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LÁ ME VEREIS

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Meyr Andrade

Na narrativa da ressurreição apresentada por um dos evangelhos sinóticos, mais precisamente o evangelho de Mateus, no capítulo 28, versos 9 e 10, nós vamos encontrar um interessante modo de marcar um encontro de amor, uma proposta absolutamente original, no entanto, a mais autentica quando a experiência é a de um amor de verdade.
O que encontramos ali? Jesus ressuscitado está dizendo às mulheres que tinham ido à procura do seu corpo morto, que Ele, além de vivo, está atuante e que por isso mesmo quer marcar um encontro com seus discípulos. Até aí nada de mais… A novidade está no local em que se dará esse encontro, onde a saudade terá seu fim e a intimidade seu ápice: Galiléia, a das Nações, ponto de ebulição do pecado.
Vejamos bem, Jesus havia morrido fracamente perante os olhos do mundo, tinha sido sentenciado e executado impiedosamente pela multidão e pelas autoridades civis e religiosas da época, depois de todo um percurso de sinais, prodígios e discipulado. O coração dos seus estava tomado pela perplexidade, pelo medo e pela saudade… e de certa forma, pela decepção: “Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel…” (Lc 24, 21). Mesmo assim, quem não queria vê-Lo? Quem não daria tudo pra ter de volta o amor de que foram alvos, testemunhas e fruto? Era mais ou menos essa a situação humana, espiritual e porque não dizer, psicológica, dos que foram amados e formados intimamente pelo Senhor naqueles anos de convivência.
Imediato à ressurreição, o Senhor manifesta a continuidade dessa intimidade aparecendo às mulheres, confirmando que tudo continuava como era antes: eles ainda eram amados, prediletos, alvos da guarda divina e agora, absolutamente justificados. Mas a essa afirmação, o Senhor acrescenta um recado para que as mulheres o levem aos seus discípulos: o Amor quer reencontrá-los. Agora, ressuscitado, quer revê-los. O Amor quer rever os seus, quer dizer pessoalmente que agora eles são definitivamente reconciliados. O lugar desse encontro? Um verdadeiro campo de batalha.
A Galiléia das Nações era assim chamada porque na sua população havia um grande número de gentios, resultado de infiltrações acontecidas ao longo de sua história. Foi sucessivamente ocupada pelos assírios, caldeus, persas e gregos, daí podemos imaginar o caos de culturas, costumes, enfim, o paganismo que caracterizava aquela região. Lá Jesus viveu, pregou, realizou milagres, e lá se deram alguns dos fatos mais importantes de sua vida, como a convocação dos primeiros discípulos. Lá Jesus cumpriu a profecia de Simeão: seria luz para a revelação dos gentios, glória de Israel, seu povo (cf. Lc 2,32), o povo que caminhava na escuridão veria um grande clarão; sobre os que habitavam na região tenebrosa brilharia a luz (cf. Is 9,1-4). Essa luz, que é Cristo, brilhou para a Galiléia das Nações e queria reencontrar lá os seus discípulos fragilizados na esperança…
Um leito de guerra. Mas que lugar estranho para um encontro de amor! Mais ainda quando a saudade exigia o máximo cuidado para que nada, nenhum improviso, viesse interromper o reencontro. Normalmente os enamorados tem o cuidado de que o ambiente escolhido para a sua intimidade resguardem a paz, a fim de que nada possa conturbar a entrega mútua. Então porque o Senhor elegeu um “campo de batalha” para reencontrar intimamente seus diletos? O Amor quis ser desafiado pela guerra para dar mostras do seu poder e da sua lealdade e também gerar na instabilidade dos seus amantes a mesma solicitude. Como? Lançando-os numa propriedade do amor geralmente bastante temida pelo nosso natural: as vias da prova.
