Formação

Fama súbita

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O que houve com Susan Boyle, voz fenomenal, 47 anos, internada emmaio de 2009 com sinais de colapso nervoso e com a menina Maísa, 7anos, que chorou duas vezes por sentir-se deslocada diante das câmerasque ela parecia dominar; o que houve com centenas de pessoas a quem afama feriu por alguns momentos ou para sempre, merece reflexão.

A notoriedade não é para qualquer pessoa nem para qualquer idade. Háformigas que carregam pesados fardos e chegam ao formigueiro. Outras,sucumbem à caminho, ou abandonam a carga. Têm acontecido com cantores,artistas, sacerdotes, jogadores e atletas. A mídia é veículo, mas podese tornar um fardo acima da capacidade da pessoa. Isso explica osdesvios de conduta de alguns jogadores de futebol que jogam tudo para oar e tiram férias por própria conta; também artistas que abandonam oset de filmagem e vão embora cuidar de sua vida pessoal; também osreligiosos que rompem com a vida espiritual pregressa e partem para oseu projeto pessoal, e isso, em todas as igrejas.  

Foram milhares os famosos feridos pela fama. Suicídios, crimes,desrespeito à palavra dada e aos contratos assinados, graves desvios deconduta, sucessivos matrimônios falidos, perda de rumo, gravesproblemas com a lei ou com o seu público mostram que, tanto entre eles,os notórios e famosos, quanto entre os não notórios cansados de algumfardo, há feridas incuráveis. Mas o drama ganha dimensões catastróficasquando alguém galgou os degraus da fama.

Álcool, drogas, superdoses de medicina, tendência à autodestruiçãoestão na ordem do dia de muitos famosos; não porque são famosos, masporque no caso deles, a fama tornou-se peso impossível de administrar.Pensaram controlar e acabaram controlados. É que ninguém fica famososozinho. Há todo um mecanismo de marketing atrás da fama. É essemecanismo que sustenta os famosos que, desde o começo se revela maiordo que a pessoa promovida.

Os famosos são mais levados do que imaginam ir. Como a criança nocarrinho dos tutores que não deseja ir onde a levam, alguns famososesperneiam, querem fugir do contrato, tentam saltar fora e arcar commenos compromissos, mas nem sempre conseguem. “ The show must go on”dizia-se em Hollywood. Pararam de dizer, mas ainda o fazem.  Em outraspalavras, vale o show e não o artista, nem mesmo o artista número um!Há milhões de dólares em questão!

Aí a fama começa a doer. E é sofrimento mortal que alguns tentamamenizar com drogas. Em alguns casos, como o de Elvis Presley, MarilynMonroe e Michael Jackson e Elis Regina, que perderam o controle do queingeriam e do pastor Jim Jones que perdeu o controle da fé queanunciava, chega-se ao ponto do não retorno. Algum dia virá asuper-dosagem. O tristemente famosos pastor matou-se e matou mais de800 fiéis ao ver que sua Jonestown corria o risco de não dar certo…Não soube voltar atrás. Apostara demais no seu projeto.

Crianças pagaram um alto preço pela notoriedade. De Shirley Temple aMaísa, há que se distinguir o que para uma criança é brincadeira equando deixa de ser. No caso de Maísa, a simpática e prendada menina desete anos, sinalizou com clareza que a brincadeira do ancião e famosoapresentador tinha ido longe demais. A brincadeira dele a feriu.Shirley Temple que, na sua época, encantou milhões de cinéfilos amargouum terrível ostracismo ao deixar a infância. Com ela, Pablito Calvo ecentenas de crianças midiáticas. A vida se lhes mudou radicalmentedepois daqueles dias de holofotes.

Marilyn Monroe, Janis Joplin, Elvis Presley, Judy Garland, MichaelJackson, Elis Regina, Cássia Heller, quinze ou vinte famososbrasileiros, são apenas alguns dos mais conhecidos entre os mais de milnomes de pessoas famosas que por um momento, ou por anos a fio perderamo controle e a paz. O caso da subitamente famosa Susan Boyle que,vivendo fama súbita de algumas  semanas, precisou de ajuda logo apóster perdido uma competição, mostra que, às vezes, o peso da fama tira apessoa do seu eixo.

Não acontece apenas no mundo artístico. Jogadores de futebol,atletas e até religiosos guindados à fama perderam, com facilidade oreferencial e mudaram radicalmente de postura. Pensavam controlar apublicidade, mas foram por ela controlados. A fama, tanto quanto amídia, são cavalos xucros. Feliz de quem consegue montá-la por anos afio, sem cair. Na arena, a média é de cinco a oito segundos. Na vida,alguns passam décadas diante das luzes. Outros, porém, em menos de doisanos acabam cegos pelos mesmos holofotes que tanto cortejaram. Aformiga cortara pedaço maior do que poderia carregar!

Quantos entre nós podem garantir que seriam mais fortes? Oremospelos famosos. Alguns buscaram desesperadamente os pesos que hojecarregam. Outros não buscaram, mas descobriram-se famosos. Uns e outrossofrem. Mas quem quis a fama sofre mais. Muito provavelmente fezconcessões que não deveria ter feito. 

Padre Zezinho, SCJ


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