
No filme que é projectado numa sala da exposição milanesa o espectador é guiado no estúdio parisiense do artista onde se encontram os objectos que ele mais amava: ícones, pinturas sacras sobre vidro e a pequena estátua de um anjo em cerâmica colorida. Além da leitura dos seus textos que foram muito importantes, são precisamente estes objectos que testemunham a forte tensão espiritual que atravessava o fundador da arte abstracta contemporânea. De facto, a sua escolha de superar o sujeito, de abandonar a reprodução da natureza, inspira-se no desejo intenso de compreender a alma do mundo. Depois dele, a arte abstracta continuou por outros caminhos, com mais evidência pelos percursos emocionais do que espirituais e substancialmente – à parte naturalmente algumas excepções – cortou os vínculos que Kandinsky sentia tão claramente, em profunda fidelidade com a tradição dos ícones, entre inspiração e experiência mística. Mas os visitantes que observam emocionados as maravilhosas obras expostas em Milão sentem que nelas há algo mais do que a energia da beleza, da cor, da harmonia. Intuem, talvez sem o confessar a si mesmos, que olhando para Kandinsky se reata o seu vínculo interior com a vida espiritual, também em aparente ausência de imagens sagradas.
Lucetta Scaraffia
Fonte: L´Osservatore Romano
