Formação

Faze-te ao largo, lança tua rede

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Este é um dos temas fortes da Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, que João Paulo II escreveu para toda a Igreja no início deste ano. Ele entregou esta carta à Igreja no dia seis de janeiro, dia da Epifania do Senhor, dia também em que encerrou o Ano Jubilar. E João Paulo II diz: "Quantas graças não podemos ver, mas com certeza Deus fez na vida de cada um… Não podemos ficar parados, com tantas graças que recebemos".

Essas graças que todos nós recebemos, não devem ficar retidas sobre nós mesmos. Pela comunhão dos santos essas bênçãos circularam por toda a Igreja, e nós as recebemos não para nós mesmos, apenas, mas para testemunharmos Jesus Cristo neste novo milênio, cheios de novo ânimo, novo dinamismo, nova força.

Estamos inaugurando um novo tempo, uma nova etapa na caminhada da humanidade, e nesta nova etapa, todo cristão está convidado, por Jesus Cristo, através do Papa, a ir mar adentro, a fazer-se ao largo e lançar as redes – com sua vida, seu ser, suas palavras -, testemunhando Jesus Cristo neste mundo, nesta sociedade ainda tão marcada pelo desconhecimento de Deus e do Evangelho.

Muitos precisam de homens, mulheres, jovens, famílias que testemunhem, onde quer que estejam, que Jesus está vivo, que Ele é a razão da nossa vida. O mundo quer ver na sua vida, nos seus olhos, nas suas palavras, no seu testemunho, o brilho dos olhos de Jesus, a força da Palavra de Deus. Quer ver em você que vale a pena ser cristão. As pessoas não vão se convencer de que vale a pena ser cristão se não virem encarnada em você a alegria, o júbilo, a felicidade de seguir Jesus Cristo. Por isso, neste novo milênio, é necessário que todos nós, que experimentamos o amor de Deus, arregacemos as mangas e empenhemos toda a vida em anunciar Jesus Cristo.

O homem pós-moderno tem sede de Deus. Está marcado pelo pecado, pela desilusão, porque nem o dinheiro nem os prazeres deste mundo, nada pode saciar o coração do homem, só Jesus Cristo. E a Igreja nos propõe neste início de milênio uma pesca milagrosa. Mas é preciso que eu e você estejamos dispostos a comprometer nossas vidas no lançar as redes e realizar essa pesca.

Para sermos esses evangelizadores de que a Igreja precisa, ela nos dá um caminho. É preciso nos preparar e estarmos unidos de fato a Ele. Porque devemos anunciar com a palavra, sim, mas sobretudo com a nossa vida. Essa pesca milagrosa só vai acontecer quando, em primeiro lugar, formos testemunhas, para depois falarmos.

A santidade

Por isso é que o Papa nos convida a Ser neste novo milênio. Nesse documento (Novo Millennio Ineunte), o caminho que o Papa ensina é, em primeiro lugar, nos decidirmos pela santidade. Ele diz: "Os cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade".

Cada um de nós é chamado a viver o Evangelho incondicionalmente, sem limites; é chamado a ser um outro Cristo no mundo. Não há outra maneira de ser feliz, senão vivendo como Jesus viveu, amando como Jesus amou, tendo os olhos de Cristo, a palavra de Cristo, o coração de Cristo.

Você é chamado a ser santo, a encarnar a vida de Cristo hoje, e ninguém poderá fazer isso no seu lugar. Você, que é pai, mãe, esposo, esposa, sacerdote, religioso, consagrado, trabalhador, jovem… é chamado a ser uma luz forte no mundo, para mostrar que a felicidade consiste em pertencer a Jesus Cristo e dizer "não" ao pecado.

Muitos de nós sabemos disso, mas ainda não acreditamos de fato. Não acreditamos que a santidade é a felicidade. Ainda acreditamos mais no mundo, na televisão, no dinheiro, no poder, no prazer, no possuir do que na Palavra de Deus, no Evangelho.

Quando acreditarmos na Palavra de Jesus com todas as nossas forças, saberemos no fundo da alma o que é a felicidade. Então, seremos testemunhas, nossa palavra terá valor, cairá no coração dos homens, porque eles não ouvirão só de boca, mas verão escrito na nossa vida. E o mundo ao nosso redor começará a se transformar, como uma onda, contaminando tudo, positivamente.

