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Eucaristia, sacrifício da nova aliança

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Em síntese: Foi publicado um folheto protestante quecaricatura a S. Eucaristia sob o título “O Biscoito da Morte”. Quer derivar aEucaristia de um pretenso mito egípcio, cujo herói seria o deus Sol Osiris; ossacerdotes egípcios consagrariam hóstias que se transformavam na carne do deusOsiris, segundo o autor do panfleto. Ora, tal mito não existe; o deus Osirisera um deus que ressuscitava os mortos. Ademais, o autor não existe; o deusOsiris era um deus que ressuscitava os mortos. Ademais, o autor do panfletoousa dizer que os sacerdotes egípcios chamavam o dito milagre“transubstanciação” – o que é totalmente anacrônico, pois transubstanciação épalavra latina composta pelos teólogos da Idade Média, inspirados em categoriasde pensamento grego aristotélico.

 O panfleto encerra muitas outras inverdades, que revelam aignorância e a agressividade cega do autor. É de lamentar que um cristão possarecorrer a erros históricos e a calúnias de tal monta para negar um dos artigosde fé mais enfaticamente contidos na S. Escritura; as fórmulas “isto é o meucorpo … Isto é o meu sangue” (Mt 26,26-28) não podem ser tomadas em sentidometafórico, pois o sentido literal é respaldado pela promessa do pão que écarne, em Jo 6, 51-63.

 Está circulando em língua portuguesa um panfleto de origemprotestante norte-americana intitulado “O Biscoito da Morte”. É uma sátirabaixa e caricatural contra a Eucaristia. O autor baseia-se em falsas premissase imaginárias suposições para denegrir algo que está na própria mensagem daEscritura e que é muito caro aos fiéis católicos. A obsessão agressiva cega oautor e leva-o a atestar sua ignorância sob capa de erudição. Infelizmente,porém, a ironia e a palhaçada da apresentação podem influir em leitores poucocríticos, causando-lhes danos na fé. Verifica-se que o autor, proselitista comoos modernos sectários, quer conquistar novos membros para o protestantismo,recorrendo mesmo à mentira e à calúnia.

 Eis por que passaremos em revista os principais tópicos dopanfleto.

 1. A TESE DO AUTOR

 O autor apresenta a fé na real presença de Jesus Cristo naEucaristia como sendo invenção do Papa e de seus assessores. Está dito aí quese puseram a ensinar isso a fim de conquistar poder sobre os fiéis; quem nãoacreditasse, seria punido com a morte, como aconteceu na Inquisição. A fé nareal presença de Cristo no pão eucarístico terá sido derivada de um mito dosegípcios, segundo o qual os sacerdotes consagravam hóstias que eram tidas comoa carne do deus Sol chamado Osiris; assim como os sacerdotes egípcios terãoconseguido dominar os crentes ensinando-lhes o sentido do biscoito, assim oPapa terá conseguido dominar os cristãos. Todavia, a leitura da Bíblia deveriaabrir os olhos dos católicos, fazendo que deixem a Igreja Católica e se tornemprotestantes!

 Detenhamo-nos sobre tal mito e as alegações do autor.

 2. A ORIGEM DA S. ESCARISTIA

2.1. O Mito de Osiris: Despropósitos

 Antes do mais, é de estranhar a estória “das hóstiastransformadas na carne do deus Sol Osiris”. Por mais de um motivo:

a) nenhuma das mais abalizadas fontes de mitologia referetal lenda de Osiris;

 b) nem se encontra o binômio “Deus Sol = Osiris”.

 Na verdade, eis o que, sinteticamente, se pode apurar arespeito do mito de Osiris:

