Formação

Educar para quê? Para quem? Para onde?

Laura Martins
Missionária da Comunidade Católica Shalom

Pensando em educação de filhos, relembrei uma narrativahistórica escrita em um diário de uma senhora católica, mãe de dez filhos, quesentiu necessidade de derramar seu coração nos seus escritos, falando sobre suatrajetória neste “pobre exílio”. Este relato a respeito de um de seus filhosque faleceu de tétano, aos oito anos de idade impressionou-me profundamente,pelos tesouros cristãos valiosos que contém.

Refletiremos sobre este tema em dois artigos, a fim deextrair da referida narrativa aquilo que de precioso possui, e que se aplica aonosso tempo, para a edificação de famílias profundamente cristãs, a fim de quesejam celeiros de pessoas felizes e santas.

Fiz questão de transcrever na íntegra alguns trechos queseguem abaixo. Acompanhando cada trecho, sinalizamos a percepção de algunsvalores importantes para a família cristã em nossos dias, a fim de ajudar-nos arever o percurso que temos feito como família, neste tempo de pós-modernidade.

Parecem escritos de um século distante, mais precisamente,1933… No entanto, não está tão longe de nós! Neste tempo, as famíliascatólicas respiravam mais fortemente um clima de fé e de valores que exalavamperfume de céu! Meu Deus!

 “Lúcio Flávio:Recordando o curto espaço de tempo em que viveu o meu filho, neste pobreexílio. Na cruz encontro o segredo das grandes consolações e das verdadeirasseguranças. Louvado seja Jesus Cristo!

Nasceu Lúcio Flávio aos dezoito de abril, de 1925, noEngenho Passo da Pátria, no município de Palmares, Pernambuco. Foi o meu quartofilho. O seu nascimento foi muito rápido e feliz. A sofrer fortes cólicasintestinais que o faziam perder os sentidos. E assim continuou por espaço deoito meses.”

Favorecer um ambiente espiritual em casa, expressa aimportância que damos a essa área da nossa vida.

“…O bercinho que fora preparado, antes do nascimento,tendo as cores do Sagrado Coração, poucos instantes repousava nele. Quase quefoi um objeto inútil.”

A atenção e o respeito pelas pessoas é um dos tesouros a serresgatado neste tempo de individualismo e indiferença nos relacionamentos.

 “Muito novinhomostrou-se muito carinhoso. Tinha quase mania de beijar-nos. E como nem sempreprestávamos atenção, beijava as nossas roupas. Foi necessário repreendê-lo paraque deixasse isso. Junto ao papai, com a idade de três anos, ficava por muitotempo a catar a cabeça para fazê-lo dormir. Se o via repousando, procurava queninguém se aproximasse para não perturbar o seu sono e o fazia por meio degestos, pois tinha ainda dificuldade de falar, apesar de ter compreensão tãoclara.”

Testemunhar aos filhos, com a própria vida, o temor a Deus,leva à consciência de nossa condição de criaturas que devem ao Criador amor,gratidão e reverência, afastando-nos da soberba e da independência de Deus.

“Aos seis anos fez a primeira comunhão. E foi com grande féque recebeu o pequeno Jesus. Na confissão foi muito escrupuloso. Já depois deter recebido Nosso Senhor, chegou-se a mim chorando para dizer que tinhaesquecido um pecado. O sacerdote que o confessou, Revmo. Frei Inácio,capuchinho, vendo-o assim inquieto, o tranquilizou, ouvindo-o novamente.Disse-me depois: ‘O seu filhinho é um anjo’. Nesse mesmo dia, recebeu o SantoCrisma. Isso aconteceu por ocasião de umas missões pregadas em nosso engenho.Então, ele me disse: ‘ – Mamãe, você me disse que eu ouviria Jesus falar em meucoração, cansei de escutar e não o ouvi.’ Parece que Nosso Senhor não o queriavaidoso.”

Não tinha muito gosto pela oração. Posso mesmo dizer que eletinha preguiça de rezar. Mas aos sete anos, ele me disse: ‘Mamãe, eu não tenhomais preguiça de rezar.’  No diado Batismo, recebeu o escapulário do Carmo. A sua roupa do batizado foi brancae nesse dia eu tive a impressão que ele ia fugir para o céu. Foi tambémconsagrado à Santíssima Virgem tendo sido a sua madrinha, minha irmã Stela, quefoi para o Carmelo e hoje é religiosa carmelita.”

Incentivar à verdade e à simplicidade no convívio familiar

“A sua consciência era muito delicada. Por duas vezes, tendovisto pessoas pouco decentes não descansou enquanto não me disse. E ele disse àprópria pessoa que ela não estava ‘decente’.

