Uma ostra que não foi ferida não produz pérolas. As pérolas são feridas curadas! Que pérolas podem ser geradas das feridas causadas nas ostras desse tempo? Antes de falar das pérolas, gostaria de falar das ostras.
O que é uma ostra?
As ostras são moluscos bivalves (duas conchas) que obtêm seus alimentos bombeando água através de seu sistema e filtrando pequenos organismos.
Algumas vezes esses filtros falham e esses pequenos organismos entram na ostra. Esses dias, tenho pensado muito sobre o coronavírus. Tenho visto que estamos como ostras, que se fecham em duas conchas para se proteger.
Os cuidados com a contaminação do COVID-19 fizeram cessar os abraços, fecharam as Igrejas, esvaziaram os pontos turísticos e as pessoas que, há menos de um mês, não tinham tempo nem de fazer uma ligação ou brincar com seus filhos, agora estão em casa, protegendo-se do mal invisível que nos cerca.
Cessaram-se os abraços
O elemento que mais me chama atenção nesse contexto: cessaram-se os abraços, pois o tato pode ser uma das formas mais concretas de contágio, então para o bem de todos e para que em curto prazo possamos ter abraços mais calorosos, todos vivem a oferta desse tempo.
Penso que talvez nunca tivemos uma oportunidade de refletir tanto sobre o sacrifício e a mortificação em vista de um bem maior. Pequenos gestos lícitos e que nos fazem felizes são pausados em vista de um tempo mais caloroso que está por vir. Sim, porque penso que nunca mais seremos os mesmos e da próxima vez que pudermos abraçar alguém que amamos, será como se fosse a última vez, não será mais um abraço qualquer. Deste tempo difícil e ofertado nascerão coisas preciosas, podem nascer daí grandes pérolas.
Ah! Ainda terminando o assunto das ostras:
Ostras têm uma grande quantidade de zinco, fortalece o sistema imunológico, melhora a pele e fortalece os ossos. A ostra se alimenta de detritos e micro-organismos marinhos. Cada ostra filtra cerca de 30 a 50 litros de água por dia, fazendo bem para o meio ambiente e algumas delas produzem pérolas.
É sobre as pérolas que gostaria de tratar nesse texto.
Até Jesus fala de pérolas em uma de suas parábolas, no Evangelho em Mateus 13, 45-46. A parábola ilustra o grande valor do Reino dos Céus, seguida depois pela Parábola do Tesouro Escondido, que tem um tema semelhante.
“O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola”.
Mas o que é uma pérola?
A pérola é o resultado de uma reação natural do molusco contra invasores externos, como certos parasitas que procuram reproduzir-se em seu interior. Para isso, esses organismos perfuram a concha e se alojam no manto, uma fina camada de tecido que protege as vísceras da ostra. O nome “pérola” vem dos Romanos do latim pirla, diminutivo de pira, palavra com o significado de “formato de lágrima” e para estes era um sinal do amor.
Eu não poderia aqui deixar de fazer uma analogia a nossa vida espiritual, a pérola nasce de uma ferida e uma ferida que nasceu em função de combater um mal.
No quinto domingo da quaresma em que o profeta Ezequiel nos traz uma profecia: “Sabereis então que eu é que sou o Senhor, ó meu povo, quando eu abrir os vossos túmulos e vos fizer sair deles, quando eu meter em vós o meu espírito para vos fazer voltar à vida e quando vos hei de restabelecer em vossa terra”. É o próprio Deus que deseja nos tirar das nossas conchas e transformar nossas feridas em chagas gloriosas, sim há esperança porque o mal já não tem a última Palavra e podemos ouvir o grito de Jesus que reina sobre a morte: “Lázaro, vem para fora!”. Enne, vem para fora. Fulano, vem para fora.
As pérolas são feridas curadas!
Jesus chora conosco, chora as nossas feridas, chora as nossas enfermidades, chora com o mundo neste tempo. Chora porque ama, suas lágrimas são sinais de amor, como disseram os judeus: “vede como ele o amava”.
Hoje, Lázaro sou eu e você, amigos de Jesus, fracos, feridos, condenados a morte, presos nas nossas ostras, nos nossos túmulos. Mas daí podemos suplicar com o salmista: “das profundezas eu clamo a vós, Senhor, escutai a minha voz! Vossos ouvidos estejam bem atentos ao clamor da minha prece!”. Ouvi-nos Senhor, do mais profundo das nossas conchas, do nosso escondimento, da nossa morte, ouve-nos, Senhor.
E desta última semana da quaresma, podemos esperar a alegria da Ressurreição, pois uma ostra que não foi ferida não produz pérolas. As pérolas são feridas curadas! Não tenhamos medo do sincero arrependimento, que move o coração de Deus a fazer rolar a pedra da morte e nos trazer a vida nova em Cristo. Perseverantes e fiéis desejemos a conversão à santidade. Que as lágrimas de Jesus, unidas às nossas gerem pérolas preciosas para este tempo e possamos ao final de tudo isso correr para os abraços felizes que guardamos.
Enne Karol – Missão de Natal

Belíssimo texto,uma reflexão e comparação da pérola que nos fazem pensar e perceber o quanto é nítido o amor de Deus por nós e não reconhecemos aqueles que estão de fora do contexto espiritual e você faz uma comparação com o tempo atual para nós dedicarmos mais e praticarmos o amor , a empatia. Parabéns Enne!
Belo e verdadeiro . Tocante, atual e profundo. Me identifico.