Formação

Lanternas de papel e a cura da cegueira

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Dom Pedro José Conti

Emtempos antigos, no Japão, usavam-se lanternas de papel e de bambu comuma vela dentro. Também não havia iluminação pelas ruas. Uma noite, umcego foi visitar seu amigo. Ao despedir-se dele, o amigo ofereceu-lheuma lanterna para poder voltar em segurança à sua casa.

– Eu não preciso de lanterna – disse o cego – escuridão ou luz, para mim é tudo a mesma coisa .

–Eu sei que o senhor não precisa de lanterna para encontrar o caminho dasua casa – retrucou o outro – porém, se não tiver nenhuma luz, alguémpode atropelá-lo. Portanto deve levar, sim, a lanterna.

O cego foi embora com a lanterna. Após alguns passos, chocou-se violentamente com outra pessoa.

– Olhe para onde anda – reclamou o cego – não viu a lanterna?

– A sua vela está apagada – respondeu o desconhecido e foi embora.

Ocego do evangelho deste domingo tem um nome, chama-se Bartimeu.Significa que ficou conhecido pela coragem de gritar, pela fé e a curaque recebeu de Jesus. Talvez fez algo mais, seguindo o Mestre nocaminho. Também não pode ser por acaso que o evangelista Marcos tenhacolocado os anúncios da morte e da ressurreição do Senhor entre a curade dois cegos, o de Betsaida e o de Jericó. Eles são curados e começama enxergar claramente.

Osapóstolos, ao contrário, continuavam cegos porque não entendiam nada.Não aceitavam que Jesus pudesse ser perseguido e morto; e nãocompreendiam o que queria dizer ressuscitar dos mortos. Cego éjustamente alguém que não vê. Também o que não entende nada, ou quase,é como se fosse cego, falta-lhe a luz da compreensão. Contudo Jesusestá disposto a ajudar. Pode abrir os olhos, a cabeça e o coração aquem, da beira dos caminhos da vida, pede-lhe socorro, a quem grita porluz.

Éevidente também que no escuro, na falta de luz, somos todos cegos, sóavançamos tateando. Por isso cegueira e luz andam juntas nosevangelhos. Uma situação chama a outra. Para poder seguir Jesus deverdade no caminho da cruz, do sofrimento e da morte, precisa ter a luzda fé, sem ela tudo aquilo continua absurdo, incompreensível, uma noitetotal.

Diantedisso precisamos nos perguntar: como está a luz da nossa fé? Seria bomconferir se a vela acesa que recebemos no nosso Batismo, talvezrecém-nascidos, ainda está nos servindo na idade adulta. Pela vida quetantos batizados conduzem é o caso de nos perguntarmos onde foi parar aluz fé. Não aparece mais nas pequenas decisões e menos ainda nasgrandes. Os faróis da vida são outros. O clarão do dinheiro, doprestigio, do comodismo e do sucesso nos cegou. Essas são as únicascoisas que enxergamos. O resto é pura escuridão. Raramente temos tempopara rezar, agradecer a Deus, ir à Igreja, visitar os pobres e ossofredores. O caminho da vida também vai no sentido contrário: deveriaservir para chegar mais perto de Deus e dos irmãos, no entanto pode serque esteja nos conduzindo cada vez mais longe deles. Estamos ficandocegos e com a vela da fé, que recebemos em dom, apagada, como o homemda historinha. Pensamos estar seguros, conhecer bem o caminho. Sóacordamos se alguém, ou as circunstâncias da vida, nos atropelam. E nãoadianta reclamar, estamos na escuridão completa, deveríamos carregaruma luz, porém a deixamos apagar.

Quebom se muitos tivessem mais coragem e nos gritassem: “Meu irmão, minhairmã a tua vela está apagada!” Talvez os nossos olhos se abririam,então começaríamos a enxergar a nossa pobre condição humana, as nossasfraquezas e pecados, começaríamos a gritar como o cego Bartimeu paraque Jesus tivesse piedade de nós. Infelizmente estamos tão cheios deorgulho que nos custa admitir que deixamos apagar a fé em nós.

Umdetalhe, o homem da história, que deu de encontro ao cego na escuridão,pelo jeito também andava sem lanterna ou com a vela apagada. Nenhum dosdois tinha luz. Se ao menos um deles tivesse um pouquinho de luz, nãosó os dois não teriam se chocado, como o que tinha “o fogo” teriapodido transmiti-lo ao outro. Quem perde a fé, arrasta sempre outrospara a escuridão. Vamos sair dessa. Coragem! Levantemos! Jesus continuaa nos chamar.


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