Formação

Igreja existe para os cansados e oprimidos

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Neste Evangelho nos encontramos com a apresentação oficialdo colégio apostólico: «Os nomes dos doze apóstolos são estes: primeiro Simão,chamado Pedro…». Menciona-se claramente o primado de Pedro no colégio dosapóstolos. Não diz: «Primeiro Pedro, segundo André, terceiro Tiago…», como sese tratasse simplesmente de uma série. Diz-se que Pedro é o primeiro no sentidoforte de que é cabeça dos demais, seu porta-voz, quem os representa. Jesusespecificará mais tarde, no mesmo Evangelho de Mateus, o sentido do ser«primeiro», quando dirá «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minhaIgreja…».

 Mas não queria deter-me a analisar o primado de Pedro, mas omotivo que leva Jesus a escolher os doze e enviá-los. Descreve-se assim:«Jesus, ao ver a multidão, sentiu compaixão dela, porque estavam humilhados eabatidos como ovelhas sem pastor». Jesus viu a multidão e sentiu compaixão:isto o levou a escolher os doze apóstolos e a enviá-los a pregar, a curar, alibertar…

 Trata-se de uma indicação preciosa. Quer dizer que a Igrejanão existe para ela mesma, para sua própria utilidade ou salvação; existe paraos demais, para o mundo, para as pessoas, sobretudo para os cansados eoprimidos. O Concílio Vaticano II dedicou um documento inteiro, a Gaudium etspes, a mostrar como a Igreja existe «para o mundo». Começa com as conhecidaspalavras: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homensde nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são por sua vezas alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo».

 «Ao ver a multidão, sentiu compaixão dela, porque estavamhumilhados e abatidos como ovelhas sem pastor». Os pastores de hoje, desde oPapa até o último pároco do povoado, apresentam-se, desde esta perspectiva,como os depositários e continuadores da compaixão de Cristo. O falecido cardealvietnamita Van Thuan, que havia passado treze anos nas prisões comunistas deseu país, em uma meditação dirigida ao Papa e à Cúria Romana, disse: «Sonho comuma Igreja que seja uma “porta santa” sempre aberta, que abrace a todos, cheiade compaixão, que compreenda as penas e os sofrimentos da humanidade, umaIgreja que proteja, console e guie toda a nação para o Pai que nos ama».

 A Igreja deve continuar após sua ascensão, a missão doMestre que dizia: «Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados,e eu vos darei descanso…». É o rosto mais humano da Igreja, o que melhor areconcilia com os espíritos, e que permite perdoar suas muitas deficiências emisérias. O Pe. Pio de Pietrelcina chamou o hospital que fundou em São GiovanniRotondo, «Casa de alívio do sofrimento». Toda a Igreja deveria ser uma «casa dealívio do sofrimento». Em parte, deve-se reconhecer que o é, a não ser quefechemos os olhos à imensa obra de caridade e de assistência que a Igrejadesempenha entre os mais deserdados do mundo.

 Aparentemente as multidões que vemos ao nosso redor, aomenos nos países ricos, não parecem «cansadas e abatidas», como nos tempos deJesus. Mas não nos enganemos: detrás da fachada de opulência, sob os tetos denossas cidades, há muito cansaço, solidão, desespero, e às vezes inclusivedesespero. Não parecemos multidões «sem pastor», dado que muitos lutam em todosos países para se converter em pastores do povo, ou seja, em chefes econtroladores do poder. Agora, quantos entre eles estão dispostos a levar àprática o requisito de Jesus: «O que recebestes de graça, de graça dais»?


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