferecido permitiu que, porminha vez, pouco a pouco, eu lhe oferecesse o meu. Isso não aconteceu num sódia. Foram necessárias horas e horas de doçura, de delicadeza, de paciência porparte do Senhor para reabilitar-me comigo mesma.

Eu readquiria a alegria de viver. Um dia, ao assumir o meuserviço no hospital, tive uma enorme surpresa. Diante de mim, num leito dedoente… ele! Aquele rapaz que tanto me fizera sofrer, que desejara matar-me,contra quem secretamente eu alimentara um ódio incrível, estava lá, naqueleleito de hospital, sofrendo, pobre e enfraquecido.

Durante onze anos, mesmo sem revê-lo, seu rosto ficaragravado em mim e agora ele surgia novamente na minha vida. Passado o choque dasurpresa eu compreendi que, teoricamente, deveria cuidar dele. Na prática,aquilo parecia estar acima das minhas forças. Ele estava lá, nas minhas mãos, àminha disposição, esperando – como doente – que eu o aliviasse.

Então, todo o ódio que eu sentia por ele e que começava aatenuar-se, tornou-se mais forte, mais lancinante, mais presente. Eu podiavingar-me: eu podia matá-lo. E não se tratava de palavras vãs. Eu poderia muitobem injetar-Ihe algo em dose mortal. Pensei nisso. Desde o início. Pensavanisso à noite, em casa, sabendo que no dia seguinte o reencontraria. Eu pensavaque, matando-o, me sentiria livre para sempre.

Eu sentia que Jesus me pedia para perdoar. Mas isso pareciaestar além das minhas forças. Houve uma luta em mim em relação a esse perdão.Eu iria dá-lo ou recusá-lo? Eu pensava que perdoá-lo não mudaria nada para mim,não apagaria o que eu tinha vivido. Então, para quê? Mas, se eu o recusasse,estaria uma vez mais fechando a porta do meu coração ao amor de Jesus. Ele nãonos pediu para perdoar os nossos inimigos? Por outro lado, recusando-me a daresse perdão, eu sabia que estaria “mantendo” no pecado, longe de Deus, essemoço que me agredira. Mas eu continuava evitando… Então, levei tudo isso paraa oração, pedindo uma só coisa: que eu fosse verdadeira ao conceder esseperdão. Que ele fosse realmente o desejo do meu coração e a vontade do Senhor.Eu também me confiei à Mãe do Céu, pedindo-Ihe para tornar o meu coração dócilao espírito de Jesus.

Um belo dia, pude colher esse perdão como uma flor que acabade desabrochar, e oferecê-lo a Jesus no sacramento da reconciliação. Uma pazimensa invadiu-me. É verdade que não foi um passe de mágica que me fez esquecertudo que eu vivera; mas, oferecendo esse perdão, tudo foi transformado. Euquero assegurar-lhe que foi o Senhor, por sua graça, que me permitiu dar-Ihe operdão. Sem Ele meu coração nunca teria consentido em perdoar. Eu sou tãopobre…

Eis as maravilhas do amor do Senhor. Você não acha que eleultrapassa tudo o que podemos imaginar? Você não acha que ele está sempre aonosso alcance? Que vale a pena percorrer com ele um trecho do caminho paraconhecê-lo melhor?

Eis o mais belo milagre do Senhor: “Ele transforma emestrelas os seus pontos negros… se você lhe dá um pouco do seu coração!”.

 

Transcrito de: Ange, Daniel. Teu corpo feito para o amor.São Paulo: Loyola, 1995, pp. 184-189.


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