Por isso, o Papa João Paulo II nos diz que é indispensável para sermos testemunhas de Jesus Cristo decidirmo-nos pela santidade. E ser santo é pertencer – de corpo, de alma, de espírito, de pensamento, de palavras, de sentimentos – àquele que é Santo. Pertencer a Deus, não a si mesmo, às paixões, ao pecado, às sedutoras propostas do mundo, ao dinheiro, à ambição, à inveja ou ao ciúme.

É preciso dar um basta a isso. Dizer: "Eu não quero isso, apesar da minha fraqueza, da minha carne muitas vezes tender para isso. Quero ser de Deus, quero pertencer a Ele, viver com Ele, caminhar com Ele". E a graça de Deus olhará o clamor do teu coração. Se tu clamares com toda a tua alma, com todo o teu coração, se esse desejo for real dentro de ti, Deus te fará santo. Porque só Ele pode te fazer santo.

A santidade não está nas tuas forças. Não cabe a você, por si mesmo, fazer-se santo. Mas cabe a você ansiar, clamar, desejar, dobrar seus joelhos e reconhecer o quão fraco e pecador você é, e dizer: "Faz-me santo, Senhor". Isso cabe a você e ninguém poderá fazê-lo em seu lugar. Nem Deus pode fazer isso em seu lugar, porque Ele lhe deu a liberdade para você ser dele ou não. Por isso, só você pode se decidir por Ele.

E quando o olhar de Deus cair sobre você, e sempre cai, porque o olhar de Deus está sempre voltado para ti, e vir o teu coração humilhado pela Sua poderosa mão, mas desejoso dessa santidade, Ele te fará santo, curará tuas feridas, transformará o teu coração, porá em ti um espírito novo, arrancará teu coração de pedra e porá um coração de carne, te capacitará a perdoar àquele a quem você ainda não consegue, a amar a quem você ainda não conhece. Ele vai te fazer sair de ti, vai te dar forças para dizer "não" ao pecado e "sim" a Ele, "sim" ao Evangelho, "sim" à santidade, "sim" a Jesus Cristo.

A santidade é este sim, é escolher Jesus Cristo com todo o coração, e deixar tudo aquilo que não é compatível com Ele. Escolher Jesus Cristo é desejar ser, total e incondicionalmente, dele. Para sermos testemunhas, diz o Papa, é indispensável a santidade. E João Paulo II diz, na Carta: "É hora de propor de novo, a todos, com convicção, esta medida alta da vida cristã ordinária". Frei Patrício Sciadini diz que o cristão não pode viver na mediocridade, ser um cristão médio. Na Palavra não existe o cristão mais ou menos. Lembram do Apocalipse: "Ou você é quente, ou é frio. O morno será vomitado". Porque a pior coisa que tem é o "mais ou menos".

Jesus Cristo nos ensina a ser "sim" ou "não". Na cruz Ele não morreu mais ou menos, não deu a metade da vida. Quando se encarnou não ficou um pedaço no céu e veio outro pedaço para a terra, não! Ele se deu todo, entregou-se todo, amou até o fim, até a morte, e morte de cruz. Ele consumiu a vida toda, e entregando-se todo, não aceita outra medida de pertença a Ele, a não ser entregar-se total, inteiramente a Ele.

Aquele que se entregou totalmente a nós, não pode aceitar que entreguemos a Ele só um dedo mínimo, só um braço, só uma perna, só meio coração. Ou se entrega tudo, ou não se entrega nada. É esta a medida de Deus para o nosso bem, para a nossa felicidade. Porque a pior coisa do mundo é ser dividido, é estar com um pé em Deus e com o outro no mundo.

O martírio

E o Papa é tão ousado, que durante todo o Jubileu, e também nessa Carta, ele propõe aos cristãos do novo milênio não só a santidade, mas a medida para a santidade: o martírio.

Martírio é quando nós amamos tanto Jesus Cristo, e temos a fé cristã como a coisa mais importante, mais importante do que nossa própria vida, que estamos dispostos a doá-la inteiramente, até o sangue, para não renegar nossa fé.

