Formação

Lol!

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LOL! ¹

 

 “Lol! O paiacabou de sair daqui. As luzes estavam apagadas e as cortinas fechadas, ele nemme viu direito. Foi show pintar as paredes de azul escuro e laranja. Fica tudona bruma, meu! Só gritou: “Seu Kauê, quero ver o dever feito quando chegar!” Bizarro!Nunca ligou para dever, nunca foi me pegar no colégio, nunca pôs o pé emreunião de pais, nunca saiu comigo e agora quer dar uma de careta! Pô, qual é,bicho? Que foi que te mordeu? Aposto que a mãe te deu aquele livro careta delaprá ler… se é que ‘tu sabe’ ler… só te vi até hoje com a Playboy e olhelá… Isso cheira a perigo! É preciso planejar um contra-ataque. Fácil! Umtoque no controle remoto do som “nas alturas”, como ele diz. O jogo quedownloadei, cheio de tiros e barulho de carros correndo, cantando pneu,derrapando, freiando… Pronto! Perfeito! Para completar, um clipezinho básicoda MTV com acompanhamento fera de guitarra do gatinho aqui e, como toque final,os headphones para fingir que não ouço, caso ele fale comigo. Agora é contagemregressiva: “três… dois… um… fogo!… três… dois… um… fogo!” Ué?!? Cadê ele? Sair não saiu, queainda estava de pijama… Será que coloquei a corrente no trinco? … Voudeixar a porta só encostada e tentar novamente… Força total, galerinha…”três…dois… um…um… um… “ ué, será que displugou? Já sei! Arrependeu-se porquequis mandar em mim e foi pedir o milk shake. É esperar… Daqui a pouco bate naporta: “Kauê, meu filho, vem tomar teu lanche… É o shake que você gosta… porçãoespecial de calda de chocolate…” Eh, eh… tá no papo…”

 Algunsminutos se passam e, interrompendo sua “diarréia mental” característica, comcompleta ausência de lógica e de parágrafos, em um verdadeiro atentado aoportuguês, Kauê verifica a área para montar nova estratégia:

 “Melhorabrir um pouco mais a porta. Vai ver ele deixou a bandeja no chão… Nada…Lô! ²O que deu nele? … Pô, cara, vou ter que fumar o último baseado! Ontem aNadine acabou com meu estoque! Vá lá… bem que valeu a pena… “ E, após umbreve devaneio apaixonado:

“É infalível! Ele sente o cheiroe logo vem, desconfiado, bater na porta, inventar uma desculpa para me tirar doquarto… Tudo pronto: som “nas alturas”, game on, MTV, guitarrinha básica dofera aqui no acompanhamento, fumacê e porta entre-aberta. Contagem regressivapara ele vir se arrastar aos meus pés e nem mais se lembrar de tarefa – ou“dever”, como diz o careta. “Três… dois… um… fogo!”

 “Kauê,Kauê, meu filho!”, bate o pai na porta. “Você quer que peça aquele shake de quevocê gosta?”

 Vitorioso,Kauê soca o ar, triunfal: “Não responde, Kauê, não responde! Tá na mão! Tá namão, bicho!”, festeja, aumentando para o volume máximo o amplificador daguitarra, já meio lombrado.

 “Kauê,posso entrar, filho?”, suplica o pai, enfraquecido, ensurdecido pelo barulhoinfernal, tendo por resposta um acorde esganiçado da guitarra amplificado pelopedal de distorção.

 “Tá nopapo!”, pensa Kauê, tomando uma última, longa, profunda tragada e jogando afumaça pela fresta da porta apenas encostada, após escorregar no preservativousado que ficara no chão na noite anterior: lembrança da Nadine. “Paiêêê!”, gritou.

 “Diga,filhao!”, respondeu o pai, animado.

 “Será que amãe lembrou de comprar as camisinhas no supermercado? Usei a última ontem …”

 “Não sei,filho, ligue para o celular dela… Kauê… posso entrar?”

 “Não! Agoraestou ocupado!”, responde Kauê todo-poderoso em mais esta pequena vitória,enquanto o pai, angustiado, culpado, esmagado, senta-se ao chão, a esperar pacientementeque ele o admita ao quarto, a pensar porque, apesar de todas as suas tentativasde tornar-se amado e amigo do filho, estava agora nesta situação. Logo ele, quesempre tivera tudo o que queria e tudo o que os amigos tinham. Logo ele, porquem o pai e a mãe se haviam sacrificado, deixado de viajar, de jantar a dois,de curtir a vida. Logo ele… filho único por decisão dos pais, resolvidos alhe dar a melhor educação, as melhores roupas, os melhores brinquedos, o melhorsom, a TV de 29 polegadas, a guitarra Fender, o computador de última geração…Logo ele!

Encostado, em completa desolação,à parede do corredor, pensou, em um laivo de lucidez:

“Será que tinha razão a minha mãequando me dizia que “é de menino que se desentorta o pepino”? Será que, comodizia sua “velha”, lhe haviam faltado uns bons “relas”? Ou será que tinhaescolhido a escola errada? Será que era melhor telefonar para o Dr. Gutemberg?Podia ser algum distúrbio hormonal… Ou será que era ele quem devia fazeralguma coisa? Mas, fazer o que? Como? Quando? Invadir o quarto? Nem pensar!Tinha de respeitar a individualidade do filho. O jeito é conversar, explicartudo direitinho, com paciência, agüentar grito e xingação para não traumatizaro Kauê, como tinha feito a vida inteira. Não, não iria morrer na praia…Acreditava em dar boas razões, em convencer com bom argumentos, em aguardar queo filho tomasse suas próprias decisões. Tinha sido assim desde suas primeirassemanas..”

E, perdido em seus pensamentos,ali mesmo, sentado ao chão como um verme aprisionado, lembrou-se do PadrePeter, do encontro de jovens, citando a velha Bíblia: “quem educa seu filhoencontrará nele motivo de alegria”, enquanto de soslaio avistava sobre o criadomudo do seu quarto, ainda na embalagem plástica, o livro suspeitamenteameaçador do ponto de vista de Kauê: “O direito dos pais”, Tânia Zaguri.Cansado, exausto, chorou amargamente enquanto ainda inalava o odorinconfundível da marijuana que também ele “pegara” nos tempos de Woodstock.

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¹“Lol”- abreviatura para “Lots of Laughter”, utilizada pelos adolescentes paraexpressar os mais variados tipos de emoções ou sentimentos.

 

²“Lô”- aportuguesamento do inglês “low”, que significa “baixo”. Usado paradenotar decepção ou negatividade.

 


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