Formação

E vós, quem dizeis que eu sou?

comshalom

Existe, na cultura e na sociedade de hoje, um fato que podenos introduzir na compreensão do Evangelho deste domingo, e é a pesquisa deopinião. Ela é praticada em todos os âmbitos, mas sobretudo no político ecomercial. Também Jesus um dia quis fazer uma pesquisa de opinião, mas comfins, como veremos, muito diferentes: não políticos, mas educativos. Chegado àregião da Cesaréia de Filipo, ou seja, a região mais ao norte de Israel, em umapausa de tranqüilidade, na qual estava a sós com os apóstolos, Jesus lhesdirigiu, a queima-roupa, a pergunta: «Quem dizem os homens ser filho doHomem?».

 É como se os apóstolos não esperassem outra coisa para poderfinalmente falar sobre todas as vozes que circulavam a propósito dele.Respondem: «Uns afirmam que é João Batista, outros que é Elias, outros, ainda,que é Jeremias ou um dos profetas». Mas para Jesus não interessava medir onível de sua popularidade ou seu índice de simpatia entre o povo. Seu propósitoera bem diferente. Então Ele lhes pergunta: «E vós, quem dizeis que eu sou?».

 Esta segunda pergunta, inesperada, deixa-os desconcertados.Entrecruzam-se silêncio e olhares. Se na primeira pergunta se lê que osapóstolos responderam todos juntos, em coro, esta vez o verbo é singular; só«respondeu» um, Simão Pedro: «Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo!».

Entre as duas respostas há um salto abismal, uma«conversão». Se antes, para responder bastava olhar ao redor e ter escutado asopiniões das pessoas, agora é preciso olhar para dentro, escutar uma voz bemdiferente, que não vem da carne nem do sangue, mas do Pai que está nos céus.Pedro foi objeto de uma iluminação «do alto».

 Trata-se do primeiro autêntico reconhecimento, segundo osevangelhos, da verdadeira identidade de Jesus de Nazaré. O primeiro ato públicode fé em Cristo, da história! Pensemos no sulco deixado por um barco: vai semovimentando até perder-se no horizonte, mas começa com uma ponta, que é aponta do barco. Assim acontece com a fé em Jesus Cristo. É um sulco que foimovimentando-se na história, até chegar aos «últimos confins da terra». Mascomeça com uma ponta. E esta ponta é o ato de fé de Pedro: «Tu és o Cristo, oFilho de Deus vivo». Jesus usa outra imagem, vertical, não horizontal, verticalnão horizontal: rocha, pedra. «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minhaIgreja».

 Jesus muda o nome de Simão, como se faz na Bíblia quando serecebe uma missão importante: chama-o de «Cefas», Rocha. A verdadeira rocha, a«pedra angular» é, e continua sendo, ele mesmo, Jesus. Mas, uma vez ressuscitadoe ascendido ao céu, esta «pedra angular», ainda que presente e operante, éinvisível. É necessário um sinal que a represente, que torne visível e eficazna história este «fundamento firme» que é Cristo. E este será precisamentePedro, e, depois dele, aquele que o substituir, o Papa, sucessor de Pedro, comocabeça do colégio dos apóstolos.

 Mas voltemos à idéia da pesquisa. A pesquisa de Jesus, comovimos, desenvolve-se em dois momentos, comporta duas perguntas fundamentais:primeiro, «quem dizem os homens ser o filho do Homem?»; segundo, «quem dizeisvós que sou eu?». Jesus não parece dar muita importância ao que as pessoaspensam dele; interessa-lhe saber o que pensam seus discípulos. E o faz com esse«e vós, quem dizeis que sou eu?». Não permite que se escondam atrás dasopiniões dos outros, mas quer que digam sua própria opinião.

 A situação se repete, quase identicamente, nos dias de hoje.Também hoje, «as pessoas», a opinião pública, têm suas idéias sobre Jesus.Jesus está na moda. vejamos o que acontece no mundo da literatura e doespetáculo. Não passa um ano sem que saia uma novela ou um filme com a própriavisão, torcida e dessacralizada, de Cristo. O caso do Código Da Vinci, de DanBrown, foi o mais clamoroso e está tendo muitos imitadores.

 Depois estão os que ficam a meio caminho. Como as pessoas deseu tempo, crêem que Jesus é «um dos profetas». Uma pessoa fascinante, que seencontra ao lado de Sócrates, Gandhi, Tolstoi. Estou certo de que Jesus nãodespreza estas respostas, porque se diz dele que «não apaga a chama fumegante enão quebra o caniço rachado», ou seja, sabe valorizar todo esforço honesto porparte do homem. Mas há uma resposta que não se enquadra, nem sequer na lógicahumana. Gandhi ou Tolstoi nunca disseram «eu sou o caminho, a verdade e avida», ou também «quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim não é digno demim».

 Com Jesus não se pode ficar na metade do caminho: ou é o quediz ser, ou é o maior louco exaltado da história. Não há meio termo. Existemedifícios e estruturas metálicas (creio que uma é a torre Eiffel de Paris)feitas de tal maneira que se se traslada certo elemento, se derruba tudo. Assimé o edifício da fé cristã, e esse ponto neurálgico é a divindade de JesusCristo.

Mas deixemos as respostas das pessoas e vamos aosnão-crentes. Não basta crer na divindade de Cristo, é necessário tambémtestemunhá-la.

 Quem o conhece e não dá testemunho dessa fé, mas a esconde,é mais responsável diante de Deus do que quem não tem essa fé. Em uma cena dodrama «O pai humilhado», de Claudel, uma moça judia, linda, mas cega, aludindoao duplo significado da luz, pergunta a seu amigo cristão: «Vós que vedes, queuso fizestes da luz?». É uma pergunta dirigida a todos nós que nos confessamoscrentes.


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