Osiris, em egípcio Ouser, deus do panteon egípcio, estáenvolvido no seguinte enredo: Osiris era um bom rei da terra, que ensinava aoshomens a agricultura, a viticultura e as artes. Sofreu a inveja de seu irmãoSeth, que, no de correr de um banquete, o encerrou num cofre e o atirou no rioNilo; a sua irmã e esposa Isis encontrou-o no litoral de Byblos (Fenícia) e olevou de volta para o Egito. Foi, de novo, capturado por Seth, que oesquartejou em quatorze pedaços, pedaços que foram espalhados pela terra doEgito. Isis foi então procurar esses resquícios de cadáver juntamente com suairmã Nephthys (esposa de Seth) e, com a ajuda de Anubis, reconstituiu o corpodo deus Osiris. Todavia, Isis e Nephthys foram transformadas em aves; abanaramcom as suas grandes asas o cadáver de Osiris para restituir-lhe a vida. AssimOsiris ressuscitou. Isis concebeu então um filho chamado Horus; educou-osecretamente nos pântanos do delta do Nilo, receando o castigo que Seth, irmãode Osiris, podia infligir ao menino. Feito homem, Horus reclamou a sua herançae provocou Seth para travarem um combate a dois. Nestas circunstâncias, Re e otribunal dos deuses puseram-se a julgar o caso: decretaram que Horus receberiaa realeza terrestre que tocava a seu pai, ao passo que Osiris governaria oreino subterrâneo dos bem-aventurados.

Desta lenda os egípcios deduziram uma lição importante: todocadáver sobre o qual são praticados os ritos que foram aplicados ao corpo deOsiris, juntamente com as mesmas fórmulas mágicas, há de voltar à vida. Talprocedimento se chamava “osirianização”; cada defunto podia tornar-se um novoOsiris. Assim, Osiris tornou-se o deus da ressurreição. Todos os anos, no mêsde Khoiak, celebravam-se “mistérios”, isto é, representações sagradas quereproduziam o assassinato, o enterro e a ressurreição de Osiris. Cada egípcioera exortado a peregrinar, ao menos uma vez na vida, até um dos grandessantuários osirianos do Egito (Buris, Abydos …).

Como se vê, a estória está bem longe de mencionar hóstiastransformadas em carne de Osiris …

 c) Além disso, note-se o disparate encontrado em outrapassagem do panfleto:

“Os sacerdotes egípcios chamavam esse milagre de“transubstanciação”, e o povo comia seu Deus” (as páginas do panfleto não sãonumeradas).

A palavra “transubstanciação” é oriunda do latimtransubstantiatio, e não do egípcio. Os egípcios não conheceram tal vocábulolatino (o latim é língua posterior ao idioma dos antigos egípcios) nemconheceram o conceito veiculado por tal vocábulo, pois o conceito supõe a filosofiade Aristóteles (+ 322 a.C.) desenvolvida pelos teólogos escolásticos da IdadeMédia. Com efeito: substância, no caso, significa o que sub-stat, o que estásob os acidentes. Sim, Aristóteles distinguia, em cada ser visível, osacidentes, que são mutáveis (cor, tamanho, odor, localização, peso …) eaquilo que é o suporte ou sujeito dos acidentes (tal seria a substância, quefica sendo invisível). Em conseqüência, a palavra transubstanciação significa amudança (trans) da substância sem mudança dos acidentes. É o que se dáprecisamente na consagração eucarística: ficam os acidentes (cor, tamanho,gosto, odor …) do pão e do vinho, mas a substância do pão e do vinho seconverte na substância do corpo e do sangue de Cristo. Tal noção, supondocategorias de pensamento grego alheio aos egípcios, nunca foi professada pelossacerdotes da mitologia grega.

 d) Outra falsa afirmação relacionada com a mitologia egípciaé a seguinte: “IHS significam Isis, Horo e Seth, deuses do Egito”.

Quem diz isso mostra total ignorância do assunto: IHS nãosão caracteres egípcios, mas, no caso, são letras gregas: o H é a letra eta (elongo). IHS são os caracteres iniciais do nome grego IHSOYS (Jesus); porconseguinte, nem na língua egípcia nem na latina se deve procurar o sentido detal abreviatura.

 e) O panfleto refere como sendo palavras da consagração:“Hocus Pocus Domi Nocus” – o que nada significa em língua alguma. O leitordesprevenido poderá julgar que é a fórmula latina da consagração eucarística.Na verdade, a Eucaristia começou a ser celebrada no século I não em latim, masem aramaico, grego e línguas orientais; a fórmula grega é a que se encontra nosEvangelhos sinóticos: “Touto estin to soma mou e Touto estin to haima mou” (Mt26, 26.28).

