Formação

Igreja e Política

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Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

“Ajusta ordem da sociedade e do Estado é dever central da política. UmEstado, que não se regesse segundo a justiça, reduzir-se-ia a umagrande organização de ladrões, como disse Agostinho uma vez: « Remota itaque iustitia quid sunt regna nisi magna latrocinia? »”. “( n. 28)

A segunda parte da primeira carta encíclica de Sua Santidade Bento XVI tem esse título: “Caritas – a Prática do Amor pela Igreja enquanto Comunidade de Amor”. Nessaparte o Santo Padre, antes de estender-se sobre a questão, apresentaalgumas reflexões sobre Fé e Política. Nesse artigo vai um pouco dariqueza de seu ensinamento sobre esse particular. Ele nos recorda que“a norma fundamental do Estado deve ser a busca da justiça e que afinalidade de uma justa ordem social é garantir a cada um, no respeitodo princípio da subsidiariedade, a própria parte nos bens comuns” (n.26).

É,pois, missão do Estado a implantação da justiça na vida da sociedadeatravés de leis e de iniciativas que garantam para todos uma vidadigna. A Política se revela então como uma dimensão fundamental daexistência humana, pois ela diz respeito ao empenho da sociedade emfazer acontecer de fato o bem comum, que "consiste no conjunto de todasas condições de vida social que permitam e favoreçam o desenvolvimentointegral da personalidade humana" conforme ensinamento do saudoso PapaJoão XXIII. É para isso que existe o Estado e é essa a razão de ser dostrês poderes da República: a busca do bem comum pela garantia efetivados direitos fundamentais do ser humano desde sua concepção. São“poderes” não porque dominam sobre os cidadãos, mas porque estãoautorizados pelo conjunto da sociedade a procurar os meios que garantama consecução do bem integral de todos os seus membros. A justiça é agrande regra para o funcionamento dos “poderes” da República. Aautonomia, o respeito e a comunhão entre os três poderes são defundamental importância para o bom funcionamento da sociedade.

Ahipertrofia de qualquer um desses poderes destrói a democracia eprejudica enormemente o bem comum. Mas, quando a corrupção começa a seinfiltrar em todos os poderes da República, a Nação corre perigo dedesagregar-se. Há um provérbio latino que diz assim: “corruptio optimipessima”, em tradução literal: “a corrupção do ótimo é péssima”.  Umacoisa boa quando se estraga é ruim. Uma coisa muito boa – ótima -quando se estraga é muito ruim, é péssimo, traz enormes prejuízos paraas pessoas e para a sociedade. A Política é coisa muito boa, está aserviço da justiça: “A justiça é o objetivo e, consequentemente, tambéma medida intrínseca de toda a Política. A Política é mais do que umasimples técnica para a definição dos ordenamentos públicos: a suaorigem e o seu objetivo estão precisamente na justiça, e esta é denatureza ética.”(n. 28). Nosso país precisa salvar a Política dacorrupção. Isso só será possível mediante um empenho ético em que aspessoas assumam ser honestas não apenas em alguns aspectos de sua vida,mas na integralidade de sua existência.

Orespeito por si e pelos outros, o amor ao próximo e a noção,transformada em comportamento, do que é bom ou mau no conjunto daexistência humana, a experiência vivida da solidariedade, em âmbitoplanetário, com todos os seres humanos de qualquer nação, religião oucultura, tudo isso são valores que devem permear toda a vida dasociedade, começando na família, passando pela escola e penetrando ovasto universo da vida social e  tornando-se, enfim, a alma daPolítica.  Essa é a razão por que a Igreja não pode se ausentar doempenho pela justiça social que é essencialmente um empenho político. AIgreja o faz, entretanto, dentro do horizonte de sua missão específicaconforme nos recorda o santo Padre: “a Igreja não pode nem deve tomarnas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedademais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado.Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deveinserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar asforças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúnciastambém, não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não podeser obra da Igreja; deve ser realizada pela Política. Mas toca àIgreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça trabalhando para aabertura da inteligência e da vontade às exigências do bem” (n. 28). Épor isso que a Igreja não tem partido político e nem, enquanto Igreja,apóia tal ou tal partido, tal ou tal candidato. Ela orienta e estimulaa participação política de todos bem como sua militânciapolítico-partidária e oferece critérios éticos de avaliação dasideologias e dos programas políticos. Vivemos um momento políticodifícil em nosso país. Somos todos convidados a salvar a Política dacorrupção, devolvendo-lhe a dignidade e o respeito que ela merece.


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