Formação

Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas

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45. A autêntica hermenêutica da fé acarreta algumasconsequências importantes no âmbito da actividade pastoral da Igreja.Precisamente a este respeito, os Padres sinodais recomendaram, por exemplo, umrelacionamento mais assíduo entre Pastores, exegetas e teólogos. É bom que asConferências Episcopais favoreçam estes encontros com o «fim de promover umamaior comunhão no serviço da Palavra de Deus».[149] Tal cooperação ajudará atodos a realizarem melhor o próprio trabalho em benefício da Igreja inteira. Defacto, situar-se no horizonte do trabalho pastoral quer dizer, mesmo para osestudiosos, olhar o texto sagrado na sua natureza de comunicação que o Senhorfaz aos homens para a salvação. Portanto, como afirmou a Constituição dogmáticaDei Verbum, «é preciso que os exegetas católicos e demais estudiosos da sagradateologia trabalhem em íntima colaboração de esforços, para que, sob a vigilânciado sagrado magistério, lançando mão de meios aptos, estudem e expliquem asdivinas Letras, de modo que o maior número possível de ministros da Palavra deDeus possa oferecer com fruto ao Povo de Deus o alimento das Escrituras, queilumine o espírito, robusteça as vontades e inflame os corações dos homens noamor de Deus».[150]

 Bíblia e ecumenismo

 46. Na certeza de que a Igreja tem o seu fundamento emCristo, Verbo de Deus feito carne, o Sínodo quis sublinhar a centralidade dosestudos bíblicos no diálogo ecuménico, que visa a plena expressão da unidade detodos os crentes em Cristo.[151] De facto, na própria Escritura, encontramos acomovente súplica de Jesus ao Pai pelos seus discípulos para que sejam um só afim de que o mundo creia (cf. Jo 17, 21). Tudo isto nos fortalece na convicçãode que escutar e meditar juntos as Escrituras nos faz viver uma comunhão real,embora ainda não plena;[152] pois «a escuta comum das Escrituras impele aodiálogo da caridade e faz crescer o da verdade».[153] De facto, ouvir juntos aPalavra de Deus, praticar a lectio divina da Bíblia, deixar-se surpreender pelanovidade que nunca envelhece e jamais se esgota da Palavra de Deus, superar anossa surdez àquelas palavras que não estão de acordo com as nossas opiniões oupreconceitos, escutar e estudar na comunhão dos fiéis de todos os tempos: tudoisto constitui um caminho a percorrer para alcançar a unidade da fé, comoresposta à escuta da Palavra.[154] Verdadeiramente esclarecedoras eram estaspalavras do Concílio Vaticano II: «No próprio diálogo [ecuménico], a SagradaEscritura é um exímio instrumento da poderosa mão de Deus para a consecuçãodaquela unidade que o Salvador oferece a todos os homens».[155] Por isso, é bomincrementar o estudo, o diálogo e as celebrações ecuménicas da Palavra de Deus,no respeito das regras vigentes e das diversas tradições.[156] Estascelebrações são úteis à causa ecuménica e, se vividas no seu verdadeirosignificado, constituem momentos intensos de autêntica oração nos quais se pedea Deus para apressar o suspirado dia em que será possível abeirar-nos todos damesma mesa e beber do único cálice. Entretanto, na justa e louvável promoçãodestes momentos, faça-se de modo que os mesmos não sejam propostos aos fiéis emsubstituição da participação na Santa Missa nos dias de preceito.

 Neste trabalho de estudo e de oração, reconhecemos comserenidade também os aspectos que requerem ser aprofundados e que nos mantêmainda distantes, como, por exemplo, a compreensão do sujeito da interpretaçãocom autoridade na Igreja e o papel decisivo do Magistério.[157]

 Além disso queria sublinhar o que os Padres sinodaisdisseram da importância que têm, neste trabalho ecuménico, as traduções daBíblia nas diversas línguas. De facto, sabemos que traduzir um texto não étrabalho meramente mecânico, mas faz parte em certo sentido do trabalhointerpretativo. A este respeito, o Venerável João Paulo II afirmou: «Quemrecorda como influíram nas divisões, especialmente no Ocidente, os debates emtorno da Escritura, pode compreender quanto seja notável o passo em frenterepresentado por tais traduções comuns».[158] Por isso, a promoção dastraduções comuns da Bíblia faz parte do trabalho ecuménico. Desejo aquiagradecer a todos os que estão comprometidos nesta importante tarefa eencorajá-los a continuarem na sua obra.

 Consequências sobre a organização dos estudos teológicos

 47. Outra consequência que deriva de uma adequadahermenêutica da fé diz respeito à necessidade de mostrar as suas implicações naformação exegética e teológica, particularmente dos candidatos ao sacerdócio.Faça-se com que o estudo da Sagrada Escritura seja verdadeiramente a alma dateologia, enquanto se reconhece nela a Palavra que Deus hoje dirige ao mundo, àIgreja e a cada um pessoalmente. É importante que os critérios indicados pelonúmero 12 da Constituição dogmática Dei Verbum sejam efectivamente tomados emconsideração e se tornem objecto de aprofundamento. Evite-se cultivar uma noçãode pesquisa científica, que se considera neutral face à Escritura. Por isso,juntamente com o estudo das línguas próprias em que foi escrita a Bíblia e dosmétodos interpretativos adequados, é necessário que os estudantes tenham umaprofunda vida espiritual, para se aperceberem de que só é possível compreendera Escritura se a viverem.

 Nesta perspectiva, recomendo que o estudo da Palavra deDeus, transmitida e escrita, se verifique sempre em profundo espírito eclesial,tendo em devida conta, na formação académica, as intervenções sobre estastemáticas feitas pelo Magistério, o qual «não está acima da palavra de Deus,mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, pormandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guardareligiosamente e a expõe fielmente».[159] Portanto tenha-se o cuidado de que osestudos se realizem reconhecendo que «a sagrada Tradição, a sagrada Escritura eo magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de talmaneira se unem e associam que um sem os outros não se mantém».[160] Desejopois que, segundo a doutrina do Concílio Vaticano II, o estudo da SagradaEscritura, lida na comunhão da Igreja universal, seja realmente como que a almado estudo teológico.[161]

 Os Santos e a interpretação da Escritura

 48. A interpretação da Sagrada Escritura ficaria incompletase não se ouvisse também quem viveu verdadeiramente a Palavra de Deus, ou seja,os Santos.[162] De facto, «viva lectio est vita bonorum».[163] Realmente ainterpretação mais profunda da Escritura provém precisamente daqueles que sedeixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura emeditação assídua.