 2.2. As Fontes Bíblicas da Eucaristia

 Os protestantes, que dizem seguir fielmente as Escrituras,iludem-se a si mesmos e iludem seus seguidores. Com efeito, a origem daEucaristia não está numa época tardia da história da Igreja, nem está noOcidente (em Roma, sede do Papa), mas está no Oriente e na própria Bíblia.Basta ler a Escritura Sagrada sem preconceitos e sem recorrer à tradição deLutero, Calvino, Zvínglio, Knox, Smith, Wesley …, para perceber claramenteque Jesus quis deixar-nos um pão que é o seu corpo e uma bebida que é o seusangue. Tenham-se em vista os textos de Jo 6, 51-71: a promessa do pão da vida;Mt 26, 26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22, 19s; 1Cor 11, 23-25: os relatos dainstituição da Eucaristia.

 2.3. Memorial

 Os protestantes negam a real presença de Jesus na Eucaristia,apesar da evidência decorrente dos textos sagrados, baseando-se na palavramemória, citada em Lc 22, 19:

“Na última ceia, Jesus disse que, quando vocês comem o pão etomam o vinho, devem fazer isso em memória dele” (tradução encontrada nopanfleto).

A palavra memória traduz, no caso, o grego anamnesis e ohebraico zikkarón. Ora, tais vocábulos, segundo a mentalidade semita que osconcedeu, não indicam mera atividade psicológica (o nosso recordar-se), mas,sim, um recordar que efetua algo ou que transforma a realidade. Tenhamos emvista os seguintes textos bíblicos, conforme os quais Deus se lembra dedeterminadas pessoas e lhes concede a sua graça e misericórdia: “Quando Deusdestruiu as cidades da planície, Ele se lembrou de Abraão e retirou Lote domeio da catástrofe” (Gn 19,29); “Então Deus se lembrou de Raquel; Ele a ouviu ea tornou fecunda” (Gn 30,22); “Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaac e Jacó,aos quais juraste por ti mesmo, dizendo: “Multiplicarei a vossa descendênciacomo as estrelas do céu …” Javé então desistiu do castigo com o qual haviaameaçado o povo” (Ex 32,13s). Ver também Gn 8,1; 1 Sm 1,11-19; 25,31.

Mesmo entre um homem e seu semelhante usava-se a fórmula“lembra-te”, para pedir um favor; assim disse José no cárcere do Faraó aocopeiro que seria libertado em breve: “lembra-te de mim, quando te suceder obem, e sê bondoso para falar de mim ao Faraó para que me faça sair da prisão”(Gn 40, 14).

O Novo Testamento é herdeiro dos conceitos de “memória” e“recordar-se” do Antigo Testamento. Assim, por exemplo, no canto de Maria selê: “Socorreu Israel seu servidor, lembrado de sua misericórdia” e no deZacarias: “… para fazer misericórdia aos nossos pais, lembrado de sua santaaliança … suscitou-nos uma força de salvação” (Lc 1,69-72). Sãosignificativas também duas passagens de conversão de Cornélio, centuriãoromano: “Tuas orações e tuas esmolas se ergueram como memorial diante de Deus”(At 10,4) e: “Tua oração foi atendida, Cornélio, e de tuas esmolas a memóriaesta presente diante de Deus” (At 10, 31). As orações e as esmolas de Cornélioficaram quase como um monumento na presença de Deus e prepararam a intervençãobenigna do Senhor. – Também no Novo Testamento o homem, ao rezar, usa a fórmula“Lembra-te”; assim disse o bom ladrão: “Jesus recorda-te de mim, quandochegares ao teu reino” (Lc 23, 42). É à luz desse significado dinâmico ecriativo das palavras “memória, memorial, recordar-se” que há de ser entendidoo mandato confiado por Jesus aos Apóstolos na última ceia: “Fazei isto emmemória (anámnesin) de mim” (1Cor 11,24s). Na base destes estudos lingüísticos,deve-se dizer que a celebração da ceia do Senhor nos séculos cristãos não émero símbolo evocativo do passado, mas vem a ser a atualização ou are-presentação (o tornar presente de novo) do sacrifício do Senhor oferecido naSexta-Feira Santa sobre o Calvário. Ver a propósito nosso Curso de Liturgia.Módulo 8 (Caixa Postal 1362, 20001-970 Rio – RJ).

 3. A INQUISIÇÃO

 O autor não podia deixar de falar da Inquisição:

“De 1200 a 1808 incontáveis torturas e mortes rondaram omundo católico, fazendo 68 milhões de vítimas. Satanás mantinha a IgrejaCatólica Romana sob seu absoluto controle.”

