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Infelizmente o demônio existe!

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O termo “demônio” provém do grego “dai,mwn”, que é de raiz incerta; por outro lado “diabo”, em grego “dia,boloj”, provém da palavra “diaba,llw”, que significa “acuso, calunio”; seu sentido é, pois, o de “caluniador, acusador”; “satã”, por outro lado provém do hebreu, com o significado de “insidiador, perseguidor”.

A existência do demônio aparece mais que suficientemente testemunhada na Revelação, na Tradição e no Magistério da Igreja. Na realidade, quase todas as religiões afirmaram a existência de seres maus; mas é na Revelação judeu-cristã onde se mostram sob seu verdadeiro aspecto.

Já no livro do Gênesis aparece sob a figura da serpente tentadora (cf. Gn 3), e já caracterizado por seu espírito mentiroso e homicida (cf. Ap 12,9; Jo 8,44). Durante as tentações de Jesus no deserto se mostra em sua atitude insidiadora para com os homens (cf. Mt 4,3-11).

Os primeiros cristãos não tiveram dificuldade em aceitar a doutrina contida na Sagrada Escritura, razão pela qual nem os Padres da Igreja e nem o Magistério fizeram muita insistência neste tema. Mas a partir do século IV a Igreja se viu obrigada a tomar posição contra a tese do maniqueísmo que fazia do demônio um princípio divino mau, posto à igual condição e combatendo ao Deus revelado (princípio bom); os textos dos autores eclesiásticos são, a este respeito, mais que abundantes e claros[1]. A doutrina era, pois, comum e firme.

No século XII e XIII, a aparição dos Cátaros (rebrote maniqueu na França meridional) exigiu da Igreja declarar uma vez mais a doutrina correta. O fez no IV Concílio de Latrão: “Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali (O diabo e os outros demônios foram criados por Deus com uma natureza boa, mas eles se fizeram a si mesmos maus)”[2].

 

Portanto, deve-se dizer que a existência dos demônios (anjos caídos) é de fé divina e católica. E se demonstra pelos testemunhos bíblicos, patrísticos, litúrgicos e magisteriais. Resumindo todos estes argumentos, o Concílio Vaticano II, na Constituição Gaudium et spes disse que nossa história “é uma dura batalha contra o poder das trevas, que, iniciada nas origens do mundo, durará, como diz o Senhor, até o dia final”[3]. E a Constituição Lumen gentium, retomando as palavras de São Paulo, recorda que “devemos lutar contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos”[4].

 

Os pontos fundamentais da doutrina católica sobre o diabo podem resumir-se nos seguintes:

 

1º Deus criou os Anjos que são bons por natureza, mas muitos deles pecaram e se fizeram maus deliberadamente. Diz o Catecismo: “A Escri-tura fala de um pecado desses anjos. Esta ‘queda’ consiste na opção livre desses espíritos criados, que rejeitaram radical e irrevogavelmente a Deus e seu Reino. Temos um reflexo desta rebelião nas palavras do Tentador ditas a nossos primeiros pais: ‘E vós sereis como deuses’ (Gn 3,5). O diabo é ‘pecador desde o princípio’ (1Jo 3,8), ‘pai da mentira’ (Jo 8,44)”[5]

2º Não foi o diabo quem criou a matéria e os corpos (como ensinou o maniqueísmo), mas sim Deus.

3º Satanás e seus sequazes foram castigados por Deus com o inferno, de onde põem armadilhas, tentam e perseguem aos homens na medida em que Deus permite.

4º Os demônios, como todos os Anjos, são espíritos puros, dotados de entendimento e vontade.

5º Os anjos caídos pelo pecado de soberba se perderam irremediavelmente, porque em virtude de sua natureza espiritual sua livre eleição entre o bem e o mal fica imutável uma vez feita e, portanto, sem possibilidade de arrependimento. Diz o Catecismo: “É o caráter irrevogável de sua opção, e não uma deficiência da infinita misericórdia divina, que faz com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado. ‘Não existe arrependimento para eles depois da queda, como não existe para os homens após a morte’ (São João Damasceno)”[6].

6º O demônio perdeu com seu pecado os dons sobrenaturais, mas conserva sua natureza espiritual ricamente dotada de inteligência e de tenaz vontade (agora inclinada ao mal).

7º Os demônios odeiam os homens; Seus motivos embora óbvios são explicados pelos padres da Igreja. O Dêmonio atingindo ao homem, obra prima e amado de Deus atinge diretamente o próprio Deus. Enfatizam ainda alguns Padres da Igreja, que estes assim o fazem, por terem sido estes destinados a substituí-los na Glória. Consequência disto é a instigação ao mal que exercitam sobre os homens em geral. “A Escritura –diz o Catecismo– atesta a influência nefasta daquele que Jesus chama de ‘o homicida desde o princípio’ (Jo 8,44) e que até chegou a tentar desviar Jesus da missão recebida do Pai. Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo (1Jo 3,8). A mais grave dessas obras, devido às suas consequências, foi a sedução mentirosa que induziu o homem a desobedecer a Deus. Contudo, o poder de Satanás não é infinito. Ele não passa de uma criatura, poderosa pelo fato de ser puro espírito, mas sempre criatura: não é capaz de impedir a edificação do Reino de Deus. Satanás, embora atue no mundo por ódio contra Deus e seu Reino em Jesus Cristo, e embora a sua ação cause graves danos –de natureza espiritual e, indiretamente, até de natureza física– para cada homem e para a sociedade, esta ação é permitida pela Divina Providência, que com vigor e doçura dirige a história do homem e do mundo. A permissão Divina da atividade diabólica é um grande mistério, mas ‘nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam’ (Rom 8,28)”[7].

 Por todos estes motivos o Papa Paulo VI, falando desta terrível realidade misteriosa e tremenda, afirmou com autoridade: “Sai do quadro do ensinamento bíblico e eclesiástico quem se nega a reconhecer sua existência; ou quem faz dela um princípio que existe por si e que não tem, como qualquer outra criatura, sua origem em Deus; ou a explica como uma pseudo-realidade, uma personificação conceitual e fantástica das causas desconhecidas de nossas desgraças”[8]. E o citado documento da Congregação para a Doutrina da Fé acrescenta a estas palavras: “Nem os exegetas, nem os teólogos deveriam esquecer esta advertência”[9].

Charles Baudelaire, em seu poema “O Jogador generoso”, escreve: “O diabo chegou a confessar-me que não tinha temido por seu próprio poder mais que uma só vez, no dia em que ouviu dizer desde o púlpito um pregador mais preparado que seus confrades: Queridos irmãos, não esqueçais… que a mais perfeita astúcia do diabo está em lhes persuadir de que não existe”.
 

[1] Os textos dos principais Padres da Igreja podem ser lidos no Documento da Congregação para a Doutrina da Fé, Fé cristã e demonologia, 26 de junho de 1975, Enchiridion Vaticanum, volume 5.

[2] Denzinger-Hüneremann, 800.

[3] Gaudium et spes, n. 37 b.

[4] Lumen gentiun, n. 35 a; 43 d.

[5] Catecismo da Igreja Católica, n. 392.

[6] Catecismo da Igreja Católica, n. 393.

[7] Catecismo da Igreja Católica, n. 394-395.

[8] Paulo VI, Alocução na Audiência geral de 15 de novembro de 1972; Ensinamentos do Povo de Deus, 1972, pp. 183-188.

[9] Congregação para a Doutrina da Fé, Fé cristã e demonologia, conclusão.
 


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