 Certamente não é por acaso que as grandes espiritualidades,que marcaram a história da Igreja, nasceram de uma explícita referência àEscritura. Penso, por exemplo, em Santo Antão Abade, que se decide ao ouviresta palavra de Cristo: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o quepossuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céus; depois, vem esegue-Me» (Mt 19, 21).[164] Igualmente sugestivo é São Basílio Magno, quando,na sua obra Moralia, se interroga: «O que é próprio da fé? Certeza plena esegura da verdade das palavras inspiradas por Deus. (…) O que é próprio dofiel? Com tal certeza plena, conformar-se com o significado das palavras da Escritura,sem ousar tirar nem acrescentar seja o que for».[165] São Bento, na sua Regra,remete para a Escritura como «norma rectíssima para a vida do homem».[166] SãoFrancisco de Assis – escreve Tomás de Celano – «ao ouvir que os discípulos deCristo não devem possuir ouro, nem prata, nem dinheiro, não devem trazeralforge, nem pão, nem cajado para o caminho, não devem ter vários pares decalçado, nem duas túnicas, (…) logo exclamou, transbordando de Espírito Santo:Com todo o coração isto quero, isto peço, isto anseio realizar!».[167] E SantaClara de Assis reproduz plenamente a experiência de São Francisco: «A forma devida da Ordem das Irmãs pobres (…) é esta: observar o santo Evangelho do Senhornosso Jesus Cristo».[168] Por sua vez, São Domingos de Gusmão «em toda a partese manifestava como um homem evangélico, tanto nas palavras como nasobras»,[169] e tais queria que fossem também os seus padres pregadores: «homensevangélicos».[170] Santa Teresa de Ávila, nos seus escritos, recorrecontinuamente a imagens bíblicas para explicar a sua experiência mística, elembra que o próprio Jesus lhe manifesta que «todo o mal do mundo deriva de nãose conhecer claramente a verdade da Sagrada Escritura».[171] Santa Teresa doMenino Jesus encontra o Amor como sua vocação pessoal, quando perscruta asEscrituras, em particular os capítulos 12 e 13 da Primeira Carta aosCoríntios;[172] e a mesma Santa assim nos descreve o fascínio das Escrituras:«Apenas lanço o olhar sobre o Evangelho, imediatamente respiro os perfumes davida de Jesus e sei para onde correr».[173] Cada Santo constitui uma espécie deraio de luz que brota da Palavra de Deus: assim o vemos também em Santo Ináciode Loyola na sua busca da verdade e no discernimento espiritual, em São JoãoBosco na sua paixão pela educação dos jovens, em São João Maria Vianney na suaconsciência da grandeza do sacerdócio como dom e dever; em São Pio dePietrelcina no seu ser instrumento da misericórdia divina; em São JosemariaEscrivá na sua pregação sobre a vocação universal à santidade; na Beata Teresade Calcutá missionária da caridade de Deus pelos últimos; e nos mártires donazismo e do comunismo representados, os primeiros, por Santa Teresa Beneditada Cruz (Edith Stein), monja carmelita, e os segundos pelo Beato AloísioStepinac, Cardeal Arcebispo de Zagrábia.

 49. Assim a santidade relacionada com a Palavra de Deusinscreve-se de certo modo na tradição profética, na qual a Palavra de Deus seserve da própria vida do profeta. Neste sentido, a santidade na Igreja representauma hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santoque inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vidapelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efectuaruma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus.

 Tivemos um testemunho directo desta ligação entre Palavra deDeus e santidade durante a XII Assembleia do Sínodo quando, a 12 de Outubro naPraça de São Pedro, se realizou a canonização de quatro novos Santos: o sacerdoteCaetano Errico, fundador da Congregação dos Missionários dos Sagrados Coraçõesde Jesus e de Maria; a Irmã Maria Bernarda Bütler, nascida na Suíça emissionária no Equador e na Colômbia; a Irmã Afonsa da Imaculada Conceição,primeira santa canonizada nascida na Índia; a jovem leiga equatoriana Narcisade Jesus Martillo Morán. Com a sua vida, deram testemunho ao mundo e à Igrejada perene fecundidade do Evangelho de Cristo. Pedimos ao Senhor que, porintercessão destes Santos canonizados precisamente nos dias da assembleiasinodal sobre a Palavra de Deus, a nossa vida seja aquele «terreno bom» onde oSemeador divino possa semear a Palavra para que produza em nós frutos desantidade, a «trinta, sessenta, e cem por um» (Mc 4, 20).

Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini –Introdução »

I Parte:
O Deus que fala »
Cristologia da Palavra »
A Palavra de Deus e o Espírito Santo »
Deus Pai, fonte e origem da Palavra »
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja »
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada »
A relação entre Antigo e Novo Testamento »
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas »

II – Parte:
A Igreja acolhe a Palavra »
A sacramentalidade da Palavra »
A palavra de Deus na vida eclesial »
Leitura orante da Sagrada Escritura e "lectio divina" »

III-Parte
A missão da Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo »
Palavra de Deus e compromisso no mundo »
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes »
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas »
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso »

Conclusão
A palavra definitiva de Deus »


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