Uma vez, tendo adoecido, me chamou: ‘Minha mãe, eu ontemmenti, mas já pedi perdão a Nossa Senhora.’ Tranqüilizei-o dizendo: Certamenteela já lhe perdoou.

Aos seis anos, ele já montava muito bem a cavalo e gostavamuito desse esporte. Começou a estudar também nesta idade. Não fez muitoprogresso porque a sua mestra (a própria mãe) não se esforçava. Às vezes, naaula, me tornava muito severa, pois eu queria que o esforço fosse só dele. Eledisse: ‘mamãe, você não me ensina. Deixa essa conversa e cuida de mim’. Euachava que ele tinha razão, mas não me corrigia.

Um dia, quando eu ia preparar o seu exercício de caligrafia,ele disse: ‘Deixe que eu escrevo a frase’. E escreveu: ‘Maria, você é o meuconsolo’.

Outras vezes, ele formava outras frases. Um dia eleescreveu: ‘Eu amo a minha mãe.’

E esta mamãe era tão pouco admiradora deste filho extremosoe ousou lhe dizer: Oh Lúcio, que preguiça é esta? Isso é escrita?” Ele ficoutristezinho e respondeu: “Minha mamãe, eu ia fazer outra frase. É porque euqueria lhe dizer isto. Eu lhe quero tanto bem, minha mãe!

Nunca lhe fiz um carinho espontâneo depois de crescido. Soupouco afetuosa com todos eles.

De outra vez, ele me pediu para escrever ao irmão que estavano seminário: ‘Iel (abrev. de Manoel), estive muito triste porque mamãe me botapara estudar. Mas ela é muito braba. Aceite o abraço de seu irmão, Lúcio’. Euapreciava muito esta simplicidade e tratei logo de enviar a carta. Era a puraverdade.

Uma vez, tendo encontrado uma pedrinha parecendo mármoreróseo, ele veio me trazer dizendo: ‘Tome mamãe, como uma lembrança minha’. Comoeu não tivesse guardado logo, ele disse: ‘Mamãe, você não guardou. Guarde,mamãe. Esse é o meu presente.’

Um dia ele disse: ‘Eu não quero viver sem a minha mamãe.Quero o quê?!…Eu não ia agüentar’. Mas os cinco primeiros anos, para imitartalvez os irmãozinhos que diziam quererem ser padre, ele também dizia queseria, mas, tendo papai mostrado desejo que ele viesse a ser militar, ficou comesta aspiração. E muitas vezes ele dizia: ‘Vou ser general’ . E para que amamãe se consolasse com o seu futuro militar, ele dizia: ‘Mamãe, a primeira vezque eu vier como militar, nesta casa, lhe levarei a Roma. Você e papai irãomorar comigo.’ Ele dizia isto porque uma vez havia me perguntado seu eudesejaria ir a Roma e por que eu não ia. Respondi-lhe que era por não terrecursos.”

Favorecer ambiente familiar onde se pratique as virtudescristãs

“Ele era modesto em extremo. A última vez que recebeu NossoSenhor, mandei que o fizesse descalço para não humilhar algumas crianças doengenho que neste dia faziam a primeira comunhão sem sapatos. Ele obedeceuprontamente com todo prazer, o que não se deu com o irmãozinho Marcus, que porser meio altivo, não gostou, pois estava fazendo também a primeira comunhãodescalço.

Era incapaz de faltar a caridade com os companheirozinhospobres, filhos dos operários do engenho. Ensinava-lhes o catecismo e muitasvezes aconselhava-os a se perdoarem. Gostava de dar seus brinquedos e roupas aestes pequenos.

Dois dias antes de morrer, ele me pediu: ‘Dê ao Carlinhos omeu chapéu de palha’. E veio muito satisfeito mostrar-me o menino assim, prontocom a roupinha.”

O ambiente familiar deve ser uma escola para a vida, onde,por amor, deve-se oportunizar a todos a vivência concreta da caridade para comos necessitados, os pobres, os doentes, os que sofrem… A experiência daalegria interior que brota no coração daquele que se doa é um campo fecundopara a construção de uma sociedade mais justa e solidária, pautada nos valoresfundamentais da vida humana – os valores cristãos. Crianças, jovens eadolescentes que têm essa oportunidade, tornam-se felizes e serão adultos maishumanos, e mais comprometidos com os seus semelhantes.

Na próxima edição traremos mais trechos desse preciosorelato histórico para nossa edificação como famílias cristãs.


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