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“Independência ou Morte!”

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Não sei se alguma Nação demonstra tanto ufanismo como o Brasil no canto do Hino Nacional. Não sei se aquilo que canta o brasileiro transborda-lhe do coração. Só posso pensar que sim. Temos uma Pátria “gigante pela própria natureza”, não por obra humana, mas como dádiva do Criador. Temos um “formoso céu” onde a “imagem do Cruzeiro resplandece”. Nada pode fazer-nos esquecer o “brado retumbante” do príncipe Dom Pedro “às margens plácidas” do Ipiranga: “Independência ou Morte!”.

Em 2007, 225 anos após o “Grito”, esse ameaçador dilema ainda perdura, não mais com ênfase na defesa da soberania contra a colonização externa e sim, ênfase no obstinado duelo que se trava na vida interna do país em busca da superação da desigualdade social: que os sinais da “Morte” venham a desaparecer e a “Independência” signifique o que nossa Constituição dispõe: “todos são iguais perante a lei” (Art. 5). Sem dúvida, não se pode perder de vista que, no atual cenário internacional, há muito por fazer para que o processo de globalização econômica não se torne uma força de enredamento a enfraquecer a soberania das nações em desenvolvimento. Como efeito desse fenômeno de nossos tempos, o pior acontece, por exemplo, quando o padrão americano se abala e suas perdas fazem estremecer o mundo inteiro.

Os pequenos têm mais dificuldades de emergir do afundamento. Por essa e outras razões, o Papa João Paulo II pregava, com insistência, a globalização da solidariedade no sentido das nações mais ricas perdoarem as dívidas das mais pobres, também como forma de ressarcimento da exploração sofrida por elas. Como reconhecimento da gravidade do problema foi o gesto da Organização das Nações Unidas (ONU), longe de ser visto como esmola, de propor às nações desenvolvidas que doassem 0,08% de seus respectivos orçamentos anuais em benefício das nações com elevado índice de pobreza. Muito poucas assumiram tal compromisso.

O Brasil não mais se encontra nesse grau de dependência. Fernando Henrique Cardoso, em sua posse do primeiro mandato na Presidência da República, assim se expressou: “O Brasil não é um país subdesenvolvido, é um país injusto”. O que queria dizer: a maioria da nossa população sobrevive em estado de terceiro mundo, enquanto uma pequena parcela acumula riqueza excessiva. O “brado retumbante” pela “Independência” vem, hoje, lá dos grotões da Pátria, das periferias e favelas onde se encontram os bolsões da pobreza exibindo cenas de miséria explícita. É o “brado” dos que rejeitam a visão economicista do crescimento, priorizando o econômico em detrimento do social e “brado” dos que não aceitam a política neoliberal que faz o bolo crescer, concentra os frutos da produção em mãos de poucos e aumenta a desigualdade social.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo, se não for capaz de produzir uma economia social que gere empregos de promoção do bem-comum, não fará o Brasil sair da escravidão para “o sol da liberdade em raios fúlgidos”. Que vale o crescimento econômico que só faz crescer a desigualdade retratada nas estatísticas? “Apenas 10% da população se apropria de 80% da renda nacional com uma fortuna que corresponde mais da metade do PIB nacional. São os maiores ricos da América Latina”. (Folha de São Paulo, 15/07/2007).

A Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgou a pesquisa dos quatro últimos anos do século passado: “Existem, hoje, no país 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de indigência (29,3% da população), recebendo uma renda mensal inferior a 80 per capita”. Não podemos, pouco atentos, soltar a voz no Hino Nacional: “se o penhor dessa igualdade, conseguimos conquistar com braço forte…”. Toda escravidão é sinal da “Morte”. O Brasil já aboliu duas delas: a dos índios em 1755, a dos negros em 1888 e agora a terceira, referente ao trabalho, que se espera seja definitiva: o desemprego e o salário de fome. Ambos afetam a auto-estima, abalam a família e dificultam o exercício da cidadania.

O “brado retumbante” pela “Independência”, por mais altissonante que se sustente, ainda não comove os 10% da população controladora de mais da metade do PIB nacional. Mas, enquanto os 29,3% dos 170 milhões de brasileiros permanecerem abaixo do nível de indigência haveremos de nos empenhar para que, cada vez mais, seja verdade o que cantamos: “Se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta”. Não se pode querer mais pela “Pátria amada”: liberdade, igualdade e justiça. Estes, os melhores anseios patrióticos pela grandeza do Brasil.

*Dom Eduardo Koaik é bispo emérito de Piracicaba


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