Ora, se estamos dispostos até a derramar nosso sangue para não renegar a fé, quanto mais outras coisas, como as propostas do mundo, o que a televisão nos ensina. Estamos prontos a deixar tudo por Jesus Cristo. Estamos prontos a perder a própria vida, porque sabemos que Ele é a vida. E sabemos que se perdermos essa vida mortal, teremos a vida nele. Ele é a verdadeira vida, a verdadeira alegria, a verdadeira felicidade.

Tudo nesta vida passa, só Ele é eterno. E se nos seguramos com o que passa, passamos com o que passa. Mas se nos seguramos no eterno, vivemos por toda a eternidade.
Ao propor-nos o martírio, o Papa nos mostra como deve ser a nossa fé. Quando eu estava no congresso dos leigos católicos em Roma, ouvi o testemunho de um jovem seminarista africano que gostaria de partilhar aqui com vocês.

Vocês se lembram quando os jornais noticiaram guerra em vários países da África? Duas tribos se digladiavam: os Tutsis e os Hutus. Eles eram inimigos mortais e houve uma verdadeira perseguição de uns para com os outros. E esse seminarista, que se chama Jolite, conta o que aconteceu em 1997, quando estudava no seminário do Burundi e foi gravemente ferido. Ele escapou de um massacre no qual foram assassinados 44 seminaristas Hutus e Tutsis. Foram assassinados porque chegou o exército de uma tribo e mandou que eles se separassem. Os que pertencessem à raça do exército sobreviveriam, os outros seriam assassinados. Mas eles se recusaram. Preferiram morrer com os irmãos do que renunciar à vida deles.

Vejam o testemunho deles. O Jolite disse: "Nós éramos muitíssimos. Cerca de cem. Então, os membros do exército entraram em nosso dormitório e começaram a disparar aos quatro ventos. Despertamos e pulamos das camas. Em seguida, começaram a nos ameaçar, e passando entre as camas nos ordenavam a nos dividirmos: Hutus para uma parte, Tutsis para outra. Estavam armados até os dentes: metralhadoras, granadas, fuzis e machados. Mas, nós todos permanecíamos agrupados.

Então, o chefe deles perdeu a paciência e deu uma ordem: disparem sobre todos esses imbecis, que não querem se separar. Os primeiros disparos foram sobre os que estavam debaixo das camas. Havia muito sangue ao nosso redor.

Nós, juntos, rezávamos e implorávamos o perdão para aqueles que nos matavam. Ouvia-se as vozes dos meus companheiros, que diziam: "Pai, perdoa-os, porque eles não sabem o que fazem". Eu, pronunciava as mesmas palavras em meu interior, e oferecia a minha vida nas mãos de Deus por aqueles que me tiravam a vida".

É esta a medida que o Senhor deseja que vivamos. Diante disso, o que são as propostas do mundo, de fama, riqueza, vaidade, orgulho, poder, prazer, ressentimento? Onde ficam essas coisas? No chão! São pequenas demais, diante do chamado que Deus nos faz, diante da felicidade que Ele tem preparada para nós. O Senhor tem muito mais para nós.
A oração

Como vimos, o primeiro ponto do caminho indicado para nós pelo Santo Padre, para sermos testemunhas de Cristo neste terceiro milênio, é a santidade até o martírio. O segundo ponto é a oração.

Não seremos santos se Deus não nos fizer santos. E a forma de Deus nos transformar, dele nos dar força para dizer "não" ao mundo, ao pecado, ao demônio que nos tenta, é através da oração.
O Papa diz: "Sobretudo perante as numerosas provas que o mundo atual põe à fé dos cristãos, aqueles que se contentassem com uma oração superficial, incapaz de encher a sua vida, não seriam apenas cristãos medíocres, mas cristãos em perigo".

Se cada um de nós não nos decidirmos a ter uma vida de oração profunda, se acharmos que uma vida de oração mais ou menos, superficial, é suficiente para nós, diante do mundo que aí está, correremos perigo constante de perdermos a fé. Correremos o risco de sermos enlameados pelo pecado no mundo.

Assim, o Santo Padre nos convida a ser homens e mulheres de profunda oração. Porque a oração faz com que tenhamos corações apaixonados por Jesus Cristo, um coração que deseja ser de Jesus, que não só tem a obrigação de ser santo, mas a oração põe dentro dos nossos afetos o desejo, a convicção, a atração por Jesus Cristo.

