Formação

Na Vontade do Pai

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Frei Gabriel de Santa Maria Madalena, OCD

Cristo, “ao entrar no mundo, diz: ‘Não quisestes sacrifício nem oblação, mas formastes-me um corpo’… Então eu disse: ‘Eis que venho… para fazer, ó Deus, a vossa Vontade’” (Hb 10,5-7). Esta é a constante, íntima disposição de Jesus perante a vontade do Pai. Aos Apóstolos que o convidam a tomar um pouco de alimento, responde: “Tenho um manjar para comer que não conheceis… meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou, e cumprir sua obra” (Jo 4,32.34). O que Jesus deseja, o que o satisfaz é unicamente cumprir a vontade de seu Pai: nela tem seu olhar sempre fixo e não faz movimento que não seja conforme à vontade do Pai.

A vontade humana de Jesus está transformada, perdida na vontade de Deus do modo mais pleno e perfeito: age somente sob o impulso de tal Vontade. “Desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. Não busco minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6,38; 5,30). Eis o estribilho, o ritmo de sua vida, norma que regula toda a sua conduta, motivo profundo de todas as suas ações.

Cumpre Jesus a vontade do Pai não por necessidade, mas com soberana liberdade, movido por seu imenso amor filial. Sua absoluta submissão ao Pai é a característica e a expressão de seu amor; é o motivo pelo qual o próprio Pai o ama: “Por isso o Pai me ama: porque dou a minha vida… Ninguém a tira de mim, mas a dou por mim mesmo… Tal é a ordem que recebi do Pai” (Jo 10,17-18). Assim sua vida iniciada com o grito: “Venho fazer a tua vontade”, encerra-se com outro que ultrapassa, pelo amor, todas as repugnâncias da natureza perante o máximo sofrimento: “Pai… não se faça minha vontade, mas sim a tua” (Lc 22,42).

Filho adotivo de Deus, também para o cristão o caminho da santidade, a regra de sua conduta deve ser a vontade do Pai celeste. Como Jesus, deve ele alimentar-se dessa santa e santificante vontade, e dela nutrir-se a cada momento, só procurando e desejando cumprir tal vontade, e dela fazer o único e grande móvel de sua vida. É necessário chegar à plena conformidade da própria vontade com a de Deus, de modo que – como ensina S. João da Cruz – no próprio pensar e agir “nada haja em contrário à vontade do Altíssimo” (S I,11,2).

A conformidade com a vontade de Deus e o crescimento no amor são os dois elementos constitutivos da santidade da vida de união com Deus, elementos que vão juntos, porque um condiciona o outro: à maior conformidade da vontade, corresponde maior amor e vice-versa. Disse Jesus: “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14,25).

O cumprimento da palavra, ou seja, da vontade de Deus é a condição para viver e crescer no amor e na graça, e, por conseguinte, para gozar da habitação da SS. Trindade na própria alma. À medida que a conformidade com a vontade divina se torna mais completa, de modo a observar não só os preceitos, mas as mínimas particularidades da vontade de Deus, e a excluir não só os pecados mortais, mas também os veniais e até as menores infidelidades voluntárias; à medida que chegar o cristão a procurar o beneplácito divino em todas as coisas e a abraçar tudo o que, de qualquer modo, Deus quer ou permite, cresce no amor e na graça. Em troca, a SS. Trindade se dá cada vez mais a ele, nele põe sua morada de forma cada vez mais plena e profunda, convidando-o a uma união cada vez mais íntima consigo.

Dizia Jesus: O Pai “está comigo, e não me deixa só, porque faço sempre o que é do seu agrado” (Jo 8,29).

Transcrito de: Madalena, Gabriel de Santa Maria. Intimidade Divina. 2ª ed. São Paulo: Ed. Loyola, 1990, pp. 489-490.


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