Formação

Devedores do Evangelho

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Continua a ressoar na Igreja o mandamento de Jesus: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Em todas as épocas da história, a Igreja sente “necessidade de difundir por toda parte a mensagem evangélica” (IM 3), que “é a fonte de toda a sua vida, em todos os tempos” (LG 20).

Profundamente cônscio de tal empenho, o Vaticano II solicita a todos os católicos que se empenhem também na evangelização, de acordo com suas funções e possibilidades, procurando “as ocasiões para anunciar Cristo com palavras, seja aos que não crêem, para trazê-los à fé, seja aos fiéis para instruí-los, confirmá-los e despertá-los a uma vida mais fervorosa” (AA 6). E recorda, a propósito, as palavras do Evangelho: “Ai de mim se não evangelizar!” (1Cor 9,16).

Se a pregação oficial do Evangelho compete à Hierarquia e aos que receberam a graça do sacerdócio ministerial, também devem os simples fiéis trazer-lhes sua colaboração, “à semelhança daqueles homens e mulheres que ajudaram Paulo na difusão do Evangelho”, levando em conta que “muitos homens só poderão ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo através dos leigos que lhes estão mais vizinhos” (AA 10.13). Arauto do Evangelho há de ser todo cristão autêntico, quer vivendo-o em plenitude, quer anunciando-o no próprio ambiente com a palavra oportuna cheia de caridade e de franqueza.

Qualquer apóstolo, e ainda mais se for sacerdote, tem de sentir-se devedor do Evangelho para com todos e, por conseguinte, obrigado a fazer-se “servo de todos… fraco com os fracos”, pobre com os pobres, pequeno com os pequenos, “tudo a todos” (1Cor 9,19.22) para que seja bem acolhida a palavra de Deus. Seu programa deveria ser: “Tudo faço pelo Evangelho” (ibidem, 23), pelo Evangelho integral, genuíno, tal qual o Senhor Jesus o anunciou.

“A solicitude de atrair os irmãos para Cristo não deve traduzir-se em atenuação, em diminuição da verdade. Nosso diálogo não pode ser uma fraqueza em relação ao empenho para com nossa fé” (Paulo VI, Ecclesiam Suam 50). A prudência poderá exigir uma exposição gradativa e adaptada às diversas mentalidades, mas deve ficar intacta a fidelidade ao Evangelho, pois só este é “poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1,16). E “só quem é plenamente fiel à doutrina de Cristo pode ser eficazmente apóstolo” (Paulo VI, 1.c.).

O fundamento de qualquer atividade apostólica só pode ser um: Cristo e seu Evangelho. Afastar-se de Cristo é errar o caminho. “Ninguém pode pôr outro alicerce, diferente do que está posto, que é Jesus Cristo”, diz São Paulo (1Cor 3,11). Todo o trabalho dos apóstolos há de desenvolver-se sobre esta base única. “Mas veja cada qual como constrói… se com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha” (ibidem, 11.12), isto é, com doutrina pura e sólida nascida de convicção profunda e acompanhada pelo testemunho da vida, ou então com palavras e obras fúteis, indícios de superficialidade, leviandade, falta de fé e de zelo ou também com teorias pessoais, com palavreados vãos, contrários à verdade evangélica.

Na própria Igreja primitiva surgira este perigo e São Paulo foi constrangido a intimar “que alguns não ensinassem doutrina diferente nem se ocupassem em fábulas e… coisas que mais se prestam a contendas que ao edifício de Deus, o qual se baseia na fé” (1Tm 1,3-4). “Porque virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina, mas procurarão para si muitos mestres, segundo os próprios desejos, curiosos de ouvir o que lhes agrada… tu – adverte o apóstolo – vigia sobre todas as coisas, suporta os trabalhos, desempenha a missão de evangelista” (2Tm 4,5). O sinal distintivo dos verdadeiros apóstolos será sempre a fidelidade inabalável ao Evangelho.

Se tempos novos exigem renovados métodos de apostolado, jamais entretanto se pode mudar a essência do Evangelho! Ao contrário, tem de ser, mais do que nunca, vivido e anunciado de modo sempre mais autêntico, sempre mais apoiado no exemplo e na palavra de Cristo.

Em qualquer caso, declara o Concílio, não é a missão dos apóstolos “ensinar a sua sabedoria e, sim, o Verbo de Deus e convidar a todos com insistência para a conversão e a santidade” (PO 4). Por este motivo renunciava São Paulo a toda “sublimidade da eloqüência ou da sabedoria” e propunha não mostrar “outro conhecimento senão Jesus Cristo, e este crucificado” (1Cor 2,1-2).

Texto extraído de: Madalena, Fr. Gabriel de Santa Maria. Intimidade Divina. São Paulo: Loyola e Carmelo, 1988, pp. 1051-1052.


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