A oração atrai o Espírito Santo, e o Espírito, como um ímã dentro de nós, vai fazendo com que todos os nossos sentimentos, pensamentos, afeições sejam atraídos por Jesus Cristo e pelo Evangelho, como alguém que está apaixonado. Quem está apaixonado não tem olhos senão para o alvo de seu afeto, não tem outro pensamento senão para ele. Pensamentos e sentimentos estão continuamente voltados para o alvo dos afetos. É uma obrigação ir à casa do namorado ou da namorada? Você já ouviu alguém dizer: "Ah, meu Deus, já está na hora de ir namorar? Não estou a fim!" Quem está apaixonado chega antes da hora combinada. E fica esperando.

Li o caso de um rapaz que tinha a maior dificuldade em acordar e ir para o colégio; a mãe o chamava várias vezes, até que ele conseguisse levantar-se. Um dia, a mãe foi ao seu quarto, acreditando ir fazer a primeira das muitas chamadas, mas o menino já estava no chuveiro. O que aconteceu? "Mamãe, tá na hora de ir me deixar, a senhora não vai?" O rapaz havia se apaixonado por uma garota no colégio.

A paixão tira da cama, faz levantar cedo, o sono vai embora, porque a pessoa amada é mais importante. Se se apaixonar por alguém humano produz esse efeito em nosso coração e em nossa alma, imagine se apaixonar pelo Divino. Imagine se apaixonar por Jesus Cristo e reavivar essa paixão todos os dias da nossa vida. Que maravilha aconteceria dentro de nós! Ter os olhos, pensamentos, sentimentos, esforços para Deus. Que revolução provocaria até nos nossos hábitos! Saberíamos amar nossos irmãos por amor a Deus. Amaríamos o difícil, saberíamos perdoar, dividir, partilhar, socorrer os que sofrem, porque teríamos um coração apaixonado por Deus, e por amor a Ele o apaixonado faz loucuras, até dar a vida, como esses jovens lá no Burundi. Quando temos um amor apaixonado, estamos prontos não só a ser santos, mas a ser mártires por amor a Ele.

E é este o convite que Deus nos faz hoje: termos um coração apaixonado por Ele. E sem a oração isso não acontece. Você pode dizer que é mais fácil apaixonar-se pelo namorado, pela namorada, porque você pode tocar nele, nela. Também em Jesus você pode tocar, pode vê-lo com os olhos da fé. E a oração é a forma de tocar em Jesus, de freqüentar o coração de Jesus, de freqüentar a casa dele, de passar tempo com Ele, de ler suas cartas de amor, que são os Evangelhos, de deixar-se possuir pelo amor dele que tudo realiza, transforma e faz.

Para sermos testemunhas de Cristo no terceiro milênio, precisamos ser homens e mulheres apaixonados por Deus. E a oração é o meio pelo qual Deus vai apaixonando nosso coração.
Talvez você não seja chamado a derramar seu sangue, mas com certeza é chamado a uma fidelidade total a Deus. E para você viver a santidade, você precisa de oração. A oração nos transfigurará em Cristo. E, nos transfigurando em Cristo, podemos sair por este mundo e lançar as redes, porque será o próprio Jesus que pelas nossas mãos as lançará. E testemunharemos pela nossa palavra e vida que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre.

Jesus, como olhou para Pedro, olha agora para você. Ele diz: "Faze-te ao largo, vai mar adentro, desenlaça tua barca, mergulha em mim, decide-te por mim hoje, agora. Decide-te por mim! Sê santo, porque meu Pai é santo e a santidade é a felicidade! Não tenha medo de ser santo, e emprega toda a tua vida em mim. Vale a pena!!!

Apaixona-te por mim. Eu te dou meu Espírito Santo que vai inflamar o teu coração. Aceita meu convite, faze-te ao largo. E aí, apaixonado por mim, homem ou mulher de oração, transformado por meu amor, lança as redes no mundo. Sê minha testemunha no mundo e verás as maravilhas que farei na tua vida".

Que Jesus leve à plenitude a obra que Ele iniciou em nós!


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