Formação

Manchetes da Bíblia

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 Dom Luiz Demétrio Valentini

Nestedomingo termina em Roma o Sínodo sobre a Palavra de Deus. Pelo númerode peritos convidados, fica evidente a provocação para um renovadointeresse pela Bíblia, uma coletânea de escritos que recolhem doismilênios, de Abraão ao primeiro século de nossa era, que servem deparadigma para toda a humanidade.

Suamensagem continua válida. Mas sua natureza de texto escrito a partir devivências concretas, coloca sempre de novo a necessidade de transporestas experiências para os novos contextos que a história vaiengendrando. Disto decorre ao mesmo tempo a permanência da Bíblia como“significante” estruturado, portador de um “significado” que precisaser deduzido e atualizado, para usar palavras da moderna lingüística. Éo permanente desafio da correta “interpretação” da Bíblia.

Anos atrás, nos bons tempos da aprendizagem escolar a partir do “livro-texto”, era preciso “passar de livro”. AIgreja não precisa “passar de livro”! Ela pode ficar os séculos todoscom o mesmo livro, escrito em parceria única de Deus com os meandros dahistória humana..

Emsua forma final, a mensagem da Bíblia é apresentada como “Boa Notícia”,“Boa Nova”, um “Evangelho”, como ficou cunhada a palavra típica para sereferir à mensagem de Jesus de Nazaré. Antes de apresentar o“noticiário”, sempre convém destacar as manchetes centrais, que atraema atenção.

Percorrendo a Bíblia, identificamos logo algumas destas “manchetes”, que ajudam a situar o conjunto da mensagem.

Aprimeira delas é a respeito de Deus e do relacionamento especial queele estabeleceu com seu povo: “Escuta, Israel, o Senhor é o teu Deus,um só é o Senhor” (Dt 6,4). São palavras muito densas. Contêm ao mesmotempo a afirmação do senhorio de Deus sobre seu povo, e a enfáticadeclaração de sua unicidade. É a passagem mais lembrada pelaespiritualidade hebraica, na famosa expressão retomada com freqüêncianos salmos: “shemá, Israel, o Senhor é o teu Deus, um é o Senhor!”,reafirmada sem rodeios por Jesus (Mc 12,29)

Aíencontramos a contribuição religiosa mais importante do povo hebreu. Aele devemos a clara consciência do moteismo, indispensável para balizarcorretamente toda a revelação bíblica a respeito de Deus. Bastaria istopara sermos eternamente agradecidos aos nossos “irmãos maiores”, osjudeus. Historicamente eles se identificam com esta nobre causa daafirmação inequívoca da unicidade de Deus, que abre caminho para acorreta compreensão do seu mistério, refletido na sua criação, erevelado por sua iniciativa.

Emdecorrência desta afirmação teológica, segue a outra “manchete”, deordem ética, o “mandamento” do amor total a este Deus único eexclusivo: “Portanto, amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teucoração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (Dt 6,4). 

Aestas duas manchetes convém logo acrescentar a terceira, que liga oamor a Deus com o amor ao próximo: “Amarás o próximo como a ti mesmo”.Quando perguntado pelos fariseus sobre o “primeiro” mandamento, Jesussempre fazia questão de lembrar que havia um “segundo”, que inclusivecomprovava a veracidade do primeiro (Mt 22,38).  E acrescentava: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,40). 

Depois,vieram as “manchetes” decorrentes da “Boa Nova” anunciada por Jesus.Ele colocou a si próprio como referência para o amor ao próximo. E fezquestão de ressaltar: “este é o meu mandamento, que vos ameis uns aosoutros como eu vos tenho amado” (Jo 13,34). Amar o próximo como a simesmo fazia parte da antiga lei. Amar o próximo como Jesus amou, fazparte do Novo Testamento.

Porfim, outra “manchete” que pode ser colocada nesta perspectiva deevolução da mensagem bíblica, é aquela que o apóstolo João nosapresenta: “Deus é amor, e quem ama permanece em Deus e Deus permanecenele” (1Jo 4,16).

Comorobustos varais, estas “manchetes” permitem desdobrar todas as páginasda Bíblia, e estendê-las ao sol da compreensão humana.


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