Antes de qualquer outra observação, notemos que os medievaise pós-medievais até o século XIX não faziam estatísticas precisas dos casosexaminados pela Inquisição. É inútil procurar nos arquivos da Inquisição dadosnuméricos que permitam uma estimativa global. Encontram-se apenas relatóriosisolados, cujos números são muito menos elevados do que aqueles que a fantasiados historiadores tendenciosos tem apregoado. Tenhamos em vista os doisregistros seguintes:

Consta que o tribunal de Pamiers, de 1303 a 1324, pronunciou75 sentenças condenatórias, das quais apenas cinco mandavam entregar o réu aopoder civil (o que equivalia à morte); O Inquisidor Bernardo de Gui em Tolosa,de 1308 a 1323 , proferiu 930 sentenças, das quais 42 eram capitais; noprimeiro caso, a proporção é de 1/15; no segundo caso, é de 1/22.

 De resto, a Inquisição é fenômeno que só se pode entenderdevidamente no respectivo contexto histórico. Com efeito, os medievais tinhamprofunda consciência do valor da alma e dos bens espirituais. Tão grande era oamor à fé esteio da vida espiritual) que se considerava a deturpação da fé pelaheresia como um dos maiores crimes que o homem pudesse cometer. Essa fé era tãoviva e espontânea que dificilmente se admitiria que alguém viesse a negar comboas intenções um só dos artigos do Credo. Tenham-se em vista as palavras de S.Tomás de Aquino (+ 1274):

“É muito mais grave corromper a fé, que é a vida da alma, doque falsificar a moeda, que é um meio de prover à vida temporal. Se, pois, osfalsificadores de moedas e outros malfeitores são, a bom direito, condenados àmorte pelos príncipes seculares, com muito mais razão os hereges, desde quesejam comprovados tais, podem não somente ser excomungados, mas também em todajustiça ser condenados à morte” (Suma Teológica) II/II, 11, 3c).

 A argumentação do S. Doutor do princípio (sem dúvida, autênticoem si) de que a vida da alma vale mais do que a vida do corpo. Se, pois, alguémpela heresia ameaça a vida espiritual do próximo, comete maior mal do que quemassalta a vida corporal; o bem comum então exige a remoção do grave perigo (vertambém S. Teológica II/II, 11, 4c).

 4. CONCLUSÃO

 É difícil compreender que um cristão possa atacar outroscristãos na base de tanto ódio e tanta falsidade. Não é o genuíno amor deCristo que inspira tal atitude. É a paixão preconcebida e obsessiva.

 A leitura do panfleto mostra também como é errôneo oprincípio protestante: “Somente a Bíblia”. A Bíblia é inseparável da palavraoral, que a interpreta e atualiza; ela, por si mesma, não se explica nemelucida. Ora, os protestantes lêem a Bíblia dentro da tradição oral iniciadapelos reformadores do século XVI, ao passo que os católicos a lêem dentro daTradição que emana de Jesus Cristo e dos Apóstolos e chega até nós; assim, notocante à Eucaristia desde os primeiros decênios da Igreja, há testemunhos defé na real presença de Cristo no sacramento do altar; essa fé foi sendotransmitida ininterruptamente até o século XX. Será que só no século XVI oscristãos começaram a entender autenticamente as palavras de Jesus em Mt 26,26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22, 19s; 1Cor 11, 23-25? Será que somente Lutero e seuscompanheiros de reforma entenderam corretamente o sermão referente ao pão davida em Jo 6, 51-71? Será que um protestante tem o direito de ignorar a Bíbliae a Tradição a ponto de forjar uma lenda mal alinhavada e inconsistente paraquerer provar que a Eucaristia teve origem no Ocidente (em ambiente latino)numa época tardia da história tardia da história da Igreja?

 A caridade cristão para com sectários tão cheios de ódio efalsidade manda que os católicos rezem por eles, unindo-se à oblação de Cristo,que se oferece ao Pai em cada S. Missa pela salvação do mundo (… também pelados sectários protestantes).

 O texto deste artigo existe como opúsculo próprio intitulado“O Biscoito da Morte”. Pedidos à Escola “Mater Ecclesiae”, Caixa Postal 1362,20001-970 Rio (RJ). Aí também foi editado o opúsculo “por que não sou Aquariano(Nova Era)?”.


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