Não se sabe o que é o amor até o dia em que a prova peça contas da intimidade experimentada. Não se sabe o valor da entrega até que a perda ameace essa mesma intimidade. O Senhor quer intimidade, mas não uma pseudo-união, onde amamos só até a “não perturbação”, só até onde não hajam contra-tempos. O amor não pode durar só até onde o permitem as possibilidades ou as “estabilidades”. Amor que dura só até as portas da uma prova, sem atravessá-las, nunca o foi genuinamente.
O Senhor marcou um encontro na Galiléia, mais comumente conhecida “a Galiléia das Nações”, referência do pecado e de desvio da pura religião. Quer encontrar-se com seus discípulos onde estes estariam sob o risco de misturar-se exatamente com tudo aquilo que não pode conviver com o Amor. Mas que lugar para encontra-lo! Encontrá-lo onde provavelmente O perderíamos se a busca fosse apenas natural. Aqui trata-se de um encontro que tem por garantia a vida ressuscitada do Senhor. Se é verdade o leito de guerra da Galiléia, mais verdade ainda o é a arma da ressurreição, da qual o Senhor predissera: “Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo.”(Jo 16,33). O Senhor nos dissera essas palavras para não haver enganos sobre onde encontrar a paz, mesmo que o reencontro se desse no ambiente da tribulação.
Os que fogem dessa guerra não poderão rever o Senhor que quis ser reencontrado agora na batalha: “Não temais! (…) se dirijam à Galiléia, pois lá me vereis.” (Mt 28,10) Lá na Galiléia dará provas da Sua força e lealdade e gerará caridade madura nos seus, amor provado, não gerado pela aceitação por parte do mundo, mas exatamente pela extrema rejeição. O Amor estenderá seu domínio definitivo, fincará suas raízes mesmo a contra-gosto do mundo, contra seus argumentos “sólidos” como a fumaça…
O medo com certeza levantará sua voz, mas o Amor apresentará o poder da sua, porque não é um timbre, mas uma Pessoa Ressuscitada. Na tribulação do mundo, “a Voz de Deus que contorce os carvalhos” (cf. Sl 28,9) dará poderosa manifestação da Sua superioridade e instruirá os seus. Temos prova disso no que se passou com os discípulos da primeira hora: Pedro negara, mas atendendo ao Senhor, O reencontra na “Galiléia” e passa a ser identificado não mais pela sua ignorância, mas pelo destaque da sua parresia: “Vendo eles a coragem de Pedro e de João, e considerando que eram homens sem estudo e sem instrução, admiravam-se.” (At 4,13). E assim, os demais discípulos.
Galiléia será, a partir de então, o mundo inteiro e sua tentativa de inibir o Evangelho, a boa notícia de que o homem agora pode reencontrar o Senhor, possuí-lo e pertencer a Ele definitivamente, ainda que sejam desafiantes suas permanentes fragilidades. Galiléia é o mundo de hoje que tenta inibir a criação que, gemendo, espera a manifestação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19), incutindo no coração do homem a ridícula possibilidade de Deus não existir. Galiléia é o mundo onde eu e você vivemos, mas pelo qual, talvez, sejamos tragados ao nos envergonharmos da radicalidade, como se fosse ultrapassado ser sensato e coerente; como se virtude, liberdade e verdade fossem não mais que uma moda sujeita às nossas instabilidades de gosto, durando apenas uma fase.
Galiléia talvez seja dentro de nós mesmos, lugar não visitado porque não conseguimos ainda “matematizar” a gratuidade de Deus e nunca poderemos; daí ser duro demais a humilhação de receber sem pagar à altura… Pobre de nós, “galileus” se tememos ao mundo que pode matar corpo, e o tem feito cruelmente, mas não pode destinar à plenitude nossa alma (cf. Lc 12,5) e que viverá eternamente o fruto das suas escolhas, submetidas ou desgarradas do Amor. Daquele Amor que nos chamou à Galiléia para libertá-la e não temê-la, tampouco ser como ela.
À Galiléia sim, corajosamente, mas pelas seguras estradas da Ressurreição. Sem fugir, antes, atendendo ao chamado do Amor. Lá O encontraremos íntimo, intacto e leal.

meyrandrade@comshalom.org
Bibliografia
Bíblia de Jerusalém
Moysés Louro de Azevedo Filho in Retiro das Autoridades 2006, Fortaleza.


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