Formação

Frei Raniero: “A alma de todo sacerdócio”

comshalom

Uma relação pessoal, cheia de confiança e de amizade com a pessoa deJesus, é a alma de todo sacerdócio. Neste Ano Sacerdotal, voltei a lero livro do abade Jean-Baptiste Chautard, A alma de todo apostolado",que fez tão bem e sacudiu tantas consciências nos anos anteriores aoConcílio. Em um momento em que se dava um grande entusiasmo pelas“obras paroquiais”: cinema, jogos, iniciativas sociais, círculosculturais, o autor voltava a centrar bruscamente a atenção sobre oproblema, denunciando o perigo de um ativismo vazio. “Deus –escrevia–quer que Jesus seja a vida das obras”.

Não reduzia a importância das atividades pastorais, no entanto,afirmava que sem uma vida de união com Cristo, não eram mais que“muletas” ou, como as definia São Bernardo, “malditas ocupações”. Jesusdisse a Pedro: “Simão, tu me amas? Apascenta minhas ovelhas”. A açãopastoral de todo ministro da Igreja, desde o Papa até o últimosacerdote, não é mais que a expressão concreta do amor por Cristo. “Tume amas? Então apascenta”. O amor por Jesus marca a diferença entre osacerdote funcionário ou executivo e o sacerdote servo de Cristo edispensador dos mistérios de Deus.

O livro do abade Chautard poderia ter o título “A alma de todosacerdócio”, pois em toda a obra fala d’Ele como agente e responsávelem primeira linha da pastoral da Igreja. Naquela época, o perigo ante oqual se tentava reagir era o chamado “americanismo”. O abade se remontacom frequência, de fato, à carta de Leão XIII Testem benevolentiae, quehava condenado essa "heresia".

Hoje esta heresia, se de heresia pode-se falar, já não só é“americana”, mas uma ameaça que, inclusive por causa da diminuição daproporção de sacerdotes, afeta o clero de toda Igreja: chama-seativismo frenético. (Por outro lado, muitas das instâncias queprocediam naquele tempo dos cristãos dos Estados Unidos, e emparticular do movimento criado pelo servo de Deus Isaac Hecker,fundador dos Paulist Fathers, tachadas de "americanismo", por exemplo,a liberdade de consciência e a necessidade de um diálogo com o mundomoderno, não eram heresias, mas instâncias proféticas que o ConcílioVaticano II fará em parte suas).

O primeiro passo para fazer de Jesus a alma do próprio sacerdócioconsiste em passar do personagem Jesus ao Jesus pessoa. O personagem éalguém “de” quem se pode falar com alegria, mas “a” quem ninguém podedirigir-se e “com” quem ninguém pode falar. Pode-se falar de AlexandreMagno, de Júlio César, de Napoleão tudo o que se quiser, mas se alguémdissesse que fala com alguns deles, lhe mandariam direto para opsiquiatra. A pessoa, pelo contrário, é alguém com quem se pode falar ea quem se pode escutar. Quando Jesus não é mais que um conjunto denotícias, de dogmas ou de heresias, alguém do passado, uma memória, nãouma presença, fica-se em um personagem. É necessário convencer-se deque está vivo e presente. É mais importante falar com ele que falard’Ele.

Um dos aspectos mais bonitos da figura do Dom Camilo, de GiovanniGuareschi, tendo obviamente em conta o gênero literário, aprecia-sequando fala em voz alta com o Crucifixo sobretudo o que lhe sucede naparóquia. Se nos acostumássemos a fazer isso, com tanta espontaneidade,com nossas palavras, quanto mudaria em nossa vida sacerdotal! Nosdaremos conta de que não falamos ao vazio, mas a alguém que estápresente, que escuta e reponde, talvez não em voz alta como a DomCamilo.


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *